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A Matemática

Os estudos matemáticos conheceram especial protagonismo na reforma pombalina da Universidade de Coimbra de 1772, sendo o destaque proporcionado a esta área científica revelado pela criação de uma faculdade de Matemática. Dos professores nomeados pelo Marquês de Pombal, destacaram-se o padre José Monteiro da Rocha (1734-1819), formado na UC e que havia pertencido à ordem dos jesuítas, e José Anastácio da Cunha (1744-1787), um oficial de artilharia e autodidata em Física e Matemática. Entre os dois matemáticos gerou-se uma forte rivalidade, derivada de diferenças de opinião sobre questões religiosas mas também ao conflito de personalidades. Anastácio da Cunha permaneceria apenas alguns anos na UC, uma vez que, devido às suas posições anticlericais, foi condenado pelo Tribunal da Inquisição, em 1778, sendo durante alguns meses feito prisioneiro. Após ter recuperado a liberdade, nunca seria reintegrado nem na UC nem no exército. Contudo, os atritos entre Monteiro da Rocha e Anastácio da Cunha mantiveram-se sempre, alimentados por acusações de plágio e disputas de precedências científicas. O conflito entre os dois matemáticos deu origem a uma publicação n’O Instituto, em 1890, intitulada Questão entre José Anastácio da Cunha e José Monteiro da Rocha, da autoria do matemático e professor da UC António José Teixeira. O artigo teve por base uma carta enviada por Anastácio da Cunha a um seu colega, onde o primeiro expunha uma série de críticas a Monteiro da Rocha, acompanhadas de deduções matemáticas. José Teixeira analisou em pormenor o conteúdo da carta, confrontando-o com a resposta de Monteiro da Rocha e com a réplica de Anastácio da Cunha intitulada Factos contra calumnias.

Monteiro da Rocha é considerado um dos fundadores do Observatório Astronómico de Coimbra, tendo sido o seu primeiro diretor. Os novos estatutos da Universidade determinaram a sua instalação em Coimbra como local de aulas práticas de Astronomia, mas também como sítio para determinar longitudes. Inicialmente, foi projetado um edifício ambicioso localizado no castelo medieval de Coimbra, então em ruína parcial. As obras começaram, mas foram suspensas em setembro 1775, devido a problemas com a localização e devido a falta de fundos. O novo edifício, menos ambicioso, localizado no pátio da Universidade, num lugar bem próximo da rica Biblioteca Universitária, foi inaugurado em 1799. A história deste observatório foi relatada nas páginas de O Instituto em vários artigos. António Maria Seabra de Albuquerque (1820-?) descreveu a história do Observatório, incluindo estampas das plantas do edifício inicial e do definitivo (Albuquerque, 1876, pp. 182-189). Um artigo de José Freire Sousa Pinto, publicado em 1893, forneceu informação adicional desde 1872, incluindo um quadro com a descrição dos instrumentos adquiridos e o seu preço (Pinto, J., 1893, pp. 133-134). Finalmente, no volume comemorativo do IV centenário da instalação definitiva da Universidade em Coimbra, José Ramos Bandeira (1906-?) dedicou uma parte do seu artigo sobre a Universidade à história e descrição do Observatório Astronómico e da sua biblioteca (Bandeira, 1942, pp. 523-586).

Nos primeiros volumes de O Instituto surgem vários artigos dedicados à astronomia, sendo os primeiros da autoria de Florêncio Mago Barreto Feio (1819-?), professor de Matemática da UC, sócio do IC e comendador da Ordem de Cristo. Este professor desempenhou funções científicas no Observatório, tendo dirigido as obras de colocação do equatorial (instrumento com que se observa a ascensão e declinação dos astros). Em breves artigos relatou as mais recentes notícias astronómicas: sobre a descoberta de um novo asteroide pelo astrónomo inglês John Russell Hind (1823-95), a 22 de agosto de 1852, sobre a Determinação das diferenças das estrelas fundamentais em ascensão reta, por meio das observações de Bradley, sobre os anéis de Saturno (Feio, 1852) e sobre as Novas tábuas de paralaxe da lua de J. C. Adams (Feio, 1854). Num período posterior a Barreto Feio, Jácome Luís Sarmento de Vasconcelos e Castro (1814-74), também professor de Matemática, publicou alguns artigos sobre mecânica astronómica, designadamente equações para o cálculo de efemérides astronómicas.

Algumas atividades realizadas no Observatório Astronómico foram descritas por Rodrigo Ribeiro de Sousa Pinto (1811-93) que, para além de professor de Matemática, também foi diretor do Observatório conimbricense, nomeado em 12 de julho de 1866.[5] Era um astrónomo reputado, sendo muito elogiado por Dias Pegado que o classificava como um dos maiores matemáticos portugueses. 

