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William Blake

no Teatro Académico de Gil Vicente

Manuel Portela *

Com o ciclo «Blake no TAGV», que decorreu entre 6 e 28 de Novembro de 2007, o Teatro Académico de Gil Vicente celebrou a obra do artista inglês William Blake (1757-1827), no ano em que se completaram 250 anos sobre o seu nascimento. «Blake no TAGV» constituiu um ciclo interdisciplinar, que abrangeu de forma integrada a maior parte das áreas de programação do Teatro: exposições, teatro, música, multimédia, cinema e debates. O TAGV contou ainda com a colaboração da Rádio Universidade de Coimbra, na montagem e difusão de um conjunto de traduções de poemas de William Blake e de composições musicais baseadas na sua obra. Enquanto produção original e exclusiva, «Blake no TAGV» representou também um modelo de relação dialéctica entre criação e programação, que procurou realizar a dimensão especificamente universitária do TAGV, mobilizando um conjunto de saberes científicos e artísticos. No âmbito deste ciclo estrearam-se duas co-produções do TAGV: «Uma Ilha na Lua», pela Camaleão, com a Orquestra Clássica do Centro; e «As Portas da Percepção», pela Marionet.
Realizou-se também a exposição «Sete Visões de William Blake», resultado de uma proposta feita a sete artistas: António Olaio, Armando Azevedo, Atelier do Corvo, Emanuel Brás, Gilberto Reis, Pedro Pousada e Teresa Amaral, que deveriam criar novas obras a partir de gravuras de William Blake. É este conjunto de iniciativas que é aqui brevemente evocado, através dos dois espectáculos referidos e da instalação «Sete represetações possíveis em torno da escada de Jacob» (uma das  sete obras criadas para aquela exposição).

1. Visão visionária

Num certo sentido, as visões de William Blake são criações multimédia e intermédia. Ao combinar desenho, gravura, tipografia e pintura, Blake procurava um meio adequado para ligar a materialidade da escrita e a materialidade do desenho.
A gravura impressa iluminada é esse meio intersemiótico que desfaz a divisão entre reprodução tipográfica, reprodução gravada e original desenhado e pintado. Daí que o visionarismo da sua efabulação mitológica tenha equivalente na experimentação tecnológica que ocorre na oficina do gravador. As imagens arrancadas à chapa pelo ácido nítrico são um correlato das imagens arrancadas à mente pelo delírio poético. Para o leitor, umas e outras tomam a forma inter-média do texto visual, situado entre a plasticidade icónica do desenho e a plasticidade abstracta da letra e da língua. O desejo de limpar a percepção, extirpando-a dos pré-condicionamentos que limitam os seres humanos, manifesta-se nessa concepção da imagem como revelação do mundo.

2. «Uma Ilha na Lua»

O texto de partida d’ «Uma Ilha na Lua» é uma obra inacabada e incompleta, constituída por um conjunto de diálogos e canções sem um nexo óbvio, a não ser o facto de constituírem paródias da conversação de homens e mulheres burgueses nos serões literários e musicais dos círculos londrinos frequentados por William Blake na penúltima década do século XVIII. Nas conversas e canções afloram temas como a educação da criança,  a ciência moderna, as relações entre sexos, a moda ou a religião. Através de um grupo singular de habitantes da lua, cujos nomes alegóricos tipificam as personagens, são postas em cena, por vezes de forma absurda, um conjunto de práticas artísticas, educativas, religiosas e científicas.
Trata-se, de certo modo, de um talk-show do século XVIII, em que a conversação pública tem lugar nos salões polidos onde a burguesia pratica a troca de ideias. No texto de Blake surgem lado a lado o laboratório químico, o púlpito, a sala de aula e a sala de estar, numa espécie de zapping sobre os tópicos de conversa que faziam a agenda do dia. As personagens incluem filósofos, matemáticos, arqueólogos, cirurgiões, químicos. Fazem-se experiências, especula-se, bebe-se e canta-se.
O trabalho criativo de Joaquim Pavão (compositor) e de José Geraldo (encenador) consistiu, sobretudo, em amplificar a dimensão de pastiche e paródia contida no original. A amplificação da dimensão fragmentária do original, por exemplo, é visível no modo como as canções interrompem os diálogos, e vice-versa. Esta interrupção ocorre, de resto, internamente em cada voz — já que as vozes, cantadas ou faladas, se desdobram e se multiplicam. Em certas árias, baixo e soprano dividem o texto entre si, sobrepondo à lógica dramática a lógica musical da combinatória tonal da partitura. A tensão entre a incoerência dramática (isto é, a natureza deliberadamente fragmentária e incompleta do original) e a coerência musical (isto é, a enunciação, desenvolvimento e reenunciação dos temas, por vezes retomados nas várias partes, segundo uma arquitectura em que é visível a progressão em direcção a um todo), constitui uma das singularidades do espectáculo concebido por José Geraldo e Joaquim Pavão.

