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A Medicina

A área da Medicina teve largo destaque ao longo das páginas d’O Instituto. Ao longo das primeiras décadas de publicação, muitos foram os artigos relativos ao estudo de doenças, anatomia e ação fisiológica e terapêutica de várias substâncias. O exemplo foi dado por Jerónimo José de Melo (1792-1867), lente de Fisiologia Especial e Higiene Privada na Faculdade de Medicina e diretor desta Faculdade, que também desempenhou as funções de presidente do IC desde 1863, até ao momento da sua morte. Entre as suas memórias médicas, publicadas n’O Instituto, podemos referir os estudos realizados sobre: a ação do curare, um veneno paralisante proveniente da América do Sul, a doença de Addison derivada de uma insuficiência adrenal crónica, ou a coqueluche, uma infeção respiratória bacteriana. Porém, Jerónimo de Melo é hoje mais reconhecido pela sua ação política e, em particular, pela sua intervenção na defesa da instrução pública. Também Francisco António Rodrigues Gusmão (1815-1888) foi um clínico reconhecido. Após concluir o curso na UC, onde se doutorou em 1844, veio a exercer funções médicas em Portalegre. Destacou-se como historiador e bibliógrafo, sendo autor de várias recensões n’O Instituto onde analisou os principais livros científicos publicados por médicos portugueses da época.

O já referido António Augusto da Costa Simões (1810-1903) foi um eminente médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Costa Simões distinguiu-se em muitas vertentes, tendo ocupado vários cargos políticos, como o de deputado, vice-presidente do parlamento e de presidente da Câmara Municipal de Coimbra. No quarto volume do jornal O Instituto, de 1855, surgiu uma série de artigos intitulados Chimica Legal, da autoria de Costa Simões, onde este descreveu as análises efetuadas no Laboratório Chimico da Faculdade de Filosofia para detetar venenos em amostras provenientes de diversas localidades. Naquela época as análises toxicológicas eram apenas realizadas nos laboratórios de Coimbra, Porto e Lisboa. Mas também outros venenos foram analisados nos casos descritos, em particular os alcaloides, com recurso ao método de Stas para o isolamento destas substâncias. O relato pormenorizado que Costa Simões fez dos métodos analíticos usados demonstra o seu conhecimento atualizado das mais recentes descobertas em toxicologia. A atividade forense em Portugal era então muito limitada, sendo escassos os casos de crime em que havia recolha de amostras. O objetivo de Costa Simões com estes artigos foi demonstrar que a maioria das análises toxicológicas não necessitavam de grandes aparelhos ou muitos reagentes, não sendo os processos tão complicados que exigissem os recursos de um laboratório químico sofisticado. Uma vez reconhecido o veneno, seria possível proceder, no próprio local, a alguns testes e por meios tão simples, que os pode fornecer qualquer botica d’aldea.

A Faculdade de Medicina da UC conheceu melhoramentos significativos ao longo da segunda metade do século XIX. O mais importante foi a cedência, em 1853, do Colégio das Artes, onde seria instalado o novo Hospital da Faculdade de Medicina. A ampliação dos estudos médicos foi consequência de viagens científicas realizadas por Costa Simões e pelo então preparador do teatro anatómico Inácio Rodrigues da Costa Duarte (1824-1886). Em 1864 os dois iniciaram uma missão científica que os levou a várias escolas médicas da Alemanha, França e Suiça, tendo publicado um extenso relatório n’O Instituto. Enquanto Costa Duarte estava incumbido do reconhecimento dos aperfeiçoamentos ao nível da medicina operatória, Costa Simões deu especial atenção ao ensino prático da Medicina, em particular o ensino da histologia e fisiologia experimentais. Para além da aquisição de conhecimentos, foram encomendados muitos aparelhos que vieram integrar as coleções dos laboratórios médicos da Faculdade de Medicina. No decorrer desta viagem, Costa Duarte veio a doutorar-se em Medicina, cirurgia e partos na Universidade de Bruxelas. Este médico-cirúrgico publicou vários artigos n’O Instituto sobre o tratamento cirúrgico de ferimentos e cuidados com parturientes.

