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A resposta da Universidade de Coimbra à pandemia de gripe

Saraiva da Cunha *


Nos últimos meses o léxico português foi inundado de palavras até então praticamente desconhecidas, ou raras vezes pronunciadas, pelo comum dos cidadãos: influenza, H1N1, pandemia, contingência, gripe sazonal, gripe A, zaragatoa, Tamiflu ®, adjuvantes, para citar apenas algumas. Naturalmente, muitas citações enfermaram de enorme subjectividade, outras de erros grosseiros, que semeadas no campo fértil da iliteracia em saúde da nossa população (incluindo muitos jornalistas), têm alimentado a enorme controvérsia que rodeia a pandemia de gripe A (H1N1) 2009.

Os primeiros doentes foram identificados em Março de 2009, no México e nos Estados Unidos da América (EUA). Logo no mês de Abril foi isolado o vírus responsável por estes casos, um novo vírus da gripe, que veio a ser designado por vírus A(H1N1)v, para o destrinçar dum outro já anteriormente em circulação cuja filogenia remonta à pandemia de gripe “espanhola” de 1918. No dia 29 de Abril a Organização Mundial de Saúde elevou o nível de alerta pandémico para o grau 5, para pouco tempo depois, no dia 11 de Junho, decretar o estado de pandemia (nível 6). O mundo nunca tinha assistido a uma disseminação global de um novo vírus da gripe em tão curto espaço de tempo - dois meses.

Em Portugal o impacto da pandemia só se começou verdadeiramente a sentir no mês de Agosto, na sequência dos intensos fluxos populacionais característicos das férias de Verão. Terminado este tempo de lazer aproximava-se outro acontecimento com enorme potencial para alimentar a progressão da pandemia: a reabertura do ano escolar, com a afluência de milhares de alunos às escolas de todo o país. Felizmente, o nosso posicionamento geográfico e o longo Verão trocaram as voltas ao vírus, dificultando a sua progressão. Passado um período de alguma bonança, eis que o número de infecções aumentou vertiginosamente nas primeiras semanas de Novembro, coincidindo com a chegada de condições climatéricas mais adversas. Estamos hoje em plena progressão da “onda pandémica”, sem que se possa ainda, com certeza, dizer quanto tempo ela vai durar e que nível de intensidade vai ter.

A Universidade de Coimbra atempadamente iniciou a sua preparação para mitigar o impacto da pandemia no seu normal funcionamento. O Senhor Reitor entendeu nomear um Pró-reitor para coordenar a elaboração de um plano de contingência para a pandemia de gripe, atitude que julgamos inovadora no panorama do ensino superior em Portugal. Constituído um grupo de trabalho, designado Grupo de Acompanhamento da Pandemia de Gripe na Universidade de Coimbra (GAPG-UC), deu-se corpo ao plano de contingência, conferindo prioridade à preparação do início do ano académico e à recepção dos novos alunos.
Com a contribuição e o envolvimento dos responsáveis pelos Serviços, foi possível completar um conjunto de documentos orientadores, uns gerais e outros sectoriais, que em conjunto hão-de constituir a essência do plano de contingência.
Tiramos proveito das novas formas de comunicação, privilegiando a internet para divulgar a toda a comunidade universitária os documentos e as orientações que produzimos. Recorremos ao correio electrónico e fomos alimentando com regularidade o sítio web da gripe na Universidade de Coimbra (www.uc.pt/gripe).

Justifica-se tal esforço de organização e de programação?
A Universidade de Coimbra, como outras instituições de ensino superior, congrega um conjunto de factores propícios à fácil disseminação do vírus da gripe: uma população estudantil sem imunidade prévia para o vírus A(H1N1)v, que a actividade lectiva obriga a aglomerar em espaços confinados onde partilha objectos e instrumentos de uso comum; coabitação de estudantes em casas particulares, residências universitárias ou repúblicas; comunidade académica com activo envolvimento social em actividades de índole desportiva, cultural ou de puro entretenimento. Também os colaboradores da Universidade de Coimbra, principalmente aqueles de idade inferior a 55 anos, pelo seu contacto frequente com os alunos podem ser indirectamente tocados por uma eventual disseminação da doença na comunidade estudantil.
Nos Estados Unidos da América (EUA), a American College Health Association promove, desde o passado mês de Agosto, a vigilância periódica dos episódios gripais nos estudantes do ensino superior.

As mais de 900 instituições suas filiadas possuem uma população estudantil de perto de três milhões de indivíduos, quase um terço da população total de Portugal. A taxa de incidência de síndrome gripal nos estudantes do ensino superior dos EUA teve a sua expressão máxima na primeira semana de Novembro, com um valor de 29 casos por cada 10.000 estudantes. Desde então a incidência vem decrescendo de forma sustentada, o que sugere que o “pico” da onda pandémica já foi ultrapassado naquele país.
Em Portugal nenhuma instituição, pública ou privada, promove a vigilância activa dos episódios de gripe nos estudantes do ensino superior. Apenas a Universidade do Porto celebrou um protocolo com uma rede de vigilância da gripe baseada na internet e exercida a título voluntário pelos aderentes que manifestem sintomas da doença, intitulada Gripenet (www.gripenet.pt), que lhe permite monitorizar a existência de casos entre alunos ou colaboradores nos meses de Novembro a Abril, coincidindo com o período da gripe sazonal.
Resta-nos extrapolar para a realidade universitária a informação geral disponibilizada semanalmente pelo Ministério da Saúde e pela Direcção Geral da Saúde.
Se adaptássemos para a nossa população os dados estatísticos provenientes dos EUA, e bem sabemos quão arriscado é este exercício, esperaríamos que adoecessem na Universidade de Coimbra, durante a semana de maior incidência da gripe, cerca de 60 estudantes. Números tranquilizadores, mas que não legitimam o esmorecimento da nossa vigilância.

* Pró-Reitor da Universidade de Coimbra