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O valor histórico e científico do herbário de peixes de Alexandre Rodrigues Ferreira

O número de herbários de peixes do séc. XVIII que chegaram aos nossos dias é muito reduzido e contém um número limitado de espécimes, pelo que estas colecções são classificadas como de elevada importância, ao nível de um tesouro nacional. Não é por acaso que os 168 peixes em herbário de Lineu se encontram na caixa forte da sede da Royal Society de Londres na Burlington House, assim como são mantidos em condições muito especiais os 84 espécimes ainda existentes no Gustavianum da Universidade de Uppsala, na Suècia. A colecção de Lineu, com a maioria dos tipos das espécies lineanas, tem um enorme valor, fazendo justiça ao mestre da classificação e autor do Systema Naturae na sua 12ª edição de 1766-67, em que amplia o conhecimento de peixes incluindo espécies exóticas, assim como ao seu colega Artedi, co-autor póstumo da obra Ichthyologia de 1738 (REID, 2007), que lança os fundamentos da sistemática dos peixes e da taxonomia descritiva.

O herbário de peixes de Gronovius, que inspirou Lineu e os seus discípulos, através das obras Museum Ichthyologicum (1754-56) e Zoophylacium Gronovianum (1763-81), ainda sem a nomenclatura binomial, foi adquirido no séc. XIX pelo Museu de História Natural de Londres onde actualmente se encontra. O seu valor é enorme pois também contém um grande número de tipos de peixes lineanos reconhecidos por Giinther ao estudar o catálogo editado por Gray em 1854 (WHEELER, 1958). Destaca-se ainda o herbário de peixes de um dos discípulos favoritos de Lineu, Pehr Forsskål, recolhidos no Mar Vermelho durante uma expedição dinamarquesa ao império Otomano, Egipto e à Península Arábica, onde perdeu a vida em 1763. Um sobrevivente da expedição conseguiu salvar as colecções e regressar à Dinamarca (REID, 2007). Forsskål recolheu e descreveu 151 espécies de peixes. O que resta deste espólio são 65 espécies das quais 58 são tipos que hoje se encontram no Museu de História Natural da Universidade de Copenhaga (FORSSKÅL’S HERBARIUM, 2011).

No Muséum de Paris encontra-se, entre outros, parte do herbário de peixes de Alexandre Rodrigues Ferreira que foi “transferido” em 1808 por G. Saint-Hilaire durante as invasões francesas, que contava inicialmente com um total de 100 espécimes de 87 espécies. Este herbário, juntamente com o núcleo de 68 espécimes de Coimbra e os 18 espécimes da Academia das Ciências de Lisboa, perfazem quase duas centenas de espécimes constituindo um conjunto de grande valor histórico e científico do que resta do acervo de peixes do Real Museu da Ajuda. Este espólio deve ser considerado ao nível de qualquer um dos herbários de peixes acima citado, e reflecte apenas uma pequena parte do significado da viagem de Ferreira que ultrapassa qualquer viagem com fins científicos realizada pelos portugueses nas antigas colónias. Ferreira não foi o primeiro cientista a explorar a Amazónia, mas foi o primeiro a fazê-lo em todas as direcções ao explorar 39.300 km em cerca de 9 anos (PEREIRA, 1992) com os meios disponíveis do final do séc. XVIII.