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Química

Foi com a Reforma Pombalina da UC, de 1772, que “a ciência química cria verdadeiras raízes em Portugal” (Costa, 1984, p. 19), tendo por símbolo maior o edifício do Laboratório Chimico. Seguiu-se o que poderemos considerar um período áureo desta ciência no nosso país, onde pontificaram os nomes de Domingos Vandelli, Vicente Coelho Seabra, José Bonifácio de Andrada e Thomé Rodrigues Sobral. Pretendia-se que o Laboratório Chimico fosse um espaço onde se fizessem “preparações chimicas em grande”, de acordo com o aviso régio de 1778, o que não se concretizou imediatamente (idem, p. 36). Este objetivo só seria atingido a partir de 1791, com Rodrigues Sobral e Vicente Seabra, que desenvolveram sucessivos trabalhos práticos e investigações químicas, com o auxílio de outros professores das Faculdades de Filosofia e Medicina (idem, pp. 50-51). Contudo, por altura da fundação do IC em 1852, o estado das ciências químicas em Coimbra tinha-se alterado.

Na área da Química, destacou-se desde cedo na história do IC António Costa Simões. Este professor de Medicina e membro muito ativo do IC deixou uma abundante obra cientifica que não se restringiu às ciências médicas. Logo no primeiro volume de O Instituto iniciou uma memória dedicada aos Banhos do Luso, no sopé da serra do Buçaco, onde incluiu um conjunto de análises químicas das respetivas águas. Depois do fulgor da atividade no Laboratório Químico, no início do século XIX, foi só em meados do mesmo século que renasceu o interesse em Coimbra pela aplicação das novas ferramentas da análise química: às águas minerais, aos alimentos e à deteção de venenos. Esta diligência foi obra de professores de Medicina, com Costa Simões e o seu condiscípulo Macedo Pinto à cabeça.

O interesse de Costa Simões dirigiu-se, também, para a toxicologia no âmbito da análise forense médico-legal. Vários artigos descrevendo análises realizadas em casos reais foram publicados n’O Instituto em 1855. Neles se revela a preocupação pela aplicação dos métodos mais recentes de deteção de arsénico e venenos alcaloides. Inicialmente, estas análises eram realizadas no Laboratório Químico, tendo a criação em 1860 de um Gabinete Químico na Faculdade de Medicina, por iniciativa de Macedo Pinto concretizado um desejo de Costa Simões.

Uma nova geração de professores da Faculdade de Medicina da UC veio a dedicar-se às análises químicas no âmbito da toxicologia, hidrologia e bromatologia. Pontificaram os nomes de Francisco Alves e de Serra Mirabeau. Francisco Alves realizou as primeiras análises das águas de Coimbra destinadas ao abastecimento público em 1862, um trabalho citado por Costa Simões na sua memória que dedicou ao Abastecimento d’Águas de Coimbra. As análises das águas do Luso seriam repetidas, em Paris, por Matias de Carvalho, em 1860, realizando Francisco Alves um novo estudo delas em 1872, onde aplicou os mais recentes métodos espectroscópicos.

Quando em Lisboa já tinham sido analisadas várias águas minerais portuguesas pela Sociedade Farmacêutica Lusitana em 1839, só em 1866 foi nomeada uma comissão, onde figurou o químico Vicente Lourenço, para realizar um estudo mais abrangente destas águas. Esta decisão prendeu-se com a consciencialização crescente do valor de um novo recurso económico na altura ainda pouco aproveitado. Devido, provavelmente, à instabilidade política e social que marcou o final da década de 1860 em Portugal, não houve repercussões práticas deste estudo para além da publicação, em 1867, de um relatório dando conta dos trabalhos preparatórios que tinham sido efetuados. Ele continha uma lista de águas minerais portuguesas com um resumo muito sumário das suas características físicas e da sua composição química, da autoria de Vicente Lourenço. Em Coimbra foi publicada, em 1871, uma monografia relativa às águas do Moledo, fruto de um trabalho que integrou o diretor do Laboratório Químico, Miguel Ferreira Leão, e os professores de Medicina, Francisco Alves e Lourenço d’Almeida Azevedo. Numa só obra aliou-se a análise química à ação fisiológica e terapêutica de uma água mineral, o que foi enfatizado na bibliografia publicada n’O Instituto.