A iniciativa de Costa Simões, no âmbito da ciência forense, seria prosseguida pelo seu condiscípulo e amigo José Ferreira de Macedo Pinto (1814-1895), médico e professor de Medicina Legal, Higiene Pública e Polícia Médica da Faculdade de Medicina da UC. Macedo Pinto foi também sócio fundador do IC, onde desempenhou os cargos de Tesoureiro, entre 1855 e 1858, e de Vice-Presidente, entre 1860 e 1862. A ele se ficou a dever a organização do Gabinete de Química da Faculdade de Medicina que, na altura (1860), já possuía uma vasta coleção de reagentes, instrumentos e utensílios para análises toxicológicas. Uma breve notícia da fundação deste gabinete foi publicada no décimo volume de O Instituto. Para além do gabinete de toxicologia, seriam também criados na Faculdade de Medicina laboratórios de Fisiologia Experimental, Histologia e Anatomia Patológica.

Apesar das preocupações com a qualidade da água destinada ao consumo humano, revelou-se escasso o controlo que as populações tinham sobre ele, exceto em evitar a degradação de algumas fontes com excrementos ou outros efluentes provenientes da atividade humana. Com a Revolução Industrial e com o aumento de fontes de poluição, este assunto tornou-se de importância capital para a sustentabilidade das grandes cidades europeias. Foi no século XIX que as políticas de higiene pública se implantaram, com o objetivo de evitar não só problemas relacionados com envenenamentos, mas também a transmissão de doenças e a ocorrência de epidemias atribuídas, pelo menos em parte, a deficiências no abastecimento público de águas. Em Portugal, este problema foi desde logo suscitado por Costa Simões. Francisco António Alves (1832-1873), lente de Anatomia Patológica e Toxicologia da UC, fundador do gabinete de Anatomia Patológica e também sócio do IC, já tinha iniciado estudos analíticos das águas de Coimbra a fim de averiguar a sua potabilidade. Os resultados desses estudos foram publicados em 1862 n’O Instituto sob o título de Hidrologia. Alves salientou a importância da hidrologia sob o ponto de vista terapêutico e de higiene pública, afirmando: “oxalá se desse a este objeto toda a attenção de que elle carece, e de que se torna tão digno!”. As análises que realizou incidiram nas águas do rio Mondego e de mais cinco fontes da cidade de Coimbra. Restringiram-se à determinação qualitativa de “saes terrosos”, com a aplicação de reagentes sobre água fervida e filtrada e depois levada à ebulição, e à determinação dos graus “hydrotimétricos” de ácido carbónico, de sais de magnésia e de sais de cal (dureza da água). 

Foi, contudo, preciso esperar pelas últimas décadas do século XIX para os assuntos relativos à qualidade da água se imporem nos círculos académicos portugueses e ser dada maior atenção às respetivas análises químicas. A importância dada a este assunto pelos sócios do IC foi confirmada pelas conferências realizadas no salão nobre desta sociedade em 1879 por José Epifânio Marques (1831-1908), médico natural de Estremoz, doutorado em 1861 em Coimbra, e autor de vários artigos n’O Instituto. A primeira conferência, de 3 de maio, teve por título Valor Hygienico da Agua Potavel.

A segunda conferência de Marques ocorreu em 24 de maio. Nela foi defendida a tese que “a insalubridade das povoações em geral, e a de Coimbra em particular, estão em grande parte subordinadas á falta d'agua potavel, e sobretudo á sua má distribuição”. O orador começou por descrever alguns marcos na história do abastecimento público de água no mundo e em Portugal, dando o exemplo das preocupações higiénicas em Inglaterra. Falou sobre os perigos e consequências do consumo de águas impróprias, por razões químicas e/ou biológicas, alertando para os problemas específicos das águas de Coimbra e apontando algumas soluções a adotar pela Empresa de Águas de Coimbra, representada na altura por Costa Simões e por Adolfo Ferreira Loureiro (1836-1911), o autor do projeto que seria publicado no volume seguinte d’O Instituto. Marques foi presidente do IC de 1893 a 1896.