O elogio de Dias Pegado também poderia ser endereçado, talvez mesmo em maior grau, a Francisco Gomes Teixeira (1851-1933), aluno laureado da Faculdade de Matemática da UC. Quando ainda desempenhava as funções de lente substituto da Faculdade de Matemática, fundou, em 1877, o Jornal de sciencias matemáticas e astronómicas, um periódico que se manteve durante 28 anos contribuindo para a divulgação dos trabalhos dos matemáticos portugueses. Quando já era catedrático, pediu a transferência em 1884 para a Academia Politécnica do Porto, onde permaneceu até se tornar Reitor da Universidade do Porto em 1911, quando esta substituiu a Academia. Este sócio do IC foi autor de numerosos trabalhos científicos publicados em Portugal e no estrangeiro, alguns dos quais com verdadeiro impacto internacional.[6] Num artigo publicado n’O Instituto em 1926, o engenheiro eletrotécnico italiano Giovanni Giorgi descreveu vários trabalhos realizados pelo “ilustre professor F. Gomes Teixeira”, incluindo o desenvolvimento de um caso particular das chamadas “séries de Teixeira” (Giorgi, 1926).

A história da Matemática em Portugal foi investigada por Rodolfo Ferreira Dias Guimarães (1866-1918), considerado uma referência nesta área. Este sócio do IC, para além de alguns escritos contendo demonstrações matemáticas, publicou n’O Instituto vários artigos sobre história da ciência, o primeiro dos quais, em 1901, sobre as obras de Pedro Nunes. Mais importante foi a memória Les Mathématiques en Portugal, onde se inclui uma extensa bibliografia da matemática portuguesa. Tal como é descrito por Rodolfo Guimarães, muitos foram os nomes de matemáticos que foram professores na UC ao longo da segunda metade do século XIX que, apesar da sua dedicação e competência pedagógica, não deixaram obra científica relevante, para além da tradução de livros de alguns autores estrangeiros e de muitos artigos publicados n’O Instituto que consistiram principalmente de notas e apontamentos de demonstrações matemáticas, biografias de sábios, discursos e notícias bibliográficas de livros (Guimarães, 1904, p. 33). Para além dos nomes já referidos, merece destaque o também professor de Matemática da UC Augusto de Arzilla Fonseca (1853-1912). Fonseca obteve, em 1884, o grau de doutor em Matemática com uma dissertação intitulada Princípios Elementares do Calculo de Quaterniões, que haviam sido descobertos pelo matemático e físico irlandês William Rowan Hamilton (1805–1865) em 1843 (ver Costa, 2008).

Até 1911, para além da astronomia, também a mecânica era ensinada na Faculdade de Matemática, pelo que a esmagadora maioria dos artigos nesta área são provenientes de matemáticos. Em 1861, o matemático António José Teixeira estava encarregado de reger a cadeira de Physica Matemática e, tendo verificado a falta de compêndio ajustado ao programa, usou as páginas de O Instituto para apresentar o conteúdo letivo relativo a integrais definidos, disponibilizando-o deste modo aos estudantes e a outros de “penna mais habil” que pudessem suprir os defeitos encontrados (Teixeira, 1861, p. 207). Não sabemos se por motivo semelhante, mas, a partir de 1872, o matemático Luiz da Costa e Almeida (1841–1919), também professor na Faculdade de Matemática, iniciou a publicação de uma série de demonstrações matemáticas relativas a problemas de mecânica. Alguns destes trabalhos foram reunidos em memórias com o título geral de Apontamentos de Mecânica e Apontamentos de Cinemática, publicados até 1915.

Já no século XX, no período da presidência do IC de Costa Lobo, surgiram alguns artigos de matemáticos europeus. Foi o caso do matemático russo Nikolay Mitrofanovich Krylov (1879–1955) que realizou, em 1927, em Coimbra uma série de conferências onde expôs as suas investigações sobre integração aproximada das equações diferenciais da Física Matemática. Um primeiro artigo sobre este assunto já tinha sido publicado em 1925. O segundo artigo publicado n’O Instituto correspondeu à conferência de introdução das suas lições subsequentes, lecionadas em Coimbra. Krylov abordou o problema das equações diferenciais através da verificação de uma relação entre dois estados infinitamente vizinhos de um sistema material, num caso em que a integração parecia esbarrar com dificuldades insuperáveis (Krylov, 1927, p. 556). Krylov notou que os fenómenos físicos, apesar da sua diversidade (propagação do calor, a vibração de cordas e membranas e os fenómenos luminosos, eletromecânicos e hidrodinâmicos), eram regidos por um conjunto restrito de equações diferenciais, que deviam ser complementadas por condições iniciais ou por condições de fronteira. A formulação de modelos esquemáticos dos fenómenos, através da integração aproximada das equações diferenciais segundo certas hipóteses, não permitiria captar a sua essência (idem, p. 557). Krylov veio a desenvolver novos métodos de análise de equações da física matemática através da integração não-linear de equações diferenciais.



[5] Apesar de antes desta data ter já, em várias ocasiões, desempenhado as funções de diretor interino durante os impedimentos do seu antecessor, Tomás de Aquino de Carvalho.

[6] Um exemplo foi o seu Tratado das curvas especiais notáveis, tanto planas como torsas, com o qual obteve um prémio da Academia das Ciências de Madrid.