Também a metalurgia veio a ganhar relevo nas páginas d’O Instituto, destacando-se dois relatórios enviados de Paris por Matias de Carvalho. Num deles foi mostrada a relevância da metalurgia do ferro, apesar das dificuldades óbvias da sua concretização num país com deficientes vias de comunicação e escassos recursos em carvão mineral, para não falar já das recorrentes dificuldades financeiras. Tendo obtido o título de ensaiador, na Casa da Moeda de Paris, Matias de Carvalho foi nomeado, no regresso a Portugal, Diretor da Casa de Moeda de Lisboa. Nesta instituição promoveu várias reformas, tendo acolhido como ensaiador, em 1865, um outro sócio do IC, Luís de Saldanha Oliveira e Sousa. Este último tinha-se especializado em mineralogia em França e, desde logo, desenvolveu investigações com vista a melhorar os procedimentos realizados na Casa da Moeda. Estes trabalhos foram publicados n’O Instituto e terão garantido a Oliveira e Sousa o lugar de Diretor, sucedendo a Matias de Carvalho em 1870. Um assunto pelo qual Oliveira e Sousa se bateu foi a instalação da metalurgia do cobre no nosso país, em particular o aproveitamento do minério mais pobre deste metal.

Com vista ao melhoramento dos trabalhos práticos realizados no Laboratório Químico da UC, decidiu o conselho da Faculdade de Filosofia contratar um químico estrangeiro, nomeadamente o alemão Bernhard Tollens, em 1869. Contudo, este químico apenas permaneceu em Coimbra durante dez meses, tendo regressado à Alemanha em janeiro de 1870. Após a falha da contratação de outro químico estrangeiro, a opção foi o envio, por proposta de Santos Viegas, do ajudante interino do laboratório Joaquim dos Santos e Silva para desenvolver estudos em química na Alemanha (Silva, 1906). Santos e Silva iniciou os seus estudos com Tollens e Wöhler, na cidade de Gotinga, seguindo para a cidade de Bona onde frequentou o laboratório de Kekulé. Logo que regressou a Coimbra, assumiu o cargo de chefe dos trabalhos práticos do Laboratório Químico, que ocupou até falecer. O seu primeiro artigo n’O Instituto surgiu no prosseguimento da investigação que tinha iniciado na Alemanha e foi o início de uma intensa atividade científica que abrangeu as análises químico-legais e os cursos práticos do laboratório e que lhe valeu a nomeação como professor da Escola de Farmácia de Coimbra em 1902. O Regulamento para o chefe dos trabalhos práticos do laboratório chimico da universidade, de 1885, cujo Art.º 6 autorizava o empreendimento de investigações científicas e a execução de análises pelo chefe dos trabalhos práticos, parece ter sido feito à medida de Santos e Silva. Vários estudos químicos de águas minerais, da autoria de Santos e Silva, foram publicados n’O Instituto e na Gazeta Médica. Ele tornou-se uma figura incontornável da Química em Portugal, mérito que foi reconhecido no seu obituário, publicado na Revista de Química Pura e Aplicada, escrito por António Ferreira da Silva (Silva, 1906).

Santos e Silva tinha-se oposto a Ferreira da Silva, tomando o lado da defesa no célebre julgamento de Urbino de Freitas, em 1892. Ambos os químicos esgrimiram argumentos relativamente às análises químico-legais, num debate que preencheu as páginas da imprensa da época. Ferreira da Silva foi também uma importante figura da Química em Portugal, em particular devido ao trabalho que realizou como diretor do Laboratório Municipal do Porto. Foram também várias as memórias que publicou n’O Instituto, designadamente aquando da discussão relativa à suposta salicilagem dos vinhos portugueses exportados para o Brasil, no início do século XX.

A aplicação dos conhecimentos científicos e técnicos em Química, a nível industrial, foi escassa ao longo do século XIX e início do século XX. As primeiras fábricas de ácido sulfúrico e soda, na Póvoa de Santa Iria, sob a orientação técnica de Oliveira Pimentel (Visconde de Vila Maior), podem considerar-se exceções à regra. Já depois da revolução de 1910, Álvaro de Basto defendia a criação de faculdades de cariz mais técnico em Lisboa e Porto, direcionadas para a formação de engenheiros, em vez de três faculdades de ciências com idênticos programas curriculares (Basto, 1912, pp. 91-95). Outra proposta incidia na criação de um Instituto de Química em Portugal, à semelhança do que acontecia noutros países europeus, pois “mal irá ás nações que não quizerem ver a importância prática da Química!” (idem, p. 97). O investimento no desenvolvimento da química seria o que traria maiores dividendos ao país.

Foi necessário esperar até 1917 para o Estado intervir com estímulos à instalação no nosso país de novos processos industriais, iniciativa que não se traduziria em resultados imediatos. Uma das novas áreas industriais florescentes era a produção de compostos azotados a partir do amoníaco artificial. O ator principal no processo de implementação deste setor em Portugal foi o engenheiro químico Manuel Gaspar de Barros que escolheu, em 1935, O Instituto para lançar a questão à qual o próprio daria resposta nas décadas seguintes: Porque não se fabricam adubos azotados em Portugal? (Barros, 1935).