Após as pioneiras análises feitas por Alves às águas de Coimbra, em 1862, decorreram 35 anos sem que houvesse quaisquer exames químicos, muito embora tivesse sido concretizado o projeto de abastecimento público, com obras iniciadas em 1882. O francês Charles Lepierre (1867-1945), na altura chefe de trabalhos do Gabinete de Microbiologia da Faculdade de Medicina da UC, assumiu esta tarefa e, em conjunto com o professor de Farmacotecnia na Escola de Farmácia da UC, Vicente José de Seiça (1858-1928), analisou 25 amostras de águas de fontes e poços da cidade, da água do Mondego e da água canalizada no laboratório da Escola Industrial Avelar Brotero.

Lepierre tinha concluído o curso de engenharia química na Escola de Física e Química Industriais de Paris em 1887. Foi aluno de Roberto Duarte Silva (1837-89), um químico português de origem cabo-verdiana que foi nomeado professor da referida escola em 1881 e eleito seis anos depois presidente da Sociedade de Química de Paris. Por influência de Duarte Silva, Lepierre veio para Portugal em 1888, passando a dirigir os trabalhos práticos de química da Escola Politécnica de Lisboa. No ano seguinte, foi nomeado professor da Escola Industrial Brotero, em Coimbra, ingressando depois no Gabinete de Microbiologia da Faculdade de Medicina da UC. Durante os 20 anos em que esteve em Coimbra, desempenhou várias funções, incluindo a direção dos Serviços Municipalizados, tendo criado um curso livre de Química Biológica, no ano letivo de 1897-98, que funcionou no IC. Seiça, farmacêutico e Professor de Farmacotecnia na Escola de Farmácia de Coimbra, foi diretor do Dispensatório Farmacêutico da UC.

A descoberta dos raios X pelo alemão Roentgen desencadeou em Coimbra um interesse quase imediato no Gabinete de Física. A investigação privilegiou logo a sua aplicação ao diagnóstico médico, que rapidamente foi concretizada nos Hospitais da UC. O jovem Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina em 1949, foi estudante de Teixeira Bastos, tendo colaborado nessas experiências pioneiras. António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz (1874-1955) tornar-se-ia mundialmente conhecido pela sua investigação do cérebro humano. Após ter estudado neurologia em Bordéus e Paris e se ter tornado professor catedrático em Coimbra em 1910, transferiu-se, no ano seguinte, para a Faculdade de Medicina da recentemente criada Universidade de Lisboa. Manteve-se, porém, sócio do IC tendo, em 1953, publicado um artigo n’O Instituto que intitulou Fisiologia do cérebro. Nesta memória, Egas Moniz abordou a prevalência do cérebro na estrutura geral da mentalidade, fazendo a defesa da técnica em que foi pioneiro, a leucotomia pré-frontal, para tratar doenças mentais por eliminação das “ideias mórbidas, permanentes e supliciantes de certas psicoses” que “derivam de correntes e influxos que atravessam o setor da consciência e o mantêm em vibração.”

O assunto da fisiologia cerebral, em particular o da localização específica das funções linguísticas, motoras, sensitivas e intelectuais, já havia sido tema de artigos de outros autores, nomeadamente por Maximino José de Morais Correia (1893-1969). Maximino Correia era, em 1925, professor assistente na UC e realizou uma conferência Sobre as localizações cerebrais perante a Associação dos Médicos do Centro de Portugal. O conteúdo da comunicação seria publicado no ano seguinte n’O Instituto, tendo o seu autor pormenorizado a evolução das descobertas efetuadas nesta área desde a antiguidade até à atualidade. Maximino Correia ascendeu a professor catedrático de Anatomia Descritiva e veio a ser uma figura incontornável da UC durante o Estado Novo, por ter ocupado durante 17 anos o lugar de Reitor.