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O centenário Edifício do Chiado 1910, os Grandes Armazéns do Chiado em Coimbra

Raquel Magalhães *

Durante a primeira década do século XX os Grandes Armazéns do Chiado (GAC) lisboetas, pertencentes à empresa Nunes dos Santos e Compª, afirmaram-se como uma das maiores empresas de venda a retalho portuguesas implementada em todo o território. Para além da sede, instalada no edifício do Barão de Barcelinhos, localizado na zona nobre da capital, a Baixa / Chiado, os GAC tinham, em 1910, filiais em várias cidades da “província”. As primeiras agências abriram em Coimbra e Porto em 1906.

Em Coimbra, as instalações provisórias localizaram-se na Rua Ferreira Borges, artéria central, onde em 1909 foi adquirido um edifício tendo em vista a sua adaptação para aí estabelecer uma sucursal com a dignidade que a cidade merecia.

Seguindo a divisa “ganhar pouco servindo bem o público”, os GAC vendiam de tudo, evitando o cliente “a maçada de andar de lado para lado” conforme anunciava a publicidade. Inspirados nos modelos parisienses, os GAC alteraram e modernizaram o comércio democratizando o acesso a produtos de moda, generalizando modelos de vestuário e de gosto através da utilização da publicidade e da edição e distribuição de catálogos. Os grandes armazéns faziam saldos, ofereciam brindes, definiam tendências, alternavam colecções consoante as estações e renovavam a decoração das montras. Os produtos tinham preços fixos e mais baratos porque eram adquiridos directamente às fábricas ou produzidos em oficinas próprias. Anualmente, editavam-se agendas de família que forneciam informações abrangentes, desde questões domésticas a legislação, passatempos e até plantas de casas de espectáculo, divulgando também dados relevantes da história da própria empresa e das filiais. Observando a agenda de 1915 – que divulga fotografias do interior e exterior das várias agências do país – podemos concluir que as filiais se instalaram quase todas em edifícios pré-existentes, que mantiveram as suas características exteriores, sendo efectuadas alterações ao nível do interior com o objectivo de abrir espaços amplos para uma melhor exposição dos produtos. Neste sentido foram utilizadas estruturas metálicas em substituição de paredes.

Os edifícios do Porto, Coimbra e Évora terão sofrido alterações mais marcantes ao nível da fachada e mesmo do interior. Relativamente à sucursal do Porto foram abertas montras ao nível do piso térreo, numa perspectiva moderna de expor os produtos e simultaneamente permitir o aproveitamento da luz natural. Relativamente ao seu interior, este era constituído por estruturas metálicas que permitiam espaços amplos e coberturas envidraçadas, cuja inspiração nos grandes armazéns parisienses é evidente, apesar do seu condicionamento à escala do país e da cidade. Coimbra e Évora são dois casos inseparáveis pelas semelhanças que apresentam. Nestes dois edifícios, a empresa desejou deixar bem evidente a marca da sua modernidade. Assemelhavam-se na tipologia dos elementos decorativos e na respectiva utilização do ferro e do vidro na fachada. O edifício de Évora foi destruído em 1952.

Em Coimbra, a inauguração das novas instalações dos Grandes Armazéns do Chiado foi anunciada na imprensa nacional e local, enaltecendo-se a “originalidade da frontaria”, a “iluminação feérica de todo o estabelecimento” a “vastidão das suas montras”, o “arrojo e espírito de iniciativa”, e a “largueza de vista” do seu gerente e proprietários (Defeza, 22 de Abril de 1910). Este acontecimento contou com a presença de várias autoridades e jornalistas, sendo saudados os responsáveis pela “novas e sumptuosas instalações” cuja fachada esteve iluminada durante parte da noite, tocando em frente ao estabelecimento a Filarmónica dos Órfãos (Diário de Notícias, 26 de Abril de 1910).

A empresa estava consciente do impacte que o seu novo edifício teria mas nunca revela, nas várias informações que disponibiliza – quer na imprensa quer nos seus documentos de divulgação (as agendas e catálogos sempre tão completos e informativos) –, a sua autoria ou o responsável pela construção. Parece-nos que esta informação constitui um dado por si só, ou seja, o autor não era conhecido, não representava uma mais valia para a empresa pelo que o que interessava era associar a modernidade do edifício à marca Grandes Armazéns do Chiado.

O projecto do edifício foi localizado recentemente encontrando-se a memória descritiva assinada por A. S. Correia, que pressupomos ser Alberto de Sá Correia, técnico de engenharia (condutor de obras) da Câmara Municipal de Lisboa. Sobre este autor encontramo-nos neste momento a recolher informação, mas sabemos que nasceu em 1874 e morreu em 1937, e trabalhou em conjunto com o Engenheiro Silva Pinto no levantamento da planta da cidade de Lisboa entre 1904 e 1911. Conforme as palavras do próprio autor, as alterações ao edifício pré-existente tinham como objectivo instalar a agência em “(…) edifício apropriado, no qual a par do espaço essencial ao commercio, exista egualmente toda a comodidade para o publico”, sem contudo “(…) descurar a esthetica e apesar das condições económicas a que foi forçoso nos subordinarmos (...)”. Esta alteração uniu o edifício principal às construções anexas nas traseiras, prevendo no espaço do pátio ou saguão central a execução de uma escadaria coberta por uma clarabóia. As duas lojas que existiam no rés-do-chão foram unidas num único piso térreo que integrou também as sobrelojas, permitindo desta forma o aumento do pé direito. Tendo como objectivo a criação de espaços amplos – assim como a rápida adaptação da antiga à nova construção – foram utilizadas estruturas metálicas, pré-fabricadas, que substituíram antigas paredes. As alterações apenas foram efectuadas no piso térreo, ficando quase iguais o primeiro, segundo e terceiro pisos, com excepção da fachada. A renovação da fachada constituiu a grande alteração desta obra e um dos seus principais objectivos. O edifício anterior tratava-se de um tradicional prédio em alvenaria com vãos orlados em cantaria cujo projecto previa que se transformasse numa moderna frontaria com amplas montras no rés-do-chão e os andares superiores revestidos com grelhas preenchidas com pranchas de vidro e varandas decoradas com motivos geométricos e vegetalistas em ferro cujo dinamismo do traço imprimia um certo movimento orgânico Arte Nova. Efectivamente, conferir modernidade e originalidade à fachada era o objectivo fundamental da adaptação, para além da abertura dos já referidos, espaços amplos. A pala decorada com elementos de inspiração Arte Nova convidava os transeuntes a apreciarem as montras abrigados do sol e da chuva.

O projecto inicial sofreu algumas alterações em obra, nomeadamente no interior, onde se optou por construir apenas a escadaria lateral, desistindo-se da central prevista, assim como nos elementos decorativos do exterior, nos quais se verificou uma maior rigidez e estilização dos motivos. Numa primeira fase, o estabelecimento funcionava apenas no piso térreo sendo ampliado para os pisos superiores, em 1921, utilizando-se o mesmo esquema de substituição de paredes por estruturas metálicas.

Enquadrado num contexto de grandes mudanças e novos paradigmas inaugura em Coimbra, em 1910, ano da implantação da República, o primeiro “centro comercial” da cidade que introduziu um novo modelo de consumo, de progresso e modernidade que ficou marcado e materializado na tipologia arquitectónica do Edifício Chiado, no qual se encontra actualmente instalada a colecção de Arte Telo de Morais que integra o Museu Municipal.


* Divisão de Museologia da Câmara Municipal de Coimbra