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Rodrigues Sobral, o “Chaptal português”

Este epíteto atribuído a Rodrigues Sobral foi salientado pelo Professor A. Simões de Carvalho na sua Memória da Faculdade de Filosofia de 1872, referindo que se trata da justiça que lhe fizeram os sábios escritores Link e Balbi, por comparação com o trabalho desenvolvido por Jean Antoine Chaptal (1756-1832), o médico francês que se notabilizou na química industrial e cujo Ensaio sobre o aperfeiçoamento das Artes Químicas em França, editado em 1800, é das mais importantes marcas no desenvolvimento da química aplicada. É o mesmo Chaptal cujo Manual havia sido referido na Congregação da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra, na sessão de 30 de Junho de 1798, em que se considerara qual o compêndio a adoptar para o ensino da química, em substituição do Manual de Scopoli que estava a ser usado.

Formado em Medicina pela Universidade de Montpellier, J. A.Chaptal celebrizou-se, em particular, pelos seus trabalhos de aplicação da química ao serviço da indústria, com especial incidência na regulação da indústria das águas minerais, a preparação e organização de exposições de produtos industriais, o estudo da vinicultura e o desenvolvimento das estradas e canais. Votou especial atenção à melhoria da produção do ácido sulfúrico, do salitre para produção de pólvora, a preparação do açúcar de beterraba, etc. De 1790 a 1823 publicou onze volumes dando conta dos seus muitos trabalhos sobre estes assuntos.

Esta simples referência aos múltiplos trabalhos de Chaptal como químico, torna óbvio e natural que se possa referir a actividade química de Rodrigues Sobral comparando-a com a dele.

Cumpridas as tarefas químicas de ajuda às tropas portuguesas durante as invasões dos franceses, e no empenho que pôs no atalhar os progressos do contágio da epidemia que grassou na cidade de Coimbra e no País na sequência das mesmas, deparamo-nos com um Thomé Rodrigues Sobral totalmente empenhado em tornar o Laboratório Chimico “de grande utilidade para a Nação; de interesse para a Universidade; de crédito e consideração para as outras Nações”. Ao serviço do ensino público, nele se deviam explicar as teorias ou verdades fundamentais da ciência química, tendo em conta a extensão das suas matérias e o grande número das suas descobertas que, citamos, “há pouco mais de trinta anos a esta parte, é possível confirmar com experiências em pequeno, compatíveis com um edifício assaz limitado, uma vez que não exigem nem um local extenso, nem uma grande quantidade de fornalhas, nem outros grandes aparelhos”(Sobral, 1816 B, pp.292-293).

Quanto à química aplicada, estava Rodrigues Sobral empenhado em que o Laboratório pudesse servir esta nos seus diversos, interessantes e múltiplos usos, já na Medicina, já nas diferentes Artes, a maior parte das quais devem à ciência química ou a sua primeira existência e criação, ou a sua perfeição e melhoramento. Para tanto precisava o Laboratório de “um muito maior número de vazos, instrumentos e aparelhos e toda a sorte de utensílios, bem como uma ou mais casas destinadas à boa arrecadação e conservação dos differentes productos” (Sobral, 1816 B, pp. 294-295).

Claramente, para Rodrigues Sobral, o Laboratório da nossa Universidade havia sido “destinado, desde a sua primeira criação, não só para a pública instrucção da Mocidade Portuguesa, que se dedicasse ao estudo das Sciencias Naturaes, vindo assim a ter um fim commum com os outros Estabelecimentos philosophicos desde a feliz plantação das Sciencias Naturaes na Universidade, mas também para aquelles trabalhos em grande, que se-julgassem ou mais importantes, ou mais compatíveis com a sua capacidade, com o seu local, e com outras muitas circunstâncias que devem attender-se na fundação de um Laboratorio destinado a trabalhos em grande. Todas as sábias disposições e pro-vidências que se-achão nos Estatutos da Universidade relativas a este Estabelecimento, todas mostram as grandes utilidades que se-tiveram em vista na sua fundação: a extensão, capacidade, e magnificência do edifício; a criação de um Operario Mestre do Laboratorio, com seu ordenado avultado (n'aquelle tempo); a cláusula mesma expressa nos Estatutos, de não haver férias n'esta officina; cláusula que se não põe a respeito de algum dos outros Estabelecimentos da Faculdade; acabam de confirmá-lo. (…) Desejando pois eu cooperar, quanto estiver em mim, com os desejos que S. Ex.a me-tem manifestado, e com a firme resolução, na qual o mesmo Senhor parece ter entrado, de que vão sem perda de tempo a estabelecer-se no Laboratório os trabalhos em grande a que fora destinado desde a sua fundação, ou pelo menos aquelles que, attendidas todas as condições, n'elle se-poderem hoje praticar com utilidade; vou indicar no seguinte catalogo alguns artigos sobre os quaes muito principalmente me-parece que o Laboratório poderá empregar-se vantajosamente, como he de esperar que seja, fornecido de todos aquelles meios que se-julgarem necessarios. Estes artigos podem considerar-se fornando duas grandes classes: na pimeira se-comprehendem todas aquellas preparações Chimicas que são de um uso frequente na Medicina; das quaes umas pertencem à Chimica Mineral, outras à Chimica Vegetal e outras à Chimica Animal, e todas ellas à Chimica Pharmaceutica”.

Para o efeito, exigiam-se “não só conhecimentos químicos” como tambérn “grande zelo do bem público, uma delicadeza e boa fé que por via de regra se-encontrão poucas vezes em todos os indivíduos que ou dirigem ou executam trabalhos em grande em matéria a objectos commerciaes” (Sobral, 1816 B, pp. 309-310).

Deixando bem claro quanto o zelo pelo bem-público era uma das grandes linhas orientadoras de todo o seu trabalho químico, ao mencionar os trabalhos em grande que no Laboratorio Quimico era possivel realizar, Rodrigues Sobral, referindo-se ao tartrato addulo de potassa, escreve: “este sal he um dos exemplos que provam até à evidência a nossa negligencia e indifferença a respeito dos nossos interesses Nacionaes. Quasi todo o sarro do Alto Douro he vendido ao Estrangeiro, a quem o recompramos purificado; pagando-lhe talvez por um arratel, o que ele nos paga por uma arroba. Já tirei de uma arroba de bom sarro branco 11, 12, e 15 arrateis: o cálculo he facil do que nos perdemos, e lucra o Estrangeiro” (Sobral. 1816 B, p.310).

E a propósito do nitrato de potassa, depois da referência aos trabalhos de preparação de pólvora no Laboratorio Quimico durante as invasões francesas, conclui: “he também por esta razão que eu recordo hoje a S. Ex." (o reitor-reformador, D. Francisco de Lemos) quaes eram, já há vinte annos, as vistas do Ministro e Secretario d'Estado o Ex.mo D. Rodrigo, sobre estabelecer-se no Laboratorio de Coimbra uma boa nitreira à imitação da que o mesmo Ministro havia feito construir em Lisboa à borda do Tejo”; na falta dela “fui reduzido a fazer apenas um pequeno ensaio de nitreira (em local bem pouco apropriado)”; nela “se algumas cestas de terra mal nitrificada por defeito do local e das condições favoráveis, me-tem dado arrateis, maiores quantidades em outras circunstancias nos-teriam dado arrobas. A natureza sendo a mesma obrando em pequeno ou em grande, nos daria agora grandes quantidades de salitre se nós lhe tivéssemos presentado grandes massas de terra sobre que exercesse a sua acção nitrificante; e S. Ex.a teria hoje a satisfação de ver o fructo de uma boa nitreira” (Sobral, 1816 B, pp. 305-306).

A proposito do oxalato acidulo de potassa, o sal essencial d'azedas, escreve: “Ainda que este sal não constitua em si mesmo um artigo muito importante; com tudo os Allemaes o-têm ha muito tempo tornado do interesse da sua Nação fazendo d'elle um comércio exclusive: e Bayen o-julgou igualmente interessante para a França aonde procurou introduzir a sua preparação. He bem digna de citar-se a reflexão que elle faz por esta occasião: e eu referirei fielmente a sua passagem, que me parece vir muito a propósito a nosso respeito, e confirmar o meu modo de pensar em circunstâncias análogas que fizeram objecto de outro meu Escripto (Noticias de differentes minas, etc., etc. (Jornal de C. Num. XLVI. Parte I, pag. 221). L'importation de ce sel en France, dizia Mr. Bayen, n'est pour l'etat une affaire de grande consequence, mais à moins d'une necessité absolue, peut-on laisser sortir du royaume la plus petite somme d'argent? Non sans doute, et nous croyons que ['importation du sel d'accille ne coutat elle a la France que dix mille livres par an, doit être, non pas prohibée, mais redue nulle par l'etablissement de quelques usines oú on le fabriquerait. (Ann de Ch. Tom XIV.p. 4)” (Sobral, 1816 B, pp. 306-307)”.

