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Uma exposição e um livro de colorir sobre a Palestina Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra

Nuno Coelho *

Para além da minha actividade como designer, nutro um grande interesse por política internacional,dando especial atenção ao conflito Israel-Palestina. Este interesse é partilhado com Adam Kershaw, um amigo inglês de longa data. Muitas vezes envolvíamo-nos em discussões apaixonadas sobre o assunto, que rapidamente extrapolavam para muitos outros. Todos os acontecimentos neste mundo pareciam interligados através de uma rede densa e complexa, cujo epicentro era exactamente aquela região específica, como se dali se ditasse a constante ordem mundial.
Por essas razões organizámos em conjunto uma viagem, em 2006, a Israel e ao território palestiniano da Cisjordânia. Inscrevemo-nos num programa de voluntariado em Nablus, uma das cidades mais afectadas pela ocupação israelita, onde iríamos permanecer durante um mês a desenvolver actividades para crianças de um dos campos de refugiados da cidade. Esta oportunidade serviu de desculpa para nos permitir um contacto próximo com a complexa situação da região. A nossa percepção do conflito mudou dramaticamente desde o nosso regresso. Aos nossos olhos, o conflito não era tão chocante do ponto de vista armado - praticamente as únicas notícias que chegam até nós - mas sim do ponto de vista social, de como a ocupação israelita influencia negativamente todos os pormenores da vida quotidiana de um comum cidadão palestiniano.

Esse lado do conflito, talvez por lhe faltar um nível extremo de dramatismo, poucas vezes é abordado nos jornais e nos noticiários televisivos. E foi exactamente esse lado social, quotidiano, que tentámos traduzir em ilustrações quando eu e o Adam desenvolvemos a exposição “Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra”. Composta por diversos cartazes de grande formato, com desenhos de contorno a preto-e-branco, a exposição convida os visitantes a preenchê-los com cor usando os diversos lápis dispostos para o efeito. Assim, o que inicialmente eram ilustrações simples e impessoais, tornam-se em obras de arte únicas e “site specific”. Os cartazes mostram diversos mapas e gráficos, assim como desenhos realizados a partir de fotografias recolhidas na nossa viagem à Palestina.

Nesta intervenção, um discurso visual foi gerado em redor das tensões sociais que fazem parte do quotidiano daquela região onde três continentes colidem, e é por nós proposta uma nova abordagem de pensamento sobre o conflito israelo-árabe, assim como um olhar crítico mas também irónico, que poderá mostrar o absurdo da situação presente.
Essa sensação de absurdo é enfatizada ao tratar a actual situação social e política recorrendo a um imaginário e uma linguagem infantil, como se fosse um jogo ou um puzzle. O trabalho realizado vai ao encontro da nossa opinião enquanto autores que acreditamos que, apesar de haver um discurso global sobre a Palestina, poucas pessoas conseguem ver além das imagens e títulos chocantes gerados pelos media e compreender os princípios básicos do conflito.
Para além disso, torna-se importante questionar se poderá um acto artístico conter em si mesmo um relevante significado político sem assumir determinado ponto de vista ou sem aspirar a ser transgressor, subversivo ou activista. Tal como a negação da Filosofia é já em si um acto filosófico, talvez a tentativa de mostrar um trabalho apolítico seja também ela detentora de uma forte posição política.

A primeira apresentação da exposição teve lugar na galeria Fabrica Features em Lisboa em 2007. Desde então, foi apresentada em diversas galerias e instituições culturais, não só portuguesas.

A exposição esteve patente em Berlim (Alemanha), Hobart (Austrália), Barcelona e Valência (Espanha) e, em território nacional, marcou presença nas cidades do Porto, Santa Cruz da Graciosa, Guimarães e, finalmente, Coimbra onde, durante o mês de Outubro de 2009, ocupou as paredes do foyer do Teatro Académico de Gil Vicente.
Durante a mais recente edição da Experimenta Design em Lisboa, lançámos numa edição de autor Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra - Um Livro de Colorir Sobre a Palestina. O livro contém a exposição completa adaptada a “formato de bolso”, assim como novas imagens e desenhos criados propositadamente para o efeito. Foram também incluídos textos meus e do Adam onde expomos todo o processo do desenvolvimento do projecto, assim como a sua contextualização ética, artística e política. Para além disso, não nos interessou que o livro fosse o fim de um ciclo, um mero registo documental, mas sim o início de uma segunda fase. Convidámos, por isso, artistas, curadores, jornalistas, designers, políticos e soció-logos, não só da Palestina e de Israel, para que contribuíssem com textos para a publicação. Para isso procurámos também pessoas cuja opinião não fosse coincidente com a nossa.

Obviamente que não é por falarmos exclusivamente dos efeitos negativos da ocupação israelita na vida quotidiana dos palestinianos que negamos o sofrimento da população civil israelita. Reconhecemos que este mesmo objecto poderia ser realizado tendo como ponto de partida o efeito negativo do conflito na vida quotidiana dos israelitas. Mas foi nossa opção não o fazer. Também não é por termos reduzido o conflito a uma série de ilustrações gráficas “infantis” (e respectivos textos explicativos), que a realidade foi deturpada. Fomos rigorosos, tanto quanto possível, nos dados expostos. Acima de tudo queríamos despertar nas pessoas o interesse por este assunto tendo como ponto de partida a nossa opinião pessoal e isso pensamos ter conseguido.

Por seu lado, o projecto “Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra” não foi criado por termos a opinião de que não há informação suficiente sobre o conflito. Muito pelo contrário. Somos da opinião de que há um excesso de informação disponível, de tal forma que transforma o conflito numa ficção, em algo distante, abstracto e que em nada afecta a nossa vida quotidiana neste extremo da Europa. Ao simplificar a linguagem, ao traduzir em imagens muita da informação que nos chega através dos media, queríamos tornar o assunto acessível a muitas pessoas que sempre acharam o conflito demasiado complexo para ser compreendido. E, apelar ao envolvimento e à intervenção do visitante através do acto de colorir é, em última instância, uma nova forma de tornar o conflito real. “Os artistas, ao contrário dos responsáveis pela governação da sociedade, podem operar num espaço entre narrativas oficiais e não-oficiais. Livres das regras pelas quais os documentos oficiais se devem reger, o uso de documentação por artistas pode alternar de função entre administrativo e pessoal”.

Uma vez que não existe a chamada “imparcialidade”,já que somos sempre fruto da sociedade em que vivemos, não se pode exigir de nós – de mim e do Adam - o rigor que se exige dos políticos ou dos jornalistas pois estes falam em representação de muitos. Qualquer tipo de publicação é um acto democrático, uma vez que se trata da partilha de um gesto pessoal. E este objecto, em forma de exposição e de livro, é um nosso gesto pessoal.

Uma Terra Sem Gente Para Gente Sem Terra – Um Livro de Colorir Sobre a Palestina
Edição de autor de Nuno Coelho e Adam Kershaw
Com colaborações de Alban Biaussat, Alexandra Lucas Coelho, David Tartakover, Ferran Izquierdo Brichs, Ingrid Quiroga, Joana Bértholo, Mat Ward, Maya Pasternak, Ruba Shahrour e Tiny Domingos.
Edição bilingue (inglês/português) 248 pp, caixa de lápis de colorir incluída
ISBN: 978-989-96355-0-0
Mais informações: www.nunocoelho.net

* Professor na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra