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Rodrigues Sobral, o “mestre da pólvora”

Na sua “Nota sobre os Trabalhos em grande que no Laboratório Químico da Universidade poderão Praticar-se…”, numa observação sobre os usos importantes e extensos do salitre, Rodrigues Sobral descreve a situação que se viveu no Laboratório Químico da Universidade, quando, em 1808, os exércitos de Napoleão, conduzidos por Massena, atacaram Coimbra. Citamos : “…no dia memorável 23 de Junho de 1808, dia da abençoada, posto que arriscada, revolução contra os Francezes, que se-havião ja apoderado de grande parte das nossas praças, e por consequencia das nossas polvoras e armamentos, gritava-se por toda a parte ás armas; o valor e o patriotismo iam até o enthusiasmo: mas a falta de polvora era quase absoluta. Eu me-vi inopinadamente encarregado pelas Authoridades-constituidas de a-fabricar, posso dizer sem meios, de um dia ate o outro, se-fosse possivel: e ate posso accrescentar, quasi me-achei sacrificado á impostura (por não dizer á perfidia) de quem quiz persuadir que no Laboratorio da Universidade, onde por via de regra so se-fabricam algumas libras para o ensino, se-podiam diariamente fabricar arrobas: como pois tirar-me de tão apertada situação, e desempenhar tão dificil, e ao mesmo tempo tão importante commissão que ao depois me-veio a ser tão fatal?

“Entao foi que eu vi com mágoa os funestos effeitos da falta de uma boa nitreira, que ja então nos-teria fornecido abundantes colheitas de salitre, cuja falta n'aquella occasião nos-era tao sensivel, se a proposta que eu tinha feito alguns annos antes sobre o estabelecimento de uma nitreira houvesse sido attendida: proposta que ainda hoje repito; e oxalá que corn maior sucesso! Todas as lojas de droguistas, e todas as boticas de Coimbra, fóram immediatamente esgotadas das pequenas quantidades de salitre que nellas se achou: mas todo era nada para a nossa necessidade. Despediram-se portanto homens capazes para as Cidades de Aveiro, Porto e Braga com as ordens necessarias para comprar todo o salitre que se-achasse. Tal foi o nosso único recurso para se-fabricar dentro em pouco tempo uma quantidade de pólvora (dos diários dos trabalhos do Laboratório consta que já pelos princípios de Agosto seguinte se-haviam fabricado de pólvora perto de 100 arrobas) a qual se não bastou à nossa necessidade e à defesa de Coimbra, influio pelo menos muito n'ella, animando-se muito o Povo e a mesma Tropa, em quanto não chegaram os abundantes soccorros dos nossos Alliados e Protectores” (Sobral, 1816B, pp.304-305).

Referindo-se à mesma situação, escreveu o director do Jornal de Coimbra: «A experiência pública e authenticada por attestados de Artilheiros que se-achavam em Coimbra, que se fez sobre a ponte do Mondego, decidio sem equivoco da superioridade e valentia da polvora, que alias com tanta precipitação se fabricava e apenas mal se-enxugava na estufa do Laboratorio. O mesmo Lente (o Professor Rodrigues Sobral) não só dirigio, mas preparou por suas mãos outras munições de guerra: espoletas tanto de peça como de granada; estopins; velas de mixto; murrao, etc. Artigos todos de primeira necessidade e que faltavam em Coimbra, em quanto não chegáram os poderosos e abundantes soccorros que a Nação Ingleza se-apressou a mandar para Coimbra, a cuja chegada sendo tudo remettido ao Laboratorio e alli depositado para sua distribuição, que foi sempre feita pelo dito Professor segundo as requisições que se faziam pelos Chefes da Força armada, o dito Professor teve a satisfaçao de ouvir da boca de diversos Officiaes Inglezes os mais lisongeiros elogios” (Castilho, 1814, p.285).