E referindo-se às quinas do Brasil, em cuja análise estava a trabalhar, “em observância das Reaes Ordens” que a este respeito haviam sido dirigidas ao reitor da Universidade, faz sua a exclamação de Lineu, numa carta dirigida a Vandelli: «Bone Deus, si Lusitani noscent sua Bona Natura, quam infelices essent plerique alii!” -“Santo Deus, se os portugueses conhecessem as riquezas que a natureza lhes deu, como seriam infelizes tantos outros!” (Lineu, 1765 cit. in Sobral, 1816 A, p.237).

A mesma tecla é batida constantemente no seu Tratado sobre as dificuldades de uma boa análise: «He bem de lamentar que sendo Portugal tão rico e favorecido da Providência em aguas mineraes especialmente sulphureas e Marciaes, eu me-veja obrigado a ir buscar exemplos a outras Nações! Estudamos com interesse quantas aguas mineraes analysadas tem a França, a Inglaterra, a Suécia (...) e ignoramos quasi absolutamente ou desprezamos os thesouros que n'este género temos d'entro em casa. Intus talpae; foris lynces” (,,,) . não conheço senão duas analyses das nossas águas mineraes sulphureas (...) ambas relativas às Caldas da Rainha. (...) A primeira que he do Dr. Jose Martins da Cunha Pessoa tem o inseparável merecimento de offerecer como primeiro fructo da Sciencia Philosofica plantada na Universidade. (...) A segunda analyse he do Cel. Whitering, Philosopho Inglez (...) mandada fazer, ao que parece, pelo Ministerio Inglez (...), uma tácita reprehensão à nossa indifferença“ (Sobral, 1814 C, pp. 258-259)..

Mas é, sobretudo, na sua Notícia de differentes Minas Metallicas e Salinas que mais transparece o profundo zelo pelo bem público que informava todo o seu trabalho científico. Citamos: “o nosso Paiz não he um dos menos favorecidos pela Natureza (...) mas apezar das riquezas naturaes que gratuitameme nos offerece ainda hoje preferimos enriquecer os outros com o numerario que lhes-damos pelos metaes de que tanto carecemos. (...) Se se-houvesse applicado ate agora mais industria e cuidado no melhoramento do ferro que se-extrahe nas nossas ferrarias que sommas incalculáveis não teriam ficado em Portugal!? Um exemplo bem recente e que me-he bem desagradável em um sentido, confirmará o que fica dito, e servirá de monumento que atteste aos séculos futuros ou a nossa pobreza, ou a nossa negligência n'este artigo até à épocha presente. Fallo da somma de muitos mil cruzados que ou já enviámos, ou temos de enviar para a Suécia, pelo ferro com que deve formar-se a grande balaustrada que deve cercar o nosso Jardim Botânico: obra soberba e digna do grande Prelado que a-manda executar. Quem pensara depois d'este facto que a oito léguas de Coimbra uma rica mina de ferro está actualmente em actividade?” (Sobral, 1816 A, p. 222).

Os objectivos que punha na análise de diversas minas metálicas que lhe chegavaam de variadas partes do País e que ele próprio ia, muitas vezes, observar in loco deixou-os ele bem definidos: “1.°- assignar as localidades d'estas riquezas territoriaes, para que julgando-se do interesse público o tornal-as uteis ao Estado, se-possa sem novos trabalhos e indagações saber com segurança a sua existência. Que importaria crer-se geralmente que temos minas, e ignorar-se onde existem; ou sabendo-se onde existem, despresal-as? Isto seria o mesmo que ficarmos pobres no meio das riquezas; escravos e dependentes, cercados de meios de independência. 2.° - excitar, se podér, por este modo ao descobrimento dos differentes Mineraes aquellas pessoas das Provincias que ou por alguns conhecimentos mineralogicos que possuam; ou ainda que sem elles, por motivo de recreação nos espaços, que lhes deixarem livres suas obrigações quaesquer, se-acharem mais em circunstâncias de o-poder fazer e de descobrir sem grandes sacrifícios, nem apparato de viagens, os differentes Mineraes que podem existir nos districtos de suas habitações. A publicidade que eu me-proponho dar por meio do J. de C. às suas descubertas, deve ser já um estímulo que os-excite, e ate um prémio que os-compense do pequeno sacrifício que tiverem feito de algumas horas de descanço. A publicação honrosa dos seus nomes os-fará olhar como Cidadãos beneméritos da Nação como tendo posto à sua disposição algum novo artigo da sua riqueza territorial. 0 homem he naturalmente ambicioso de louvor: pendemus ex laude: et hanc nostri laboris dicimus summam: todo o louvor, que se-procura e ganha por serviços à Patria, nada tem de sórdido; e a ambição que o solicita nada tem de viciosa: vício he neste caso não ser ambicioso” (Sobral, 1816 A, pp. 223-224).

Referindo-se ainda ao jazido de sulfureto de ferro que havia sido descoberto junto à Vila de Miranda do Corvo, a mina de ferro a que aludira quando lamentou a importação do ferro usado para o gradeamento do Jardim Botânico, escreve: “porque razão não faremos nós uma tão barata preparação depois de nos-aproveitarmos dos outros productos úteis, que esta e outras semelhantes Minas, de que Portugal abunda, nos-offerecern? Eu não posso descobrir outra alguma razão que nos-desculpe, a não ser a de havermos sido como condemnados pela

Providência a uma escravidão perpétua; ainda n'aquelles artigos mais capazes de nos-tornarem superiores, logo que conheçamos melhor do que até aqui, os bens que possuimos, e cesse a nossa indifferença e negligencia em approveital-os (...). os objectos de pública utilidade devem em todo o tempo dar-nos olhos de todo o bom Cidadão: elles devem em todo o tempo, e logo que se-conheçam, ir tocar o coração de um Soberano digno do Nome de Pai Commum; e excitar o zelo d'aquelles Ministros, por cuja conta corre o vigiar sobre as necessidades e os interesses do Estado, que o mesmo Soberano tem commettido as suas luzes; e promover por todos os modos possíveis os interesses da Nação. Mas infelizmente a reunião d'estas circunstâncias favoráveis raras vezes tem lugar: o Soberano, que por si mesmo não pode vigiar sobre todas as necessidades dos seus Vassalos, fica muitas vezes, apesar das suas melhores intenções e paternaes sentimentos, ignorando meios bem fáceis de as-fazer cessar, por falta de quem lh'as communique. 0 Ministro aliás Sábio, activo, e zeloso, ignora às vezes uma fonte de riqueza nacional, e consente, sem querer, que se-enriqueçam os Estados vizinhos com o numerário que serviria a enriquecer o seu. 0 Cidadão vê-se, por mil causas conspirantes, na impossibilidade de fazer chegar, ou à presença do Soberano, ou ao conhecimento dos seus Ministros muitos objectos d'utilidade para elle mesmo, e para a sua Nação; e o resultado fatal do concurso a estas causas, he a perpétua dependência da Nação das suas vizinhas mais industriosas, e mais vigilantes sobre os seus interesses, mas não mais ricas (...). Nem se-diga que objectos de tão pouca monta, como este que ultimamente me occupa, pouca, ou nenhuma influencia podem ter na prosperidade geral de uma Nação, e na sua independência de qualquer das outras. Eu não admitto objectos de pouca monta, se não em relação a outros de primeira ordem, quando se trata dos interesses de uma Nação. Uma grande somma resulta necessariamente da reunião de parcellas bem pequenas: ella poderá sim formar-se mais rapidamente com parcellas maiores, mas será sempre da sua essência ser producto das mais pequenas. Se um pequeno artigo qualquer commercial preparado no Paiz pode impedir a sahida p. ex. de um milhão para o Estrangeiro, muitos artigos semelhantes pouparão a sahida de muitos miIhões, que servirão a muitas outras applicações úteis à Nação” (Sobral, 1816 A, p.224; p. 238).

E conclui peremptorio: “Se he útil que no Reino haja Minas de todo o género, também o-deve ser que se-conheção e se-saiba onde existem: e ainda mais útil o-deve ser que ellas se-aproveitem; alias cui bono ?” (Sobral, 1816 A, p.240).