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Rua Larga

Azulejos com História

A peça que faltava

Carlota Simões *

Em Novembro de 2010, a equipa de arqueologia responsável pelas escavações no Laboratorio Chimico (Sónia Filipe e Paulo Morgado) descobriu, numa escavação arqueológica, um fragmento de um azulejo (5cm × 5cm) no qual se vê parte da esquadria e se lê simplesmente 16. (FIG 1). Um singelo pedaço de cerâmica que esperou três séculos para esclarecer uma questão que estava em aberto na história do ensino da matemática pelos jesuítas em Portugal.
Quem, em 2007, teve oportunidade de visitar a exposição Azulejos que Ensinam  reconhece de imediato que se trata de mais um azulejo didáctico, da colecção dos que  pertencem ao Museu Nacional Machado de Castro (MNMC) (FIG 2). Para além deste  fragmento, são hoje conhecidos 23 azulejos didácticos com figuras matemáticas: 14  pertencem ao MNMC, seis estão em mãos de particulares e dois encontram-se expostos no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa. No entanto, a recente descoberta é especial por este ter sido o primeiro a ser encontrado numa escavação, revelando o  local onde ele e todos os outros estiveram expostos no passado.
Foi António Leal Duarte (Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e  Tecnologia da Universidade de Coimbra) quem durante os anos 90 do século passado  identificou todas as gravuras matemáticas representadas nos azulejos como sendo  ilustrações de proposições e definições de Os Elementos de Euclides, na versão do  matemático jesuíta belga, André Tacquet, (1612-1660), publicada pela primeira vez  em 1654, e bastante utilizada no ensino da Matemática em toda a Europa até aos finais do século XVIII.
Em todas as edições da obra de Tacquet que António Leal Duarte pôde observar, tanto  a numeração das figuras como a notação matemática utilizadas no livro coincidem com  as que encontramos nos azulejos (FIG 3). No entanto, mesmo na edição de  Tacquet mais fiel às ilustrações dos azulejos que se pôde encontrar (Pádua - 1729) há  uma figura que aparece invertida no livro (FIG 4). Leal Duarte nunca encontrou uma  versão fiel a todos os azulejos conhecidos, mas o mistério talvez tenha ficado resolvido  na altura da exposição Azulejos que Ensinam, quando se deu conta que a  um exemplar de Os Elementos pertencente à Biblioteca Geral da Universidade de  Coimbra (UC), precisamente na versão de André Tacquet (Antuérpia - 1672), faltavam os desdobráveis com as figuras. É possível que as ilustrações desse exemplar tenham  sido retiradas para servirem de modelo durante a execução dos azulejos.
A publicidade em torno da exposição Azulejos que Ensinam permitiu que mais um  azulejo matemático fosse encontrado na altura: um leitor do jornal Público enviou-nos  a foto de mais um azulejo, que só difere da gravura de Tacquet porque o azulejo p ssou por um restauro que não recuperou uma das letras da ilustração matemática (FIG  5).
Quando se cita uma proposição de Os Elementos, indica-se o número do livro e da  proposição: livro 1, proposição 29, livro 3 proposição 12, etc. Acontece que sobre os  azulejos encontramos apenas o número da figura (canto superior esquerdo) e o número da proposição (canto superior direito), faltando a indicação do livro  correspondente. Leal Duarte acredita que tenham sido feitos azulejos para cada um  dos diagramas da edição de Tacquet (várias centenas), e que estes estariam  agrupados do mesmo modo que em certas edições de Os Elementos, onde as figuras  aparecem em desdobráveis no final do livro, agrupadas por livros, não sendo  necessário indicar em cada fi gura o número do livro. Estariam talvez em paredes ou  fachadas distintas, e seria desnecessário indicar o número do livro no azulejo, pois a  disposição ou a localização do azulejo já daria essa informação. Quanto ao azulejo  agora encontrado, apenas podemos afi rmar que ilustrava uma proposição, de   qualquer um dos livros de Os Elementos.
