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Caracterização do herbário de peixes de Coimbra

Por ocasião da transferência oficial das colecções, foram realizados levantamentos fotográficos exaustivos das mesmas. Durante uma sessão fotográfica foi encontrada debaixo dos degraus do anfiteatro de história natural uma grande caixa em folha-de-flandres de conteúdo desconhecido. A abertura da caixa (Fig. 1) revelou a existência de um herbário de peixes com 68 espécimes que não consta dos catálogos conhecidos das colecções de história natural de Coimbra. 

Fig. 1 - Caixa em folha de flandres que continha o herbário de peixes no anfiteatro de história natural. Fot. Pedro Casaleiro

Fig. 1 - Caixa em folha de flandres que continha o herbário de peixes no anfiteatro de história natural. Fot. Pedro Casaleiro

Os espécimes foram conservados em seco e estão preparados em herbário segundo a técnica desenvolvida pelo holandês Gronow ou Gronovius (1686-1762) no séc. XVIII, divulgada em 1742 numa publicação na Philosophical transactions of the Royal Society (GRONOVIUS, 1742). Esta técnica permitia a conservação parcial do peixe que era eviscerado, seco e prensado sobre uma folha de cartão, eliminando a sua coluna vertebral. Em situação de viagem este método oferecia uma redução substancial da espessura dos espécimes, o que simplificava o seu transporte e permitia organizar um maior número de exemplares. A técnica foi abandonada no séc. XIX pois não preservava a totalidade do animal, o que dificultava identificação de algumas características taxonómicas.

Fig. 2 - Exemplo de presilha em fita de algodão para suspender o exemplar. Fot. Pedro Casaleiro

Fig. 2 - Exemplo de presilha em fita de algodão para suspender o exemplar. Fot. Pedro Casaleiro

Os suportes de cartão apresentam uma ou duas fitas no lado traseiro para suspender, o que indicia tratarem-se de espécimes preparados para exposição (Fig. 2). O maior exemplar, com 60,0 cm de comprimento e 16,5 cm de altura, encontra-se montado sobre um cartão de 72,5 x 26 cm (Fig. 3). O exemplar com mais altura tem 28,5 x 22,5 cm e está montado num cartão com 41,0 x 28,5 cm (Fig. 4). Os exemplares de menores dimensões têm 16 cm de comprimento (Fig. 5), tendo o menor cartão 22,0 x 18,5 cm. A espessura dos espécimes varia entre 0,5 cm e 3 cm.

Fig. 3 - Exemplar com maior comprimento, 60 cm. Fot. Gilberto Pereira

Fig. 3 - Exemplar com maior comprimento, 60 cm. Fot. Gilberto Pereira

Fig. 4 - Exemplar com maior altura, 28,5 cm. Fot. José Meneses

Fig. 4 - Exemplar com maior altura, 28,5 cm. Fot. José Meneses

Fig. 5 - Um dos exemplares de menor comprimento, com 16 cm. Fot. Gilberto Pereira.

Fig. 5 - Um dos exemplares de menor comprimento, com 16 cm. Fot. Gilberto

Todos os exemplares apresentam no bordo do cartão um duplo filete desenhado a preto sendo a maioria (40) de bordo branco, e 28 exemplares apresentam o bordo pintado a aguarela azul (Fig. 2, 3 e 4). Estes 28 exemplares, assim como dois de bordo branco, apresentam um código de duas letras por vezes seguido de um número, que será provavelmente um código de armário ou prateleira, o que confirma o seu valor como exemplares de exposição. Outro aspecto marcante dos exemplares em geral, constitui a qualidade e os cuidados investidos na sua preparação, desde a pintura à caligrafia, até à presença em quase a totalidade dos espécimes de um modelo de olho folheado a ouro que concede ao exemplar um brilho e uma vivacidade extraordinários. Estes cuidados na preparação levam-nos a supor que se trata de um trabalho realizado para a Casa Real, pelos habilidosos riscadores formados na Aula do Risco do Museu.

Quanto à identificação dos espécimes, 58 exemplares apresentam nome científico e a inclusão de um ou dois nomes vulgares, em português do lado esquerdo e numa língua indígena do Brasil do lado direito (29 espécimes apresentam um nome vulgar e 19 apresentam dois nomes vulgares). Os nomes científicos seguem a nomenclatura de Lineu, válida à época, indicando que se trata de espécimes de peixes Actinopterygii, subdivididos em Thoraccico ou Abdominal (38 espécimes e 12 espécimes respectivamente), classificação que distingue os exemplares de acordo com a posição mais ou menos anterior das barbatanas pélvicas no corpo do animal. Apenas 11 exemplares, com o bordo do cartão em branco, não têm qualquer identificação, nome científico ou nome vulgar.