Ainda sobre a mesma situação, escreveu Jose Accursio das Neves, salientando a acção de outros Professores que no Laboratório Químico colaboraram na dita preparação da pólvora necessária e outro material de necessidade urgente para fazer face ao exército Francês: ”No dia 26 pelas dez horas da noite appareceu corn grandes applausos fabricada a primeira porção de polvora; e neste trabalho se continuou noite e dia debaixo da inspecção do dr. Thome Rodrigues Sobral, lente de chimica. Não se sabiam fazer cartuxos, nem havia balas; mas a essa mesma hora se mandaram buscar dois soldados portuguezes convalescentes, que estavarn no hospital, para se empregarem no cartuxame, e officiaes de ourives e funileiros para fundirem balas. lgualmente foram chamados um sargento e alguns soldados, que estavam destacados na ferraria de Thomar, debaixo das ordens do lente de metallurgia e intendente das minas, o dr. Jose Bonifacio de Andrada e Silva, para trabalharem no cartuxame; e principiou a fazer-se metralha para quando houvesse peças, que já se esperavam da Figueira. O dr. Joaquim Baptista foi um dos que mais se distinguiram nestes trabalhos, desenvolvendo, com grande utilidade, os seus muitos conhecimentos theoricos e practicos. O dr. Jose Bonifacio de Andrada, que ao estudo e practica das sciencias naturaes e das artes ajunta o da jurisprudencia, e um grande conhecimento do mundo, adquirido pela lição e pelas viagens, ficou trabalhando juncto à pessoa do governador; e por isso teve menos parte naquelles objectos. Os lentes e doutores das outras faculdades tambem empregaram ultimamente as suas forças e talentos: o berço das letras tornou-se um arsenal de guerra”(Neves, 1820, cit. in Carvalho, 1872, pp.182-183).

Informado de todos estes trabalhos e serviços feitos no Laboratório Chimico sob a direcção de Rodrigues-Sobral, o Exército de Massena quando chegou a Coimbra perguntou com empenho pela casa do Mestre da pólvora. A casa foi reduzida a cinzas pelo fogo que o exército lhe pegou; o epíteto perdurou para a história (Castilho, 1814, p. 286).

Fruto do flagelo da guerra contra os franceses em que a notória actividade química desenvolvida por Rodrigues Sobral lhe mereceu o epíteto de “mestre da pólvora”, grassou em todas as freguesias de Coimbra e em muitos outros pontos do País, em Agosto de 1809, uma epidemia em que a peste devastava as populações a ritmo quase incontornável. Tornaram-se então notáveis as operações levadas a cabo, sob sua orientação, para atalhar o progresso do contágio. Por elas vemos quanto ele estava familiarizado com os diversos processos químicos necessários para o fazer, fosse quanto aos materiais a usar, fosse quanto ao modo de os preparar. O relato diário dessas operações, publicado primeiramente no periódico de Coimbra Minerva Lusitana e, depois, num longo escrito no Jornal de Coimbra não deixa dúvida. Servindo-nos do texto publicado no Jornal de Coimbra limitar-nos-emos a citar: “para o efeito se fizeram fabricar no Laboratório pequenos vazos de barro muito commodos e em 17 de Agosto de 1809 se deram em Coimbra as primeiras providencias, depois das quaes se procedeo às fumigações com o gaz muriatico oxigenado em todos aquelles  lugares,  edificios publicos,  hospitaes, quarteis de tropa de que se achava então Coimbra chêa, cadêas, e outros pontos, onde as provas de contagio pareciam menos equivocas, ou se queria mesmo prevenir a sua fatal propagação: dous annos depois se dão as mesmas ou semelhantes providencias na Capital por motivos semelhantes (...) o precioso meio anti-contagioso que vou novamente recommendar ao Publico, torna o cel. Guiton digno do reconhecimento geral de todos os que têm e desejam conservallo na presença ainda do contagio mais furioso (...); não se pense que eu sou menos exacto quando deixo subsistir para o Sabio chimico de Dijon toda a gloria d'esta Descoberta. Eu sei bem que este Sábio chimico, para desinfectar a Cathedral de Dijon em 6 de Março de 1773, não empregou o gaz muriatico oxigenado, mas sim o gaz muriatico ordinário” (Sobral, 1813, pp. 108-110). 

