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A quarta missão

Fernando Seabra Santos *


Todas as actividades tradicionais de uma Universidade, que se inserem no âmbito de uma das suas três missões clássicas, a formação, a investigação científica e a inovação, podem ser complementadas com vantagem,por recurso à colaboração universitária internacional.Mas, pelo menos numa Universidade como a nossa, a internacionalização tem ainda uma outra dimensão, tão importante que a está a fazer assumir-se, verdadeiramente, como a sua quarta missão. Assim como hoje aceitamos valorizar uma Universidade em função da qualidade da formação que ministra, ou da profundidade e impacto da investigação que desenvolve, ou dos índices de desempenho que ostenta nas suas actividades de inovação, penso não ser necessário muito tempo para vermos emergir, em complemento dos anteriores, um novo padrão de referência que terá que ver com a capacidade de definir e concretizar uma agenda de diplomacia cultural autónoma.

Vem nesta linha a criação recente, em Belo Horizonte, no Brasil, de uma sede local do Centro de Estudos Sociais denominada CES – América Latina e de uma outra em Lisboa denominada CES – Lisboa. Ainda a intenção, a concretizar em breve, já com escritura pública e órgãos sociais constituídos, de uma outra experiência idêntica do CES no Maputo, em Moçambique, denominada CES – Aquino de Bragança. Igualmente
em perspectiva se encontra o CES – Ásia, a instalar provavelmente em Goa. Para além de nos tornar a todos menos provincianos e menos autocentrados, menos deslumbrados pelo brilho do nosso sucesso local, esta prática abre ainda as portas a um novo, riquíssimo e praticamente inesgotável campo de oportunidades.

Atente-se, por exemplo, no significado de ter à volta de uma mesma mesa, a participar em actividades conjuntas de docência ou de investigação no âmbito da Comunidade de Universidades do Mediterrâneo, membros de Universidades de todos os países da Bacia do Mediterrâneo. Compreenda-se que, mesmo quando os seus Governos se antagonizam ou os seus exércitos se combatem, os universitários têm tendência para olhar o mundo com olhos de compreensão e de diálogo, distanciando-se das coisas pequenas, como o astronauta que, a trezentos quilómetros de distância, não pode deixar de desvalorizar os conflitos entre os povos ao compreender que o mundo é uno, único, e que todas as fronteiras são artificiais.

Veja-se a importância de juntar num mesmo colóquio científico representantes de cerca de três dezenas de países da Europa, Ásia, África e América detentores de património edificado de origem ou influência portuguesa e de criar a Rede Mundial de Bens de Origem ou Influência Portuguesa e note-se que a Universidade de Coimbra foi capaz de fazer neste contexto, em colaboração com o IGESPAR, com o ICOMOS e com a Comissão Nacional da UNESCO, o que nenhum governante de nenhum governo pôde realizar.

Mas a iniciativa de maior ambição e potencialidade em que a Universidade de Coimbra se envolveu recentemente, e liderou, foi, sem dúvida, a criação do Grupo de Coimbra de Universidades Brasileiras agrupando em torno de um nome que todas consideram referencial, as cinquenta mais importantes Universidades do Brasil, representando no seu conjunto 98% de todos os programas de pós-graduação acreditados pela CAPES e 94% de todos os centros de investigação científica credenciados daquele país. A compreensão desta realidade, a apetência crescente do Brasil pela Europa e da Europa pelo Brasil, e o incontestável prestígio internacional da Universidade de Coimbra permitiram-nos montar uma estratégia de colaboração entre os dois grupos que tomam o nosso nome, o europeu e o brasileiro, e que afirma indiscutivelmente a nossa Universidade como pilar e referência de uma ponte transatlântica da qual pode beneficiar enormemente, não apenas no plano intangível mas também no plano material.

E assim, 2010 será na Universidade de Coimbra o ano de início de um ambicioso programa de intercâmbio universitário entre o Brasil e a Europa, autêntico terramoto universitário com epicentro em Coimbra, tanto ao nível da graduação, nomeadamente na área da formação de professores, como da pós-graduação e do doutoramento.

Paço das Escolas, 5 de Janeiro de 2010

* Reitor da Universidade de Coimbra