NOMURA (1998) na sua história da zoologia brasileira do séc. XVIII refere, a partir das memórias escritas por Ferreira, um grande número de nomes vulgares utilizados na época. Um primeiro cruzamento dos 20 nomes vulgares, em língua indígena, e dos 26 em português local, com as designações de Nomura, dá um resultado directo pouco expressivo que nem sempre coincide com a espécie em causa. Por exemplo dos 9 casos do nome indígena que coincidem exactamente ou foneticamente com nomes de Nomura apenas se observa a correspondência nos 5 primeiros, instalando-se a dúvida nos restantes (Tab. 1).

A lista de peixes da remessa de 1806 (Fig. 6) indica 62 espécimes, um número muito próximo daquele que foi encontrado em Coimbra (68 espécimes). No entanto não existe qualquer evidência ou indicação nesta lista de que se trata de material montado em herbário. Sabemos que também eram enviados exemplares em meio líquido ou em seco, mas preservando a totalidade do animal. A pesquisa nas colecções de Coimbra está ainda a decorrer de uma forma alargada a todo o acervo. A comparação dos nomes científicos desta lista com os nomes científicos que constam nos exemplares do herbário de peixes, deixa algumas questões em aberto, nomeadamente sobre a organização dos envios de espécimes do Real Museu para a Universidade de Coimbra. A coincidência verifica-se em 32 espécimes no que se refere ao género mas apenas em 11 exemplares na designação da espécie (Tab. 2).

Tabela 1 Coincidência de nomes vulgares no herbário de Coimbra com as designações de Ferreira segundo Nomura (1998). (?) As características do exemplar não correspondem às da espécie indicada.tabela 1.1. continuação

Fig. 6 - Secção dos peixes da lista de remessa do Real Museu para a Universidade de Coimbra em 1806. Antigo arquivo do Museu Bocage (MNHN).

Fig. 6 - Secção dos peixes da lista de remessa do Real Museu para a Universidade de Coimbra em 1806. Antigo arquivo do Museu Bocage (MNHN).

Tabela 2 - Coincidência de espécies entre a lista da remessa do Real Museu para a Universidade de Coimbra de 1806 e os nomes científicos no herbário de peixes do Museu da Ciência

Tabela 2 - Coincidência de espécies entre a lista da remessa do Real Museu para a Universidade de Coimbra de 1806 e os nomes científicos no herbário de peixes do Museu da Ciência

Ao realizarmos a comparação com os 18 espécimes existentes na Academia das Ciências de Lisboa estudados por ANTUNES e BALBINO (2003), verifica-se uma grande coincidência na tipologia e preparação dos exemplares, não restando qualquer dúvida que estes espécimes e os de Coimbra fariam parte do acervo único do Real Museu da Ajuda, recolhido por Alexandre Rodrigues Ferreira no Brasil. As diferenças residem essencialmente na presença de peixes cartilagíneos (Chondrichthyes) na colecção da Academia, ausentes no herbário de Coimbra, e na presença em Coimbra de exemplares de excelência preparados para exposição no Real Museu que apresentam o bordo do cartão aguarelado em azul.

O estudo prossegue com o objectivo de identificar as espécies à luz da classificação actual. Os dados até agora obtidos são indicativos de que cerca de metade da amostra (52%) é constituída por peixes essencialmente marinhos, 35% de águas marinhas e salobras a doces, e apenas 13% de espécies unicamente de água doce. De alguma forma este resultado vem corroborar a teoria (ANTUNES & BALBINO, 2003) de que os espécimes amazónicos de água doce, mais valiosos naquela época por serem desconhecidos no resto do mundo, se encontrarem apenas no Museu de Paris, tendo sido criteriosamente seleccionados na ocasião do saque em Lisboa por Saint-Hilaire. Na colecção do Real Museu em Paris abundam os tipos, pois as colheitas de Ferreira marcam o início de uma vasta exploração da região do planeta com a maior diversidade de habitats de água doce. A fauna ictiológica neotropical é uma componente extremamente rica da fauna global de peixes de água doce, constituindo aproximadamente 6.000 espécies das cerca de 13.000 que ocorrem em todo o mundo (REIS et al., 2003).