“Parede de Segredos”
instalando poesia
Berta Teixeira
“Parede de Segredos” é um projecto transdisciplinar de ênfase teatral. O objecto estético “parede” deseja-se alcova, ponto de encontro e zona de fé. Ele é limite, canal de passagem e horizonte. Ele impede e potencia.
Na investigação preliminar para a concepção do dispositivo cénico dedicou-se especial atenção às diferentes perspectivas e contribuições que têm vindo a ser desenvolvidas nos domínios da sustentabilidade e das relações entre estrutura, forma e requisitos artísticos, nomeadamente ao modo como tem sido procurada a identificação e compreensão dos factores invisíveis, e por isto «indizíveis», que estão associados a tipos específicos de relações convocadas numa cultura do movimento para a obtenção de qualquer forma. Foram identificadas sete grandes áreas de atenção: as dinâmicas de interface entre o trabalho de arquitectura/engenharia e a construção de cena; a forma como se procuram soluções técnicas que transcendam certa exigências artísticas muitas vezes complexas e onerosas; a concepção informal das variações possíveis de estrutura liberta de códigos e de referências consagradas; a compreensão da regra como corolário da “pesquisa do desalinho”; o jogo com os elementos clássicos de estrutura como predicado de criação de novas formas e de encenação do movimento; a exploração dos números e de ritmos numa atitude de hibridação; as ligações estreitas entre ciência e a arte no entendimento da génese da forma.
Alguns poemas de Folhas Caídas (Almeida Garrett) funcionam como guião, linha de pensamento e de criação do ambiente performativo. Deles se constrói uma personagem na figura da “Amante”, da qual derivam três outras personagens: “Encoberta” é o excesso mítico pelo amado criado, um ser ofuscado que não tem verbo próprio, um enigma, um desejado desconhecido que por isso mesmo “é a imagem da ignorância a respeito de si, reflectida num espelho complacente(Boaventura de Sousa Santos)”. “Descoberta” é, sem mágoa nem perdão, a auto-descoberta da sua identidade em curso: o processo de identificação e edificação deste renovado velho ser é plural, pouco rígido, mutável, transitório e fugaz, sem por isto deixar de ser genuíno. Este processo traduz negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades e sobreposição de espaços. “Felizberta”, reinventando a gramática e a arquitectura do tempo, apropria selectiva e responsavelmente identidades alegóricas como a “Liberdade”, a “Utopia”, e a “Zona” (“LUZ”) que reconfiguram uma possível recontextualização de uma identidade/prática da condição humana, assente na reformulação “guerraz” das relações entre vínculos binários tomados como mais sólidos: o eu e o outro, o feminino e o masculino, o amor e o ódio, a guerra e a paz.
Deixar de silenciar os outros
Pela metáfora constante e pelo uso da figura relativa à expressão do pensamento, a preterição — a qual consiste em enunciar que não se versará sobre um determinado assunto, quando na realidade é dele mesmo que estamos a tratar — daremos voz (enquanto prolongamento de um corpo) a seres que amiúde e apenas pela versão do nosso testemunho se nos apresentam como reais. Eles existem numa obliterada presença-ausência, porque “nós” achamos poder ser ou tê-los a “eles”, sem que por isso eles nunca venham a ser nem ter-nos a “nós”. Se uma das preocupações da modernidade nasce com a identidade, enquanto indivíduos de subjectividade e sujeitos sociais devemos insistir em deixar de os silenciar — aos “outros” que muitas vezes podem ser partes de «nós» próprios —, de ofuscar a sua visibilidade, em suma, de os trivializar mantendo-os em quase segredo.
(Re)inventar um guião de vida não é mais do que recuperar outras vidas escritas, descritas, inscritas nas mais variadas superfícies, registos e corpos. O incitamento ao colectivo pelo resgate dos múltiplos “eus” emancipatórios e, por fim, a poética da língua portuguesa como mecanismo de consolidação das várias democracias, políticas, sociais, culturais e artísticas é, para a direcção artística, argumento incomensurável para a realização do evento.
O projecto vem sendo apoiado por entidades consolidadas no plano técnico-profissional, logístico e de programação e promoção de actividades artísticas. A saber: Fundação Calouste Gulbenkian (Apoio a Novos Encenadores), Centro Nacional de Cultura (Jovens Criadores 2006), Teatro Académico Gil Vicente (estreado a 23 de Outubro de 2007), Reitoria da Universidade de Coimbra e a entidade Lugar Comum – Centro de experimentação Artística do Clube Português de Artes e Ideias, etc. Estamos em acreditar que este pode ser um exemplo de cidadania cultural.
Um depositário de poesia
A peça-instalação “Parede de Segredos”, partindo da poesia de Almeida Garrett, procura instigar a vontade de outros (poetas) contarem os seus segredos. Uma pré-instalação (um módulo da instalação total) vem funcionando como um depositário de poesia que visa potenciar uma, se não nova, pelo menos, inclusiva manifestação estético-expressiva, que ultrapassa a língua/linguagem própria a cada participante. Esta pré-instalação torna-se igualmente promotora dos momentos performativos vindouros na carreira de itinerância do evento “Parede de Segredos”. Nestes, instalar poesia no palco é convidar o público/visitante à cena.
“Instalar” poesia é convocar também, pela interacção, conteúdos emotivos e simbólicos que extrapolam a presença do performer e a materialidade do objecto estético “parede” — concebido a partir de princípios tão mais poderosos quanto mais abstractos. Reconfigurar a Humanidade é resgatar a função do poético nas suas constelações entre artes, ciências-saberes e tecnologias.