3. As Portas da Percepção

O espectáculo As Portas da Percepção, uma criação da Marionet, com direcção artística de Mário Montenegro, parte de uma colagem de excertos de sete livros de William Blake: O Casamento do Céu e do Inferno (1790), O Livro de Thel (1789), O [Primeiro] Livro de Urizen (1794), A Canção de Los (1795), O Livro de Ahania (1795), Visões das Filhas de Albion (1793) e Cantigas da Inocência e da Experiência (1794). O prólogo é composto por uma «Visão Memorável» da tipografia infernal e o epílogo é constituído pelo poema «A Rosa Doente». Entre um e outro momento vemos as cenas com Thel, Urizen e Los, Enitharmon e Orc, Ahania, e, por último, Oothoon, Bromion e Theotormon.
Apesar de uma estruturação dialéctica, recheada de forças e impulsos contrários, e da existência de diálogos e de acções descritas de forma narrativa, os textos de William Blake não se prestam facilmente a uma leitura cénica. O seu dramatismo parece ser, sobretudo, de ordem visual e verbal. Por isso se deve sublinhar a criatividade da Marionet, que é manifesta a vários níveis: desde logo, numa definição clara das personagens, capaz de as diferenciar entre si e de transmitir os vários matizes dos seus conflitos interiores nos momentos dramáticos da narrativa de cada uma. Vemos Thel interrogando-se sobre a natureza do desejo sexual e sobre o seu destino de mulher mortal. Vemos Oothoon lamentando-se por ter sido rejeitada por Theotormon. Vemos Los a criar o sol e a acorrentar Urizen.
Da fantasmagoria do universo imaginado por Blake, a Marionet conseguiu extrair o intenso dramatismo que sustenta esta leitura cénica, cuja dimensão plástica e intermédia se deve sublinhar.
Tanto mais que o texto é seguido ipsis verbis e as imagens das gravuras de William Blake são incorporadas nas marcações e posturas cénicas assumidas: em cada um dos quadros da peça  há posições e movimentos dos actores que são recriações das gravuras (por exemplo, nas posições corporais de Thel, de Urizen, de Los, de Theotormon, d’as filhas de Albion, etc.), como se um determinado momento da peça pudesse ser parado e transformado numa das imagens dos livros, ou como se imagens dos livros pudessem ganhar movimento e dar a ver, sobre o palco, a sequência de movimentos anterior ou posterior àquela que a gravura fixou. No conjunto cénico das diversas materialidades que compõem o espectáculo (corpo e voz, luz, coreografia, música digital, poesia, imagem sintética, etc.), «As Portas da Percepção» consegue revelar-nos até que ponto é ainda possível ler a obra de William Blake, ressignificando-a e oferecendo a uma nova percepção as formas imaginárias nela contidas.

4. Uma escada da terra ao céu

Uma escada da terra ao céu — o sonho de Jacob (Génesis, 28: 12) — é a visão que Carlos Antunes/Atelier do Corvo nos propõe do desenho de William Blake («Jacob’s Dream», c. 1805) para a sua própria visão. A escada sobe em espiral, erguendo-se nos céus em direcção ao resplendor da divindade, que surge como um disco solar no plano superior da aguarela. Grupos de figuras cruzam-se, subindo e descendo as escadas: anjos alados; duas figuras com cântaro e tabuleiro à cabeça; grupos de mulheres e crianças; crianças conduzidas pela mão ou levadas aos ombros; todos parecem trocar olhares, palavras e abraços, quando se cruzam na felicidade desses movimentos ascendentes ou descendentes. Aos pés da escada, Jacob
dorme deitado sobre a terra, a cabeça pousada numa pedra. A visão onírica, isto é, a imagem produzida durante o sono, é uma das formas que a visão interior assume nos poemas e nos desenhos de William Blake.

Enquanto dispositivo capaz de induzir imagens, simultaneamente perceptivas e aperceptivas, a instalação permite observar e experimentar interiormente a faculdade de imaginar, isto é, de criar imagens do que não existe, ou do que ainda não existe, a não ser como assombro ou desejo de criar dentro do sujeito. Carlos Antunes/Atelier do Corvo, no seu desejo febril de imaginar, passa da ideia de escada para a materialidade do objecto — transformado em escultura auto-referencial de madeira, ferro e vidro —, e da materialidade do objecto para as escadas visionárias de Blake e de Jacob: a escada que permite colocar em contiguidade substância humana e substância divina. O cedro invertido (copa no chão e tronco no ar) é a árvore-escada que coloca o céu na terra e a terra no céu, realizando metaforicamente o sonho de Jacob.
Mais ainda do que representar a escada, aquilo que «Sete representações possíveis em torno da escada de Jacob» torna possível representar, é a faculdade de imaginar e aquilo que, na sua forma particular de desejar o mundo, une a terra e o céu.

* Director do TAGV