Para lá da beleza

A recuperação da Casa das Caldeiras

Ana Vaz Milheiro

Talvez a antiga Casa das Caldeiras não seja dos mais belos edifícios onde o arquitecto João Mendes Ribeiro interveio. Mas a beleza nem sempre é oportuna. Realizada em parceria com Cristina Guedes, a intervenção na Casa das Caldeiras (ou Central Térmica dos Hospitais da Universidade de Coimbra) é, todavia, um notável exemplo de recuperação do património industrial, cuja complexidade reside, exactamente, na excessiva especialização que caracteriza, normalmente, os edifícios industriais. Localizada na Rua Padre António Vieira, entre a sede da Associação Académica e a Alta de Coimbra, a Casa tem, ainda, a particularidade de se situar num lugar sensível da cidade, funcionando como elemento de “transição” entre a modernidade do edifício da Associação (Alberto José Pessoa, com João Abel Manta, 1958) e a monumentalidade histórica dos colégios das Artes e dos Jerónimos. O projecto insere-se no Plano de Pormenor para a Alta de Coimbra, do arquitecto Gonçalo Byrne.

Se, no âmbito da arqueologia industrial, a Casa das Caldeiras tinha já conquistado um estatuto patrimonial, na perspectiva da qualidade arquitectónica, esta poderia não ser tão visível para o público, colocando dúvidas quanto à decisão de a manter. Todavia, a sua configuração pavilhonar, de forte carácter utilitário, revelava uma escala que, potencialmente, acertava com a envolvente, condição que os arquitectos interpretaram nas suas propostas. Apresentava, também, uma dificuldade que seria fundamental para o novo projecto: a maquinaria industrial — que detinha o maior valor patrimonial do conjunto — inviabilizava o uso interior do edifício preexistente, independentemente do seu destino, obrigando à construção de uma nova estrutura, que se tornou num dos elementos caracterizadores da proposta.

Um projecto que vem de 91

O projecto iniciou-se em 1991, tendo adquirido uma forma mais próxima da actual oito anos depois. Começou por se destinar a Centro de Artes Visuais, posteriormente instalado no Pátio da Inquisição, cujo projecto de recuperação foi, igualmente, da responsabilidade de João Mendes Ribeiro (1997-2003).

O edifício encontrou então uma nova função, tornando-se sede do Curso de Estudos Artísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Esta alteração dos conteúdos programáticos, embora significativa, permitiu comprovar um dos aspectos centrais dos actuais debates arquitectónicos e que, muitas vezes, os arquitectos têm dificuldade em fazer “sair” para fora do seu círculo profissional. Trata-se da velha questão da adequação funcional de qualquer edifício ao seu programa utilitário. Há já algum tempo que os arquitectos reclamam que a qualidade da arquitectura não está somente nessa adequação funcional, mas é um “princípio” em si; ou seja, depende exclusivamente do desenho e da sua concretização.

Para lá de ser um projecto seguro no domínio da reabilitação, a actual Casa das Caldeiras pode muito bem ser mais um argumento significativo nesta discussão. Há, ainda, o mérito da Universidade, que, reconhecendo a qualidade do projecto inicial, optou por levá-lo até ao fim.
Inicialmente, tratava-se de uma estrutura com finalidades expositivas, a que se juntava a produção artística no âmbito da fotografia. O projecto concentrava-se, naturalmente, na criação de espaços generosos e percursos expositivos, a que se contrapunha a existência de compartimentos de menores dimensões, destinados a laboratórios de criação fotográfica.
A mudança para uso do Curso dos Estudos Artísticos acabaria por não interferir demasiado nesta organização.

“Verticalizar” o conjunto

Por uma questão de conveniência programática, e face ao existente, os autores optaram por “verticalizar” o conjunto. A partir da estrutura preexistente — mais precisamente, da antiga sala de carvão —, ergueram assim um volume paralelepípedo em betão, que acerta com a altura da chaminé industrial e, simultaneamente, com a largura da Casa das Caldeiras.
Adquirindo um estatuto de torre, torna-se o elemento que “faltava” na construção de uma relação mais gradual entre o nível da rua de implantação e a Alta de Coimbra.

Esta “torre” adossada à encosta permite, ainda, associar o conjunto a uma situação de maior urbanidade, circunstância reforçada pelo troço de rua aberto entre a Casa das Caldeiras e a Associação Académica. Como marca dominante da intervenção sobressai um forte carácter abstracto, conferido pelo contraste entre elementos e materiais: a plataforma revestida a pedra, onde assenta o pavilhão da Casa das Caldeiras;
a torre de betão, com as janelas superiores abertas sobre a cidade; a chaminé de tijolo de burro; os muros que delimitam a rua. Este facto também lhe permite não “ferir” o “excesso de temporalidade” que se manifesta nas construções vizinhas.

A aparência abstracta do edifício, contudo, não omite um certo gosto pelo trabalho artesanal que caracteriza outros edifícios de João Mendes Ribeiro. E como tem acontecido em obras suas de recuperação — caso do Laboratório Chímico da Universidade de Coimbra (2001-2006), por exemplo —, a intervenção no preexistente constrói-se no sentido da clarificação dos vestígios arqueológicos e arquitectónicos anteriores.

Trata-se de um processo que atravessa tanto o desenho como a construção de projectos similares, o Pátio da Inquisição ou o Laboratório Chímico, beneficiando de toda essa aprendizagem. E se João Mendes Ribeiro é um arquitecto de edifícios belos, como se disse antes, agora fá-lo com uma naturalidade que talvez não seja tão evidente em obras anteriores. Essa é a principal qualidade da Casa das Caldeiras.