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O Liceu de Coimbra

do Liceu Dr. Júlio Henriques à Escola Secundária José Falcão

Gonçalo Canto Moniz *

Em 1836, Passos Manuel reforma o ensino substituindo os estudos menores pelo liceu, inspirado no modelo republicano francês do lycée e no lykeion, a escola onde Aristóteles ensinava filosofia.
O termo liceu garante uma ligação simbólica aos ideais republicanos que orientam o novo conceito de ensino público e laico, procurando através da instrução técnica, científica e artística renovar a sociedade e garantir o progresso industrial.
A reforma propõe também a instalação dos novos liceus nas capitais de distrito, em edifícios públicos e saudáveis, mas a frágil situação financeira e política de Portugal iria adiar a construção de novos edifícios. Em Coimbra, o liceu foi instalado numa primeira fase, em 1840, no Colégio das Artes e numa segunda fase, em 1870, no Colégio de S. Bento. Ambas as localizações se deveram à proximidade com a Universidade, em especial com o Laboratório Chymico e com o Jardim Botânico que garantiam o estudo das novas disciplinas - Botânica, Química, Física, Mineralogia e a Zoologia.

Em 1914, o Liceu Central de Coimbra passa a denominar-se Liceu José Falcão, mas permanece instalado no Colégio de S. Bento, onde vai, a partir de 1928, partilhar as instalações com o novo Liceu Dr. Júlio Henriques. O edifício para a instalação deste novo liceu será construído na sequência de um conjunto de iniciativas desencadeadas, também em 1928, pelo ministro da Instrução Pública, o engenheiro Duarte Pacheco, e que se formalizaram com a actividade da Junta Administrativa do Empréstimo para o Ensino Secundário. Será esta instituição, reforçada posteriormente pelo ministro Gustavo Cordeiro Ramos, que define a possibilidade de abrir concursos para os projectos dos novos liceus, nomeadamente para liceus nacionais de Beja, Lamego e Coimbra, em 1930 e, no ano seguinte, para o liceu feminino de Coimbra. As Condições Especiais para a Construção de Liceus definidas pela Junta têm como base a experiência adquirida com os liceus da República e funcionam como programas-tipo, garantindo que as propostas apresentadas respondam às exigências pedagógicas, higiénicas e construtivas do liceu moderno; de facto, estes programas constituem uma das condições da sua própria modernidade.

O concurso público de arquitectura para o Liceu Nacional Dr. Júlio Henriques é ganho pela equipa Carlos Ramos, Jorge Segurado e Adelino Nunes com a divisa Santa Cruz, ficando em segundo classificado, o projecto Labor de Luis Cristino da Silva. Na equipa de projectistas consta ainda a colaboração, no projecto de estruturas, do engenheiro Bellard da Fonseca.

O edifício é construído entre 1931 e 1936 segundo os critérios expressos na memória descritiva do projecto: “Tratando-se de um edifício novo a construir num bairro de recente formação, a expressão simplesmente racional que se imprimiu ao edifício é de certo a que mais naturalmente se impõe tanto mais que ela implica uma grande economia, absolutamente dentro do programa estabelecido pois toda a concepção do projecto obedeceu a esse princípio fundamental”. Deste modo, os arquitectos afirmam a sua adesão aos ideais da Arquitectura Moderna que estruturam a sua proposta, a racionalidade e a economia, acompanhando os modelos internacionais, como a Bauhaus de Walter Gropius (1925) ou a escola Karl Marx (1930-36) de André Lurçat e as experiências nacionais, como o Liceu Filipa de Lencastre (1929) também de Carlos Ramos ou os liceus da República de Miguel Ventura Terra em Lisboa e de José Marques da Silva no Porto.

O projecto Santa Cruz propõe uma composição por associação de três blocos autónomos articulados por galerias e assentes num embasamento que regulariza os espaços abertos do recreio, definindo o bloco principal através de um corpo rectangular encostado à avenida Afonso Henriques com um pátio interior e com um corpo cilíndrico que desenha a esquina e a entrada do edifício. Neste bloco são distribuídas as salas de aula, segundo a orientação solar, onde se organizam o ensino das Humanidades e o ensino das Ciências. O grande pátio central foi destinado também ao ensino estando projectada uma estufa, um aquário e um jardim botânico com o desenho “pedagógico” do império português.
O bloco da Educação Física está ligado ao bloco principal através de uma galeria, tendo também uma entrada autónoma que permite servir a cidade, de acordo com uma exigência das Condições Especiais do concurso. O bloco da Casa do Reitor, adaptado em 1942 à delegação da Mocidade Portuguesa, equilibra volumetricamente o conjunto e está articulado com o bloco principal também por uma galeria.

Os três corpos, sem ornamentação, são a expressão das novas técnicas construtivas que conciliam a estrutura de betão, a parede de alvenaria rebocada, a cobertura plana e as caixilharias de madeira e de ferro. Estas caixilharias resolvem os sistemas de ventilação, criam diversas transparências e afirmam a horizontalidade do conjunto. Por oposição, os volumes verticais da fachada principal conferem um carácter monumental e público ao liceu.

O edifício é inaugurado, em 1936, para acolher as 16 turmas do novo liceu nacional, mas logo em 1938 decide-se ampliar o edifício, de modo a acolher também o Liceu José Falcão. O nome dos dois patronos republicanos seria assim substituído pelo responsável pela introdução do ensino secundário em Coimbra, D. João III.
O Plano de 1938 proposto pela Junta das Construções Escolares para o Ensino Técnico e Secundário vai ampliar as alas sul e poente do bloco principal em mais um piso, levando Jorge Segurado e Adelino Nunes a abandonar o projecto, afirmando que: “Não é possível resistir a tantas alterações”. Este plano define também que o liceu feminino Infanta D. Maria não seria construído na Quinta da Rainha, mas sim noCalhabé, de modo a dar lugar ao Centro Materno Infantil de Bissaia Barreto, também projectado por Carlos Ramos. Esta alteração inviabilizou o projecto vencedor do concurso de Cristino da Silva e também o projecto para uma espécie de “praça dos liceus” proposto por Carlos Ramos, que poderia ter qualificado a vivência do espaço público entre os dois liceus.

O liceu masculino retomaria o nome de José Falcão em 1974, começando com a democracia a sofrer diversas alterações: a piscina foi transformada em auditório; um pré-fabricado destruiu o espaço exterior entre o Pavilhão e a Casa do Reitor; a cobertura plana é substituída por uma cobertura em chapa de duas águas e as caixilharias de madeira e ferro são substituídas por uma caixilharia de alumínio de desenho fraco. A sequência de obras e projectos pontuais tem lentamente danificado com gravidade este exemplo raro do modernismo de Coimbra. Neste sentido, torna-se urgente uma intervenção profunda no edifício da actual Escola Secundária José Falcão que, no entanto, concilie a sua precisão funcional com a sua fragilidade construtiva; paradoxo que decorre da sua própria condição moderna. Por um lado, a arquitectura moderna procura dar uma resposta às necessidades programáticas fazendo a forma seguir a função e, por outro lado, explora os novos sistemas construtivos para dar resposta às necessidades conceptuais – grandes envidraçados, superfícies planas, leveza estrutural, ausência de ornamentação, etc.

Estas condições têm criado algumas dificuldades de “envelhecimento” para estes edifícios que têm dificuldade em integrar as alterações aleatórias decorrentes do quotidiano. A intervenção nos edifícios da arquitectura moderna obriga, assim, a uma consciência rigorosa do edifício e da sua história de modo a estabelecer uma perspectiva de actuação unitária que, dando resposta às novas exigências de programa ou de conforto, não condicione os valores culturais que a modernidade tão dificilmente construiu.


*Darq-FCTUC