Resistência às invasões francesas

A saga do Batalhão Académico de 1808

João Gouveia Monteiro *

Há 200 anos, na Universidade de Coimbra, “os sinos da torre já não chamavam para as aulas mas sim para a guerra, os lentes eram, agora, membros do Estado Maior, os estudantes, soldados de cavalaria, infantaria ou artilharia, os livros e as pastas davam lugar aos cartuchos e patronas, às pistolas e espadas, aos sabres e carabinas” (Maria José Azevedo Santos, apresentação do catálogo da exposição “Batalhão Académico de 1808”, Arquivo da Universidade de Coimbra, Junho de 2008).

Era altura de fechar as sebentas e aderir, de alma e coração, a esse grande movimento político, social e cultural que varreu o reino na sequência da invasão napoleónica, iniciada quando, em finais de 1807, Junot cruzou a raia beirã à cabeça de um exército de 26.500 homens. Desde Maio de 1808, as juntas provinciais, constituídas sob o impulso popular, começaram a mobilizar o reino e garantiram ao exército luso-britânico um aliado imprevisto: um povo em armas, mesmo que estas fossem paus, pedras, gadanhas e outros utensílios de origem doméstica ou agrícola adaptados a uma nova função – chacinar os franceses. Neste clima, que misturava nacionalismo e adesão a ideais da Revolução Francesa, fermentaram os ingredientes que dariam corpo à revolução “vintista” e às suas nobres causas de cidadania e constitucionalismo. Lado a lado, letrados laicos e clérigos, professores e estudantes, militares e civis deram expressão a um patriotismo de raiz local que teria a maior influência nos destinos de uma guerra (a “Guerra Peninsular”) que haveria de se prolongar até 1814.

Única universidade portuguesa de então, Coimbra disse “presente!”. No seu Laboratorio Chimico, sob a direcção do lente Tomás Rodrigues Sobral, se fabricou a pólvora e outras munições de guerra, cujo sabor os franceses haveriam de provar. Após a chegada de patriotas vindos do Porto, seria tomado o Colégio de São Tomás (onde se alojavam os franceses), sendo também descobertos os brasões reais na Câmara Municipal e no Mosteiro de Santa Cruz. O vice-reitor Aragão Trigoso foi designado governador da cidade. Distribuíram-se armas, cortaram-se acessos à cidade, num ápice formou-se um Batalhão Académico impulsionado pelo estudante e sargento de artilharia Bernardo Zagalo.

Em 27 de Junho de 1808, este Batalhão, que incluía centenas de voluntários (incluindo muitos não-estudantes), chegava à Figueira da Foz, após uma caminhada arrebatadora que culminaria na tomada do forte de Santa Catarina. Seguiu-se uma marcha pelas margens do Mondego, recuperando terreno ao inimigo, permitindo o desembarque das tropas britânicas na costa de Lavos e preparando as defesas de Coimbra contra as investidas de Loison, o famoso “maneta”.

Organizou-se um corpo militar constituído por seis companhias de infantaria, uma de cavalaria e uma de artilharia, parte do qual seria colocado sob o comando do lente de Matemática, Tristão Álvares da Costa Silveira. Alguns contingentes do memorável Batalhão colaborariam também na expulsão das guarnições francesas que ocupavam os fortes da Nazaré e de Peniche. O resto asseguraria a defesa de Coimbra, sob a orientação de José Bonifácio de Andrada e Silva (um brasileiro que seria mais tarde “o patriarca da independência” do seu país).

Participação na reconquista do Porto

Em Maio de 1809, o Batalhão Académico participaria ainda na reconquista da cidade do Porto, tomada pelas tropas de Soult durante a 2.ª Invasão Francesa. O mesmo não sucederia já por ocasião da entrada em campo do general Massena, pois o encerramento da Universidade impediria a mobilização do Batalhão, dissolvido por alvará de 15 de Abril de 1811.

Foi também neste ambiente de exaltação, propício à criatividade, que foi composto o primeiro jornal da cidade, A Minerva Lusitana, tendo tido igualmente lugar a edição de obras de propaganda política, publicadas pela Imprensa da Universidade. A insurreição armada tinha assim o seu braço literário, que faria com que dos prelos da Real Imprensa da Universidade saísse, logo em 1808, uma grande quantidade de folhetos, de poemas, de editais e de livros, a par de outras publicações que gravaram a memória desses tempos épicos.

Tudo isto e muito mais quiseram o Exército Português (através da Direcção de História e Cultura Militar, representada pelo major-general Matos Coelho) e a Universidade de Coimbra (através do seu Arquivo, de que é directora a Prof.ª Maria José de Azevedo Santos, e da Comissão Científica do Grupo de História, presidida pela Prof.ª Manuela Tavares Ribeiro) recordar e divulgar, 200 anos depois. Fizeram-no a 5 de Junho de 2008, de manhã, através de um colóquio em que intervieram: primeiro, dois militares, o tenente-coronel Nuno Lemos Pires (que, na comunicação “O enquadramento estratégico para a entrada de Portugal na Guerra Peninsular”, dissecou as causas políticas da estratégia portuguesa de 1808, condicionada pelas necessidades de adaptação às estratégias das potências internacionais dominantes: França e Grã-Bretanha) e o major Abílio Lousada (que, falando sobre “A invasão de Junot e a resistência popular em 1808”, destacou as particularidades da guerra subversiva que a população organizou contra as tropas francesas, tornando num verdadeiro pesadelo a presença de Junot em Portugal); e, depois, duas civis, ambas docentes da Faculdade de Letras, a Prof.ª Ana Cristina Araújo (cuja intervenção “A Legião de Minerva e o Patriotismo Académico. Heróis, factos, ideias e mitos” mostrou como, “os rapazes e os mestres da Academia, movidos pela ideia de liberdade e pela memória heróica dos batalhões que se formaram em França a seguir à tomada da Bastilha, proclamaram a Pátria em perigo e ofereceram o seu talento, generosidade e espírito combativo para a sua defesa”) e a Prof.ª Isabel Vargues (cuja fala versou o tema “Em nome de causas: homens de letras e militares nos batalhões académicos no século  XIX”, destacando a relação entre os acontecimentos de 1808 e a Revolução de 1820, assim como o envolvimento de homens como Herculano ou Garrett na experiência dos batalhões académicos que trataram de “secundar a acção política e militar dos vários governos liberais da monarquia constitucional”).

Da parte da tarde, foi inaugurada no Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC) a exposição “Batalhão Académico de 1808”, que reúne 59 documentos (entre registos, recibos, ofícios, jornais, cartas e até um mapa de Condeixa, incendiada por ordem de Massena, em 1811), para além de valiosas peças de equipamento militar coevo, cedidas pelo Museu Militar de Lisboa e que incluem mosquetes, carabinas, espadas, pistolas, dragonas e mesmo uma pasta de couro para transporte de correspondência. Esta bela exposição, na linha das muitas que o AUC nos tem oferecido, dispõe de um rico e cuidado catálogo (que inclui os resumos das intervenções do colóquio e que conta com a assinatura do designer Antero Ferreira), deverá estar patente até 31 de Outubro.

* Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra



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