Tanto Henrique Leitão (Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa)  como António Leal Duarte são de opinião que os azulejos didácticos com ilustrações  matemáticas estão intimamente associados a um movimento de renovação científica, que teve lugar nos fi nais do Séc. XVII, dentro da própria Companhia de Jesus (ver  Azulejos que Ensinam, Catálogo de Exposição, Coimbra, 2007). Desde os seus  primórdios, havia na Companhia alguma tensão entre o estudo da Filosofi a e o da  Matemática.
O estudo da Matemática e da Ciência acabou por se impor, havendo bastantes Jesuítas  com um papel importante na ciência nos séculos XVII e XVIII. No entanto,  entre os Jesuítas portugueses a corrente fi losófi ca parece ter sido dominante. Este facto originou a reacção do Geral da Companhia de Jesus, Tirso Gonzales, que, em  1692, enviou para Portugal as Ordenações para estimular e promover o estudo da Matemática na Província Lusitana, onde se pode ler: Quinto: Procurem primeiro os  Superiores dos colégios de Coimbra e Évora que cada um dos nossos filósofos tenha necessariamente para seu uso os seis primeiros livros dos Elementos de Euclides que contêm os elementos de geometria plana. São muito convenientes os que compôs o P. Andreas Tacquet [...]. Na escola, ou em qualquer outro lugar destinado às  demonstrações deve ser exposto um quadro das fi guras principais, maior e mais  amplo, que será comum a todos, e a que se deve adaptar um compasso para a  demonstração das figuras [...].
Este quinto ponto da Ordenação explica o aparecimento dos azulejos: no local onde se  dá a aula de matemática deve haver um quadro amplo, com as figuras  correspondentes às principais demonstrações.0
A esta ordenação seguiu-se outra sobre exames: também aí se ordena que os exames  sejam feitos perante fi guras de Os Elementos. Os azulejos foram decerto uma  resposta a estas ordenações.
Podemos assim datar com algum rigor os azulejos: seguramente depois de 1654, já  que reproduzem as figuras da versão de Tacquet, publicada nesse ano, certamente  depois de 1692, em resposta à Ordenação de Tirso Gonzales, e antes da expulsão dos Jesuítas de Portugal, em 1759.
Entretanto, em 1756 surgiu em Inglaterra uma outra edição de Os Elementos, a edição de R. Simson, traduzida em Português em 1766 pelo Abade Afonso Bunelli, que seria  adoptada pela Faculdade de Matemática da UC após a Reforma Pombalina de 1772.  Como as figuras desta versão são diferentes das de Tacquet, os azulejos didácticos  deixariam de ter utilidade e teriam que ser retirados da vista dos estudantes.
Tendo este pedaço de azulejo sido encontrado numa escavação junto ao Colégio de  Jesus, na zona mais jesuíta da cidade de Coimbra, podemos finalmente, e com grande certeza, concluir que os azulejos matemáticos estiveram expostos num colégio jesuíta  em Coimbra, entre os anos de 1692 e 1759, tendo sido destruídos durante a Reforma  Pombalina e entulhados durante as obras do Iluminismo.
Salvaram-se os azulejos pertencentes ao MNMC. Mãos cuidadosas souberam subtraí-los ao entulho das obras de Marquês de Pombal. Quem sabe o próprio Reitor- Reformador D. Francisco de Lemos (1770-1779 e 1799-1821), também Bispo de  Coimbra (1779-1822) os protegeu da destruição no antigo Paço Episcopal, hoje MNMC.
Faltava esperar que Leal Duarte contasse a sua história no Séc. XX e que Sónia Filipe e Paulo Morgado desenterrassem o azulejo 16, no Séc. XXI para que ficasse provado que  aqueles azulejos ensinaram Matemática em Coimbra, quase certamente no Colégio de Jesus por ser o colégio mais próximo do local da escavação.

* Museu da Ciência da Universidade de Coimbra