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A propósito da Iª Exposição Nacional de Arte Espontânea Criação artística e saúde mental 1

Manuel Viegas Abreu *

Contexto, objectivos e organização

A Iª Exposição Nacional de Arte Espontânea surgiu da intenção de ilustrar e de complementar um dos quatro eixos temáticos do IIº Congresso de Reabilitação e Inclusão em Saúde Mental, que decorreu no Auditório da Universidade de Coimbra (UC) de 12 a 14 de Outubro de 2009. Um dos objectivos principais do referido Congresso consistiu em agregar contributos para um conhecimento mais aprofundado do modelo bio-psico-social da promoção da saúde mental. Propondo que sobre as doenças mentais incida uma visão integrada da complexidade dos seus factores e condições etiológicas, sintomáticas e terapêuticas, os defensores do modelo bio-psico-social procuram que dele decorram aperfeiçoamentos da intervenção prática integrando modalidades terapêuticas de reabilitação psicossocial, de psico-educação e de inserção profissional de pessoas que se confrontam com problemas de saúde mental.

Diversos organismos internacionais influentes na definição das políticas de Saúde Mental têm vindo insistentemente a recomendar a adopção do modelo bio-psico-social, por ser mais abrangente e integrador do que o modelo bio-farmacológico até agora dominante na prática clínica.

No seguimento de uma proposta feita, há alguns anos, por Sílvio Lima (1904-1993), Professor de Psicologia da UC, às três “dimensões” referenciadas – a biológica, a psicológica e a social – deverá ser acrescentada uma quarta dimensão - a dimensão axiológica - respeitante aos valores e desvalores que subjazem a todas as actividades humanas e à sua avaliação.

Valores e  desvalores que estão na base da diferenciação evolutiva do homem relativamente aos restantes animais superiores por intermédio das grandes construções culturais da humanidade: a Ciência, a Política, a Religião e a Arte, centradas respectivamente nos valores da Verdade, do Justo, do Bem e do Belo. Por outro lado, os valores e desvalores da dimensão axiológica são transversais às três outras dimensões, incidindo o processo de valoração sobre cada um dos seus estados, actividades e produções.

Na perspectiva integradora do modelo bio-psico-socio-axiológico, o Congresso procurou promover a articulação dos quatro eixos temáticos: da Biologia (I) à Economia da Saúde (II), e da Inserção no Trabalho (III) à Criação Artística (IV). Foi no quadro deste último eixo - a Criação Artística - que se considerou fazer sentido organizar uma exposição composta prioritariamente por obras de pintura e escultura de pessoas com problemas de saúde mental e que tivesse por tema orientador o persistente diálogo entre Emoções e Razão na criação da Arte.

Patente ao público no Convento de São Francisco em Coimbra, de 12 a 31 de Outubro de 2009, e tendo como Comissária Ana Alcoforado, Directora do Museu Nacional Machado de Castro, a Iª Exposição Nacional de Arte Espontânea contou com a colaboração de 38 participantes que apresentaram 54 obras de pintura, desenho, fotografia e escultura. Dois dos participantes apresentaram-se com obras da sua colecção particular e os restantes com obras realizadas em actividades de terapia ocupacional em 14 instituições de cuidados clínicos localizadas em diversos pontos do território nacional, da Madeira ao Minho e do Minho ao Algarve, o que assegurou à exposição um carácter verdadeiramente nacional.

Iniciativa inédita no nosso país, a Iª Exposição Nacional de Arte Espontânea teve o apoio do Instituto de Psicologia Cognitiva, Desenvolvimento Vocacional e Social da UC, da Empresa Turismo de Coimbra, da Companhia de Transportes Aéreos Portugueses (TAP) e da ReCriar Caminhos, Associação de Apoio ao Desenvolvimento Vocacional, Formação e Inclusão de Pessoas com Esquizofrenia. Ao valor cultural das obras expostas acrescentou-se o valor humano de promoção e valorização das pessoas que as criaram e que aceitaram participar numa realização de inclusão social de dimensão inovadora em Portugal.

“Arte pura”, “Arte em bruto” ou “Arte espontânea”?

As pessoas que se confrontam com problemas de saúde mental manifestam, em número considerável, talentos, aptidões e gosto pela realização de trabalhos no campo genérico das “artes” (pintura, escultura, fotografia, música e poesia). No caso da presente mostra, um número significativo dos trabalhos expostos alcança níveis apreciáveis de qualidade estética. Uns mais do que outros, sem dúvida. Mas a qualidade estética revelada deve ser tanto mais reconhecida e apreciada quanto é certo que a maioria desses trabalhos foram realizados no âmbito de actividades de terapia ocupacional e de reabilitação, sem que a forma da expressão de emoções, sentimentos e vivências muito pessoais obedecesse a códigos ou a normas estéticas aprendidas em escolas de formação artística ou em convívio com mestres conceituados.

Por ausência de “oficina” ou de “cânones técnicos de escola” têm sido atribuídas designações muito diversas aos trabalhos realizados em condições similares: “arte além da Razão” (Hans Prinzhorn), “arte em bruto” ou “arte bruta” (Jean Dubuffet), “arte espontânea” e “arte de imagens do inconsciente” (Nise da Silveira), “arte virgem”, “pura arte” (Juan Mons Revilla) ou “arte pura” (Jesus De La Gândara).

Estando ainda longe de se chegar a consenso, a designação de “arte espontânea” foi aqui escolhida para identificar as produções realizadas por pessoas com problemas de saúde mental por ser ela a que melhor sublinha a característica comum de constituí-rem expressões de emoções, sentimentos e vivências pessoais que utilizam técnicas de produção libertas de artifícios, de modas ou de constrangimentos académicos, emergindo de um “potencial espontâneo de criatividade”.

Relações entre Criação Artística e Saúde Mental

A compreensão das relações entre saúde mental e criatividade, designadamente a criatividade dos artistas – e, de certo modo, também a de grandes cientistas – conheceu no século passado avanços significativos, designadamente a partir dos estudos de Freud sobre os processos de elaboração simbólica do inconsciente, de Ribot sobre a imaginação criadora e de Prinzhorn sobre as potencialidades terapêuticas do acto criador.

Pelas subtilezas da sua sensibilidade, pelo modo especial como vêem o mundo e como exprimem as vivências que o mundo lhes suscita ou ainda pela riqueza inquietante da sua imaginação criadora, os artistas são frequentemente considerados como pessoas diferentes das pessoas “normais”. E a diferença sempre causou estranheza. Daqui que os artistas sejam vistos como pessoas invulgares, próximas dos génios ou dos doentes mentais, que uma terminologia em desuso apelidava de loucos.

Por outro lado, são conhecidos os casos de grandes criadores em diversas modalidades de expressão artística que sofreram de perturbações psicológicas graves, e cujas obras têm a “marca” da patologia que os atingiu. Basta lembrar Schumann na música, Antero de Quental e Mário de Sá-Carneiro na literatura, e Van Gogh na pintura. Entre a predisposição para a criação artística e a predisposição para certas formas de doença mental, alguma “zona de proximidade” ou de “confluência” é suposto existir, embora seja ainda insuficientemente esclarecida. É verosímil que, envolta no fundo caótico das emoções, a busca de uma modalidade de expressão comunicativa gere nalguns artistas uma tensão emocional dificilmente regulável pela Razão.

Ao aconselhar os candidatos a poetas a Transformar a Dor num Poema, Goethe, um dos expoentes máximos da poesia alemã, considerou que a dor ou o sofrimento psíquico pode constituir fonte de criação artística por intermédio de um processo de transformação de um feixe de emoções negativas numa produção que simbolicamente as transmude numa nova configuração de emoções positivas. Configuração de emoções positivas que é apreciada não apenas pelo autor, mas também por quem ouve ou observa a nova obra de arte. O processo de criação artística terá por via desta elaboração simbólica um poder reparador, uma força regeneradora ou uma capacidade curativa. A elaboração simbólica das emoções constitui o “processo – chave” pelo qual a Razão as ilumina, dando-lhes um outro sentido e permitindo, assim, um distanciamento superador e uma convivência mais salutar entre Emoções e Razão.

O poder de transformação da dor, do sofrimento psíquico, da tensão ou do conflito num estado de superação ou de libertação emocional, por intermédio da elaboração simbólica que toda a obra de arte, em maior ou menor grau, comporta, é próximo do processo psicológico que Aristóteles designou por catarse, referindo-se à “purificação” emocional que é frequentemente testemunhada por quem assiste à representação das grandes tragédias gregas, as quais, na continuidade de certas narrativas míticas, se reportam às condições universais, agónicas e simultaneamente esperançosas da existência humana.

Tendo a sua raiz na fragilidade da condição humana e na necessidade da sua superação, a Arte constitui “sinal de insatisfação” e simultaneamente “sinal de perfectibilidade” do Homem, desejo e vontade de aperfeiçoar defeitos e de transcender limitações. Na universalidade e nas singularidades pessoais das suas manifestações, a Arte convida-nos não apenas à admiração e contemplação estética, mas sobretudo a uma vivência diferente das situações reais, lançando-nos um apelo, simultaneamente emocional e racional, a uma reconversão do olhar, a uma alteração do modo de ver e de valorizar o Mundo, o Homem e a Vida.

É por este apelo à mudança e à renovação da Vida que a Arte é cada vez mais indispensável ao desenvolvimento pessoal e cultural do Homem.

1) Com breves desenvolvimentos de conteúdo e aperfeiçoamentos de natureza formal, o presente texto reproduz a Apresentação do Catálogo da Iª Exposição Nacional de Arte Espontânea.


* Professor Aposentado da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra