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Rodrigues Sobral, o “Lavoisier português”

Em carta dirigida a Jose Feliciano de Castilho ainda a propósito das novas aplicações do gaz muriatico oxigenado, Rodrigues Sobral referindo-se à evolução da química flogistica para a química pneumática, procura mostrar que uma e outra mais não são que diferentes modos de entender a natureza quando sujeita a idêntico processo in-quisitivo, concluindo  peremptoriamente: “O grande Lavoisier fixa de uma vez as opiniões” (Sobral, 1814 A, p.103).

Esta não é a única vez que ele se refere a Lavoisier como o grande Lavoisier. Nas suas «Reflexoes Geraes sobre as difficuldades de uma boa Analyse» volta a fazê-lo e é novamente apodítica a conclusão a tirar das suas afirmações: “... contudo as profundas vistas e reflexões do grande Lavoisier fizeram desaparecer todo o prestigio d'aquella doutrina, e mostraram que o Flogisto, principio mercurial, salino, térreo, como elementos dos metaes eram outros tantos entes imaginários; e as analyses  que pareciam demonstrallos, illusórias, não sendo pela maior parte mais que syntheses” (Sobral, 1814 C, p. 255). 

Até à jubilação de Domingos Vandelli, Lente proprietário da cadeira de Chimica, em 1791, a química era ensinada, na Universidade de Coimbra, segundo o Manual de J. A. Scopoli (Scopoli, 1777).

Usar um manual estrangeiro na leccionação de qualquer das disciplinas ministradas na Universidade reformada pelo Marquês de Pombal estava contra a vontade manifesta de sua Majestade, o Rei ou a Rainha. Em carta régia de 26 de Setembro de 1786, sua Majestade, a Rainha, mostrava-se muito apreensiva ao verificar “com desprazer, que as repetidas ordenz que tem manifestado á Universidade, quanto à eficácia com que mandou que se compuzessern nela os compêndios para as lisoenz proprias de cada uma das Faculdades, nom tem produzido o efeito que era de esperar que produzissem e tendo em vista, que no espaço de quatorze anos com a demirassam das Universidadez estrangeiraz, nom tinha a de Coimbra produzido á luz escrito algum que fasa ver os progresos dela e esteja se servindo de livroz adaptadoz quando os podia ter proprioz”.  Na mesma carta, resolutiva e definitivamente mandava que em cada uma das Congregações se tratasse sem perda de tempo da composição do seu compêndio próprio para servir ao uso do ensino público das suas aulas, deputando para isso uma ou mais pessoas escolhidas de entre os lentes catedráticos ou dos opositores mais dignos. E determinava que os que fossem deputados para tal tarefa houvessem logo de dar princípio à composição, sem lhes ser admitida escusa alguma (ACFF, 1978, p.63).

Em Congregação da Faculdade de Filosofia, realizada em Dezembro desse ano, Domingos Vandelli foi encarregado de elaborar os Prolegómenos para o sistema de Lineu, e o Compêndio de Química. Ainda que repetidamente instado pela Faculdade para o fazer, Domingos Vandelli nunca cumpriu a incumbência que lhe fora cometida, relativamente ao Compêndio de Química. Ao suceder-lhe como Director do Laboratório e Lente proprietário da cadeira de Química, Thomé Rodrigues Sobral foi incumbido, logo em Julho de 1791, de redigie ele próprio o desejado compêndio. Entretanto, as aulas de química continuavam a ser dadas usando como manual os Fundamenta Chemiae de Scopoli.

Nessa mesma Congregação da Faculdade de Filosofia foi decidido “transplantar-se na lingua nacional o artigo Affinité da Encyclopédie Méthodique da autoria do barão de Morveau”. Segundo a proposta do director da Faculdade, o doutor Antonio Soares Barbosa, deveria encarregar-se dessa tradução o opositor doutor Luiz Antonio de S.  Payo.  Dela discordou, todavia, o Reitor que determinou que tal tradução competia ao demonstrador da cadeira de química, o Doutor Vicente Coelho de Seabra, para cujo fim foi eleito (ACFF, 1978, p.119).

Na Congregação de 25 de Abril do ano seguinte, Thome Rodrigues Sobral apresentou a primeira parte do plano do almejado compêndio de química, e em Julho, a parte restante.
Entretanto, em 1793, aparece publicado pela Real Imprensa da Universidade, o Tractado das Affinidades Chimicas, artigo que no Dicionario de Chimica, fazendo parte da Encyclopedia por ordem de matérias, deu Mr. De Morveau, traduzido e prefaciado por Rodrigues Sobral. Não se sabe porquê, nem como, a tradução para cujo fim tinha sido eleito Vicente de Seabra em desfavor de Luiz Antonio de S. Payo, acabaria por ser feita por Rodrigues Sobral. No prefacio de apresentação, diz Sobral:

“... Sendo sem dúvida o artigo cuja versão ofereço aos meus ouvintes, o que temos de mais completo nesta matéria, nem por isso deixa de ser susceptível de algumas reflexões, filhas dos conhecimentos posteriormente adquiridos, que pouco a pouco vão aproximando este objecto ao último ponto da sua perfeição. Eu me reservo porém propor estas reflexões em o meu compendio de chimica, em o qual me proponho expor de um modo elementar todas as minhas ideias, ou, para o dizer melhor, o resultado dos imensos trabalhos dos melhores chimicos, o que constitui o estado actual dos conhecimentos chimicos, e uma das mais brilhantes Epocas desta ciência; contentando-me entretanto de enunciar em minhas Prelecções aquelas observações que julgar indispensavelmente necessárias aos principiantes, a quem somente dirijo este insignificante trabalho” (Morveau, 1793, pV).

A tradução em causa poderá explicar que entre a apresentação em Congregação da Faculdade, do plano do compêndio de Quimica e a apresentação do compêndio propriamente dito medeiem mais de dois anos. Na verdade, este só acabaria por ser apresentado na Congregação de 31 de Julho de 1794, tendo sido então nomeado seu censor o doutor Manuel Jose Barjona. Na Congregação de 22 de Abril de 1795, foi o mesmo aprovado até ao parágrafo 243. Possíveis dificuldades surgidas com os parágrafos subsequentes (de cujo teor nada sabemos) terão sido a possível causa de se chegar a meados de 1798 e o compêndio não estar ainda definitivamente pronto para ser publicado, tendo, então, o professor Rodrigues Sobral sido “dispensado das aulas no ano lectivo próximo futuro de 1798 para 1799, ficando somente obrigado à aula no primeiro dia lectivo de cada semana" para mais rapidamente poder satisfazer à tarefa de que estava incumbido (ACFF, 1978, pp.242-244).

Entretanto, na Congregação de 30 de Julho de 1798 foi discutido “se se devia ou não continuar a ensinar chimica por outro compendio que não fosse Scopoli,  enquanto  o  proprietário  da  cadeira  de  chimica não acabasse o compendio de que estava incumbi-do”.  Procedendo-se a votos, se determinou, que interinamente se ensinasse química pelos Elementa Chemiae de Jacquin. Como este compêndio era ainda raro entre nós e não haveria tempo de se mandar vir em abundância, dividiram-se os membros presentes na Congregação sobre o que fazer, verificando-se um empate de votos entre continuar-se a usar o manual de Scopoli e adoptar um manual da autoria de Xaptal (Chaptal, 1790). Perante o empate verificado na votação, o Ex.mo senhor Principal Castro, reformador-reitor, que presidia à Congregação, encarregou o Secretário, o doutor Vicente Seabra, de dirigir um ofício ao director da Faculdade, doutor Antonio Soares Barbosa, que não estivera presente na reunião, para dar o seu parecer e voto por escrito.

O Director deu a sua resposta na forma seguinte: “em observancia da ordem de Sua Excelência pella qual se me manda responder como meu parecer sobre o que se propoz em Congregação, e ficou empatado pellos vogaes, respondo o seguinte: sempre foi bem constante a Sua Excelencia e a toda a Congregação o meu sentimento a respeito do Sco-poli; e por isso sempre o regeitei, e regeito como incapaz para o ensino público, como indigno de apparecer nas prezentes luzes da chimica, e alem disso como vergonhozo para os que o apadrinham, e infamatorio para a Faculdade. Fui de parecer, que se ensinasse por Lavoisier pello crer mais conforme à chimica geral filosofica, a qual tão somente manda ensinar o Estatuto de Filosofia prohibindo na mesma filosofia o ensino da chimica médica, e farmacêutica. Porem já que a Faculdade não foi para ahi, voto só a fim de desterrar o Scopoli, que se ensine interinamente pello Xaptal, enquanto não houver cópia suficiente de Jacquin, ou de outro melhor, que for mais apropriado aos fins da Faculdade segundo manda o Estatuto” (ACFF, 1978, p.23).
Em consequência deste voto, ficou adoptado interinamente o compendio de Jacquin enquanto o proprietário da cadeira não acabasse o seu próprio manual; e à falta de exemplares de Jacquin deveria usar-se o compêndio de Xaptal até que esses exemplares fossem conseguidos [1].
Considerando a doutrina química exposta por Morveau no Tractado das Affinidades Chimicas o que havia de mais completo na matéria desta ciência, compendiando as teorias desenvolvidas por Lavoisier e seus colaboradores, no Compêndio cuja redacção tinha em mãos, Rodrigues Sobral adoptava-as e seguia-as de perto. Era a doutrina de  Lavoisier vertida em português e para uso dos portugueses. Por razões que continuam desconhecidas, esse compêndio não chegou a ser publicado [2]. Sabemos que foi queimado com o resto do recheio da casa que Rodrigues Sobral possuia em Coimbra, na Quinta da Cheira, à Arregaça, quando incendiada pelas tropas francesas comandadas pelo marechal A. Massena, em retaliação do apoio que ele prestara, anos antes, ao combate das tropas comandadas por General Junot. Nesse incêndio não escapou um só volume da rica Biblioteca que o Professor possuia. “Nele foram irreparavelmente destruídos todos os preciosos manuscritos que possuia, e especialmente o seu compêndio de química, fruto de aturados estudos e meditações”(Castilho, 1814, p.286; Sobral, 1816, p.305). No testemunho que sobre o assunto nos deixou Link na sequência dos contactos que manteve, em Coimbra, ao longo dos anos de 1797-1799, não deixa margens para dúvidas sobre a natureza do Compêndio em causa: “Don Thome Rodrigues Sobral, professeur de Chimie, est un homme trés-habile. II connait les procédés actuel des Français dans cette science; il enseigne la chimie d'aprés les nouveaux principes antiphlogistiques; il a même traduit leur nomenclature en portugais, et s'occupe maintenant a publier un manuel de chimie, qui manque en Portugal. Je ne doute nullement de son succés ̏ (Link, 1808, Tom.I, pp. 300-301). 



[1] O Manual de Jacquin seria, entretanto, pyblicado pela Universidade, mas só em 1807 - Joseph Francisci A. Jacquin, Elementa Chemiae Universe et Medicae – Praelectionibus suis accomodata, Conimbricae, Typis Academis, 1807.

[2]Num Livro de Inventários do Dispensatório Pharmacêutico da Universidade de Coimbra, aberto a 13 de Novembro de 1798, no artº 2º do Tit.1º., a fl19V, relacionando os Livros existentes refere a existência duma “Chymica de Sobral em 8º”. Onde parará o exemplar em questão? Não deveria tratar-se de exemplar único no País posto que esta referência é a de uma obra impressa.