Referindo a preparação deste gaz muriático escreve mais adiante: “elle não existe na natureza, mas he meramente producto da arte: a sua primeira existência deve-se ao cel. Scheel; mas o completo conhecimento da sua natureza e composição he o resultado dos trabalhos posteriores ao mesmo Chimico. Os seus elementos ou principios são, de huma parte e como fazendo a sua base, o acido muriatico, ou do sal comum; e da outra aquele precioso principio, exclusivamente a qualquer outro, vital e comburente de que já fallamos, e que faz com pouca differença uma quarta parte do ar atmosferico que respiramos. Estes dous principios combinados, e fundidos em a competente dose de calorico para os reduzir ao estado de um fluido elastico, constituern o dito-gaz, cuja denominação se deriva, segundo as Leis rigorosas da nomenclatura chimica actual, dos mesmos tres principios, calórico, ácido muriático, e oxygenio (ar vital). Tal he a sua composição” E de imediato observa, revelando o pormenor e o espírito crítico com que se mantinha a par das últimas descobertas: “as novas descobertas de Davi posteriores à epocha dos nossos trabalhos tem obrigado este Cel. Chimico e alguns outros a considerar o gaz muriatico oxigenado como hum corpo simples. Eu reservo para outro Escripto o exame d'esta theoria, que me não parece infirmar a que fica indicada sobre a composição d'este gaz” (Sobral, 1813, pp.109-110). 

Com o mesmo espírito crítico, se insurge contra aqueles que recorriam ainda, no ataque às epidemias do tipo daquela que grassava em Coimbra e outras partes do País, às populares fumigações baseadas no queimar de plantas balsâmicas e/ou resinosas: “todos os que persistem ainda hoje em inculcar fogueiras, seja de plantas aromáticas, balsamicas, resinosas, ou inodoras quando se trata de contagio e epidemias, dão huma prova demonstrativa de que ignoram de huma parte a verdadeira theoria da combustao; e que desconhecem de outra o verdadeiro alimento da sua vida; aquelle pabulum vitae de que nos alimentamos em todos os instantes da nossa existencia; e que por isso nos deve merecer mais atenção ainda que os outros alimentos que só tomamos a longos intervalos. Em huma massa qualquer d'ar que respiramos um unico principio nos he util e indispensavelmente necessario; todos os outros nos são ou indiferentes quanto à respiração, ou nocivos; e nos vem a ser mortaes, se os respiramos muito tempo, ou em grande quantidades: he logo huma legitima consequencia d'estes principios hoje bem provados, que todos aquelles meios que roubarem ao ar, que respiramos, o único principio vital que n'elle existe, o tornam por isso mesmo deletério, mephitico, e irrespirável; e que diremos nós, quando os mesmos meios, ao mesmo tempo que roubam ao ar a sua parte respirável e vital, lhe dão em troca productos eminentemente deletérios? Tal he pois rigorosamente a combustao, quaesquer que sejam os corpos que se queimam, á differença só de mais ou menos. Toda a combustão he sustentada pelo mesmo principio vital do ar que respiramos, bem como a respiração; à excepção de que este principio terá o nome de comburente... Ora todos os corpos combustiveis, à excepção de poucos, fornecem, quando ardem, abundancia de productos deletérios e mephíticos de huma parte; e depauperam da outra o ar que respiramos do seu principio comburente (o mesmo que vital). Proscrevamos logo os fogos como meios contra-indicados sempre que se tratar de conservar a salubridade do ar, ou de restituir-lha”(Sobral, 1813, pp.122-123).