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Conclusão

Terminaremos as nossas considerações sobre a análise química na Universidade de Coimbra ao tempo de Rodrigues Sobral, referindo aqui, ainda que muito resumidamente, os três escritos de sua autoria que redigiu a propósito da análise de quinas recebidas do Brasil, com empenho especial da Casa Real, para que fosse cuidadosamente investigado do ponto de vista químico e médico, o seu princípio febrífugo.

Ao apresentar os resultados do ensaio químico que fez da quina conhecida no Brasil por Mil-Homens (Sobral, 1814 B), Rodrigues Sobral fez publicar um conjunto de reflexões gerais sobre as dificuldades de uma boa análise, principalmente vegetal (Sobral, 1814 C) e, posteriormente, uma longa memória sobre o Princípio Febrífugo das Quinas (Sobral, 1819). Estes três escritos juntamente com os resultados da análise química duma mina metálica por ele realizada e apresentados a pp. 91-96 no mesmo volume do Jornal de Coimbra em que apresenta os resultados da análise química da quina Mil-Homens, constituem um verdadeiro e longo tratado de Análise Química, do qual nos permitimos ressaltar:

“uma análise química qualquer, e muito especialmente uma analyse vegetal ou animal, he o tabalho mais difícil de toda a Chimica (…), a pedra de toque que distingue o Chimico profundo d´aquelle que o não he. (…) A Analyse chimica tem sempre este único problema que resolver: quantos e quaes são os princípios ou elementos, sejam próximos, sejam remotos, que compõem o corpo que se-analysa; quaes são as proporções respectivas destes princípios, seja dos immediatos e ainda compostos; seja dos elementares , e sobre os quaes os meios de analyse actuaes já nada podem”.

Dos três tipos de análise química, a mineral, a vegetal e a animal, “a analyse dos mineraes, (a analyse dos metaes e suas minas) he necessariamente mais simples e menos complicada pela mesma simplicidade da sua composição, pela natureza dos seus princípios ou mais fixos, ou menos destructiveis e alteráveis (…) constando pela maior parte de três princípios, a saber, um acido, uma base, e mais ou menos agua” (Sobral, 1814 C, pp. 252-254). Também, a análise química das águas “ não he tão complicada como pareceria à primeira vista” pois o seu contento são “alguns saes, terras, um pequeno número de metaes, ou algumas combinações hepáticas, servindo-lhes a água ou de dissolvente ou de vehiculo”, sendo, todavia, de concordar com o que sobre ela diz Henry “L´analyse complete et exacte dês eaux minerales et dês corps mineraux en general, est un dês sujets les plus difficiles de la chimie pratique, et elle exige une connaissance très étendue dês proprietés et dun mode d´action d´une classe très nombreuse de corps”. “Mas, apesar de quanto a chimica dos vegetaes tem ganhado em preciosas descobertas, conhecimentos úteis e applicações felizes a todas as Artes chimicas que têm por base as substancias vegetaes, à Medicina, etc”… impõe-se reconhecer “quanto he difficil uma boa e exacta anályse vegetal; quanto uma tal analyse he rara; quanto se deve desconfiar da maior parte das que existem”; “as difficuldades que offerece uma analyse vegetal qualquer, se augmentam além das que são communs a toda a anályse, 1º pela ordem de composição das substancias vegetaes, comparadas com a mineraes; 2º pela natureza volátil da maior parte dos seus principios elementares; e ainda mesmo por alguns immediatos e compostos; 3º pela natureza e carácter das combinações dos mesmos elementos de serem facilmente alteraveis pelo fogo, pelo ar, e por todos os agentes, com poucas excepções; 4º pela complicação das suas attracções, pela facilidade com que a ordem d´estas attracções he alterada e mudada, etc, etc., etc…” Os elementos que neles predominam “como são o hydrogenio, o carbonio, o oxygenio, e o azote, são de uma natureza tão subtil; são tão fugazes (se exceptuarmos o carbonio) que estando livres das combinações que os retêm, às primeiras impressões de uma temperatura um pouco augmentada desapparecem fundidos no calórico em forma de fluidos elásticos”. Daí a conclusão: uma análise química em geral, e muito particularmente uma análise vegetal, “para merecer alguma confiança deve necessariamente ser longa, extensa e vagarosa, que toda a precipitação nas experiências, toda a impaciência em esperar pelos seus resultados devem ser oppostas e fataes ao fim da mesma analyse. Com efeito, quem não vê que huma analyse he um como resumo pratico de toda a chimica; hum complexo de todas as suas operações? Além das operações preparatórias, huma analyse comprehende dissoluções, precipitações, infusões a frio, e a calor, decocções mais ou menos longas, filtrações mais ou menos difficeis e morosas; destillações, evaporações ou espontâneas ao ar livre, ou promovidas e aceleradas pela acção do fogo, cristalizações, combustões, carbonizações, incinerações, etc, etc. etc. (…) Nós lemos muitas vezes em poucas páginas, o que se-achou por experiências de muitos mezes, e talvez annos” (Sobral, 1814 C, pp.257-265).

Os resultados da análise química que fez da quina Mil-Homens (Sobral, 1814 B) e, na sequência dos mesmos, as reflexões que apresentou sobre o princípo febrífugo das quinas em geral (Sobral, 1819) são o exemplo prático e acabado do quanto sobre o assunto antes escrevera e fizera.