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A água na perspectiva das Geociências

O sangue da Terra

 José Manuel Martins de Azevedo *

Apesar de vivermos num planeta apelidado de azul e de apresentar uma superfície ocupada em cerca de 75% por água, constitui uma verdade actualmente adquirida que este singular e incontornável líquido se apresenta como um recurso escasso e que apenas uma reduzida fracção está disponível para os usos antrópicos. Na verdade, estima-se que a quantidade de água doce na Terra corresponde a aproximadamente 3% do volume global, estando 30% desta reduzida fracção armazenada em massas de água subterrâneas – os restantes 70% encontram-se nas calotes polares (68%), nos rios e lagos. No entanto, numa análise a outras escalas, por exemplo ao nível do nosso país, da região centro ou mesmo do município, facilmente verificamos que a água doce se distribui apenas entre as massas de água superficiais e subterrâneas.

Nas regiões desenvolvidas o acesso à água está muito facilitado, uma vez que possuímos “verdadeiras nascentes” dentro das nossas casas, nos locais de trabalho e diversão e, por outro lado, temos disponível uma enorme oferta de águas engarrafadas e um vasto conjunto de actividades que envolvem o uso directo da água (saúde, lazer, desporto, protecção, etc.). Assim, a água, como o ar que respiramos, é um elemento tão presente, acessível e essencial, que normalmente só nos lembramos dele em situações anormais ou extremas, de escassez ou excesso, de falta de qualidade ou de elevado custo.

Constata-se ainda que a larga maioria da população desconhece, totalmente, a origem e os percursos da água que utiliza no dia-a-dia. Em Portugal, continental e insular, bem como na região centro, a água consumida nas actividades domésticas agrícolas e industriais é, em larga percentagem, proveniente da captação de massas hídricas subterrâneas. Em muitas situações, como no caso do município de Coimbra, este valor aproxima-se dos 100%.

Neste cenário, o conhecimento das massas de água subterrâneas e das formações geológicas que as alojam (aquíferos) é seguramente mais do que relevante, devendo mesmo ser obrigatório. A renovação e a exploração sustentada deste recurso, bem como a preservação ambiental, serão tanto melhor conseguidas quanto maior for o conhecimento das massas de água. As Geociências e os investigadores que trabalham neste domínio, nomeadamente os geólogos e os engenheiros geólogos, mais do que competências, têm o dever de contribuir decisivamente para a preservação e a correcta gestão das massas de água subterrâneas.

Na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), em particular no Departamento de Ciências da Terra (DCT) e no Instituto de Geofísica (IGUC), pretende-se, através do ensino e da investigação, disponibilizar à sociedade contributos relevantes e eficazes nos domínios da Hidrogeologia e dos Recursos Hídricos. Actualmente, o estudo das massas de água no domínio das Geociências, tal como acontece no DCT e no IGUC, tem de considerar estas massas, superficiais e subterrâneas, simultaneamente como recurso natural e como componente ambiental e, em determinadas situações, como património natural.

No DCT e no IGUC, a investigação dos aquíferos e das massas de água subterrâneas inclui necessariamente abordagens diversas e complementares. Desde logo, a caracterização geológica e estrutural do “recipiente natural”, ou seja, do meio rochoso. Outra abordagem essencial corresponde à avaliação, discretização e modelação dos sucessivos processos hidrodinâmicos, nomeadamente a “alimentação” da massa de água (recarga aquífera), a circulação e o armazenamento hídrico no meio geológico e, por último, a descarga aquífera, natural ou induzida.

A caracterização hidroquímica, a avaliação da qualidade e a identificação dos processos modeladores do quimismo da água subterrânea constituem outros importantes domínios de investigação.

Os processos de investigação e de ensino neste domínio particular das Geociências (Hidrogeologia e Recursos Hídricos), que incluem obrigatoriamente actividades de campo, laboratoriais, e tratamentos informáticos e cartográficos avançados, decorrem a diversas escalas e desenvolvem-se em locais e enquadramentos geológicos variados.

Presentemente, existe um enfoque particular no estudo das massas de água subterrâneas regionais. Contudo, a investigação conjunta com colegas de outras áreas científicas e/ou de outras escolas tem projectado a hidrogeologia feita no DCT e no IGUC para novos caminhos, como sejam a identificação de potenciais campos hidrogeotérmicos, a avaliação de vulnerabilidades e de riscos associados a massas de água e o desenvolvimento de cenários sobre o futuro da água na Terra, a partir do estudo da água noutros planetas, nomeadamente, em Marte.

A colaboração e o apoio a entidades não-universitárias que, directa ou indirectamente, gerem e exploram massas de água naturais na região centro têm sido uma constante dos investigadores em Hidrogeologia do DCT e têm permitido o desenvolvimento de estudos e relatórios em variados domínios, particularmente na prospecção aquífera, no dimensionamento e na protecção de captações hídricas, na avaliação de impactes ambientais e no ordenamento do território. Por outro lado, o ensino dos processos hidrológicos e hidrogeológicos no DCT extravasa frequentemente as portas da Universidade, procurando outros públicos e pretendendo contribuir para as boas práticas ambientais e de cidadania.

Em última análise, o ensino e a investigação em Hidrogeologia e Recursos Hídricos efectuados na FCTUC pretendem contribuir para que a água, à semelhança do sangue num ser vivo, continue a fluir em quantidade e qualidade através dos solos e das rochas, levando e trazendo os elementos e a energia indispensáveis às actividades antrópicas e à sustentabilidade dos habitats naturais.

* Departamento de Ciências da Terra e Centro de Geofísica da Universidade de Coimbra