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Em torno da figura de João de Ruão Joã de Ruã archyteto

Carlos Ruão *

Ninguém marcou com maior fulgor o Renascimento em Coimbra como João de Ruão (1500-1580). O seu lugar no panteão da Escultura em Portugal é inquestionável e a sua arte e oficina fixaram um estilo escultórico e ornamental inconfundível e identificável em toda a região durante mais de um século posterior à sua morte. Não obstante, reduzir Ruão a um brilhante mestre imaginário é uma visão limitada do seu papel como artista moderno consciente dos valores artísticos do seu tempo. São conhecidas as referências documentais ao mestre como “archyteto” mas mais relevante do que esse pioneirismo no uso da nomenclatura, quando confrontados com a obra que tomou a seu cargo, facilmente se demonstra que o seu espectro artístico foi bem mais abrangente.

Atentemos, em primeira instância, à sua especialização como arquitecto de retábulos, noção essencial para uma percepção mais alargada da sua mais valia arquitectónica. Não obstante a sua qualidade no esculpir imagens de vulto redondo e em relevo, os seus espectaculares cenários retabulares foram a sua imagem de marca, criando tipologias repetidas por discípulos e mestres que contactaram, directa e indirectamente, com a sua oficina. Ruão sintetiza em estruturas monumentais, primeiro na Sé da Guarda e depois na Capela do Santíssimo Sacramento da Sé Velha de Coimbra (foto) toda a sua obra artística – escultórica e arquitectónica. A dicotomia entre a Arquitectura e a Escultura é uma constante nas obras máximas do mestre normando, mas não devemos entender as suas estruturas cenográficas, pensadas como se funcionassem como um palco para a imaginária, fora do seu esqueleto arquitectónico. Obra máxima da sua carreira como escultor e arquitecto, a Capela do Santíssimo Sacramento da Sé Velha (1566) é acima de tudo uma obra de arquitectura para a qual Ruão projectou um semi-círculo alongado, corpo altimétrico suportando a estrutura retabular de dois registos e cúpula hemisférica coroada por lanternim. O exterior revela de forma clara o corpo circular da capela e a sua estrutura arquitectónica.

Alinhado com a cultura humanista da época, João de Ruão foi, como poucos, um cultor vanguardista da planta centralizada, símbolo da perfeição para o Alto Renascimento – o círculo como formalismo puro e universal. Obra-prima da designada primeira fase da sua obra, o Templete do Claustro da Manga de Santa Cruz de Coimbra, edificado na década de 30, é uma verdadeira pérola do renascimento português, desenho em tudo original e acerca do qual ainda hoje se tenta encontrar o modelo directo de inspiração – sendo que o seu significado poderá passar por uma fons vitae pétrea. O projecto é de uma harmonia planimétrica única com templete central com colunas coríntias de fuste liso unido por arcos botantes de sabor medievo a quatro capelas oratórias.

Na mesma década, e também para Santa Cruz de Coimbra, projectará o Convento de São Salvador da Serra do Pilar, em Gaia, obra iniciada por Ruão e Diogo de Castilho em 1537. Mesmo sabendo que a actual igreja é de construção posterior – sendo que o claustro foi edificado segundo o risco original – a existência de um projecto primitivo que comportava uma dupla-rotunda foi certamente devedor à escola coimbrã, sendo Ruão o único com antecedentes e precedentes tipológico-arquitectónicos na sua biografia. Nesta linha de pensamento, o seu nome é hipótese primeira para a autoria da Capela dos Reis Magos do Mosteiro de São Marcos (1574). Se tomarmos a execução material do desenho arquitectónico, uma vez mais estamos na presença de uma planta centralizada, quadrangular, rematada por cúpula hemisférica suportada por triângulos esféricos e por uma altimetria e ornamentação bem dentro dos cânones ruanescos.

Por último, refira-se ainda que grande parte da documentação conhecida o relaciona com projectos arquitectónicos em muitos dos quais se destaca como projectista. Em jeito de breve mas substantiva súmula tome-se em linha de conta os seguintes exemplos: com a data de 1528, o Portal da Igreja da Atalaia é a sua primeira obra no nosso país, trabalho magnífico inspirado nos modelos antigos dos arcos triunfais romanos e do qual o primeiro registo da Porta Especiosa da Sé Velha de Coimbra (1530) será uma réplica mais elaborada deste modelo. No que respeita à Porta Especiosa, a opinião da historiografia artística portuguesa parece ser consensual no atribuir a mestre Ruão o desenho que revela a sua marca e engenho, representando em pedra calcária uma estrutura arquitectónica e cenográfica inspirada na arquitectura efémera. A Capela do Santíssimo Sacramento da Igreja Paroquial de Cantanhede – onde Ruão se encontra documentado a 1542 – denota em toda a sua extensão a mão e qualidade do mestre francês e sua oficina. Pela documentação de 1546 e 1549 não restam dúvidas que o projecto inicial da Misericórdia de Coimbra, sita originalmente na baixa da cidade, foi igualmente de sua autoria, incorporando a obra intestina da capela, a parafernália retabular (1557) e a célebre varãda ou loggia, que se pode contemplar numa gravura impressa em Colónia em 1572. A documentação referente ao Colégio das Artes, reformulado a partir de 1548, é igualmente taxativa e identifica o debuxo de Ruão, incorporando duas varandas ou câmaras sobrepostas que organizavam todo o espaço arquitetónico interior.

O longo e acidentado trabalho na Igreja do Salvador de Bouças, em Matosinhos, através dos contratos assinados com a Universidade de Coimbra, projecto de reconstrução iniciado em 1559 e concluído pelo discípulo Tomé Velho (1579), apesar da profunda reforma posterior, revela ainda visível a estrutura da arcaria jónica das naves no interior do templo, claramente identificável com a escola ruanesca.

O mesmo se passa com a Capela do Tesoureiro de São Domingos de Coimbra, edificada depois de 1558 e acerca da qual existem pagamentos ao mestre em 1565 no que respeita à capela e retábulo. O Hospital Real de Coimbra, fundado em tempos de D. Manuel foi, segundo contrato de 1567 celebrado com Bernardim Frade e António Fernandes, realizado segundo a traca e debuxo que pera isso fez Juam de Ruam e onde a estrutura original, apesar de muito modificada, ainda se pode observar na Praça Velha, com andar térreo com arcaria e colunas dóricas e um andar nobre com sacadas, algumas delas já do século XVII. De alguma maneira simbólica é, nesta circunstância, e segundo documento revelado recentemente por António Filipe Pimentel, a trasa e debuxo que fez Jº de Ruão para a edificação da Torre da Universidade de Coimbra (1561), modelo anterior a esse verdadeiro ex-libris da casa da sabedoria da cidade.

João de Ruão foi um dos primeiros mestres portugueses a representar, mais ou menos fielmente, aquilo que se designa historiograficamente por artista-arquitecto. Não foi apenas um brilhante modelador de esculturas em calcário ou um hábil mestre de oficina. Artista do seu tempo, multi-facetado e multi-disciplinar, conseguiu emular os grandes mestres renascentistas europeus que tanto debuxavam micro-arquitecturas em estruturas retabulares como projectavam edifícios inteiros, consciente que na essência da sua arte estava a eterna lei do debuxo.

*Doutorado em História da Arte pela Universidade de Coimbra