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Colóquio Internacional República, Universidade e Academia

 Vítor Neto *

O Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS20) leva a efeito nos dias 4, 5 e 6 de Março de 2010, no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra, um Colóquio Internacional sob o tema “República, Universidade e Academia” no âmbito das celebrações do Centenário da República. Este Encontro de historiadores pretende aproveitar o momento histórico para alargar os conhecimentos científicos sobre o tema geral do evento e, ao mesmo tempo, evocar a implantação da República quando passa um século sobre a mudança de regime político em Portugal.

Na verdade, a profunda crise da Monarquia Constitucional e a deserção das elites do regime criaram as condições para a substituição do liberalismo monárquico pela República no dia 5 de Outubro de 1910. Numa Europa dominada pelas monarquias, o pequeno Portugal decidiu acabar com a crise monárquica e inaugurar uma nova fórmula politica. Lembremos que na Europa, apenas a Suíça e França eram Repúblicas. Fruto de um longo processo histórico de gestação e propaganda republicana e de múltiplos erros dos monárquicos, a contestação da esquerda politica desaguou no 5 de Outubro e abriu caminho para a realização de múltiplas reformas económicas, sociais, culturais e mentais que estão no cerne de um novo ciclo histórico que se abriu na vida do nosso país.

E não importa lembrar aqui que nem toda a nação era republicana, que havia regiões vastas marcadas pela monarquia e pela indiferença politica, o que é justo recordar é que a capital do país e o sul apoiaram incondicionalmente a revolução com a esperança da realização de uma efectiva regeneração do país que atravessava um momento de decadência. Ora, a nação aceitou passivamente a revolução. Pois é sobre estes e outros assuntos que trinta e nove investigadores (num total de trinta e seis comunicações) se juntam para analisar e debater essa conjuntura histórica clarificando alguns aspectos mais obscuros e fazendo avançar o conhecimento científico. E como o Colóquio é internacional teremos a presença de sete investigadores de Espanha, França, Itália e Brasil.

Tendo em conta a natureza e os objectivos do evento pretende-se estabelecer uma conexão entre o político (e a política) e a cultura universitária, o novo regime e os movimentos estudantis, a Ciência e a cultura, os movimentos que estiveram na raiz dos progressos científicos e analisar a elite universitária na sua relação com os estudantes. Por outro lado, procurar-se-á confrontar os modelos espanhol, francês, italiano e brasileiro com a especificidade nacional numa visão abrangente e problematizadora. A história comparativa trará certamente uma nova luz ao entendimento da realidade político-cultural do Portugal republicano da segunda década do século XX. Na verdade, as vias do desenvolvimento dos diversos países são sempre particulares e é esse particularismo das realidades nacionais que urge realçar estabelecendo as diferenças e tentando ver as analogias entre as Repúblicas e as Universidades, entre os poderes políticos e as realidades culturais, entre as sociologias universitárias e os seus suportes económicos.

Se bem que não acreditemos que são as ideias que guiam a história, também é certo que o papel das elites universitárias não pode ser diminuído. Por isso, acreditamos que a Universidade de Coimbra, única no país até à emergência da República, funcionou como farol que iluminou o país no sentido de uma mudança revolucionária do paradigma político. É isso que estará também em equação num Colóquio que poderá não trazer muitas certezas, mas que levantará certamente muitos problemas que serão objecto da reflexão e da discussão. Por isso, desejamos que o Encontro seja muito participado, que o debate surja, que as dúvidas sejam esclarecidas.

As comunicações de participantes estrangeiros serão as seguintes: Christophe Charle, Science, République et conflit dês facultés de la troisième à la cinquième république en France; Jaume Claret Miranda falará sobre El sueño de una Universidad republicana, 1931-1939 em Espanha; Isabel Perez sobre La Ciudad Universitária de Madrid, de la Monarquia a la Republica: continuidad y cambio; Ilaria Porciana e Mauro Moretti apresentarão um trabalho conjunto sobre 1911: l’università italiana a cinquenta anni dalla fondazione dello stato nazionale; Luciano Casali, La Universidad de la Republica italiana. Câmbios y continuidad después del fascismo; Ângelo Brigato Ésther, A Universidade brasileira: tensões, contradições e perspectivas em sua trajectória.

No que se refere aos participantes portugueses e suas comunicações serão os seguintes: Luís Reis Torgal, António José de Almeida e a politica republicana sobre a Universidade; Manuel Augusto Rodrigues, A Universidade de Coimbra e a República; Fernando Catroga, A herança dos modelos Oitocentistas de Universidade; Amadeu Carvalho Homem, Um gesto pouco académico: a interpretação do “manguito” no Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro; Norberto Cunha, Biologia, sociedade e politica (dos finais do século XIX ao limiar do século XX); Maria Manuela Tavares Ribeiro, Academia de Coimbra e a política nos meados de Oitocentos, Isabel Vargues, As imagens e os actos da implantação da República na Universidade de Coimbra; Ernesto Castro Leal, Ideias politicas, formas organizativas e lutas estudantis universitárias (1918-1926); Luís Bigotte Chorão, Uma elite da República: os “intransigentes” de 1907; Rui Marcos, A Reforma dos Estudos jurídicos de 1911: Coordenadas científicas e pedagógicas; J. Romero de Magalhães, Leonardo Coimbra e a criação politica da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Vítor Neto, Afonso Costa: entre o republicanismo e os socialismos; Fernando Taveira, Populações estudantis: ensaio de caracterização (1890-1926); Maria de Fátima Nunes, Cientistas em acção: os Congressos Científicos. Participação e organização da comunidade científica. Práticas científicas, culturais e ideológicas (1910-1940); Alfredo Mota, A Medicina na República; Ana Leonor Pereira, Charles Darwin na revolução republicana portuguesa; João Paulo Avelãs Nunes, Ciência e ideologia: a História na FLUC de 1911 a 1933; Sérgio Campos Matos, Conceitos de história no Portugal da 1ª República; João Rui Pita, A reforma (de fundo) republicana dos estudos farmacêuticos; José Morgado Pereira, A recepção das correntes psiquiátricas em Portugal na 1ª República; Manuel Carvalho Prata, A Universidade de Coimbra e os seus professores na literatura memorialista estudantil (1880-1926); Alexandre Ramires, A imagem fotográfica de Professores e Estudantes Republicanos da Universidade de Coimbra; Nuno Rosmaninho, Historiadores de arte na Universidade Republicana; Eugénia Cunha e Manuel Laranjeira, Antropologia e República: o ideal republicano de Bernardino Machado na perspectiva do professor universitário; Salomé Marivoet, Educação Física, Ginástica e Desportos na Primeira República e António Gomes Ferreira, Formar professores para cumprir a educação na República. A ideologia e a acção política.

Resta-me dizer que todas as Faculdades da Universidade de Coimbra terão os seus oradores.

* Coordenador do Colóquio/Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra