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António Olaio

If I wasn’t an artist, what would I be?

Marta Poiares

Para António Olaio, toda a arte parece não ser suficiente. Das múltiplas personae que se entrecruzam na mesma mente e desenham o mesmo corpo, não há uma que se possa destacar. Performer, videasta, pintor, cantautor, professor e curador são as actividades que tem desenvolvido ao longo dos últimos anos: “O que me estimula intelectual e artisticamente é o facto de as coisas não serem estanques, a potencialidade de transbordarem para outras áreas”.

Fisicamente descrito por Kenny Schachter como “um cruzamento entre Kevin Spacey, Elvis Costello e uma pitada de Pee Wee Herman”, o artista plástico António Olaio profere cada palavra com o entusiasmo de quem revê o princípio de si mesmo.

Nascido em Angola, em 1963, vive em Coimbra, e guarda em si um percurso bastante particular.  Com 16, 17 anos, já expunha em Coimbra, e aos 20 anos, veria a sua primeira exposição individual a preencher a Galeria Roma e Pavia, no Porto, cidade onde viria a completar a licenciatura em Artes Plásticas-Pintura na Escola Superior de Belas Artes. Paralelamente à pintura, iniciou a sua actividade como performer: “Eu comecei, para bem e para mal – e acho que foi para bem –, muito cedo a fazer performances, que nasceram de uma auto-consciência da minha ingenuidade, mas que me ajudaram muito no meu trabalho.”

Nos anos 1980, nas suas performances, Olaio – em Portugal ou no estrangeiro – antes de interpretar um cantor de variedades, e de cantar ou não em playback, dançava sem sair do lugar, envergando apenas um par de cuecas e peúgas: “Eram sinais um bocadinho contraditórios - interpretar em cuecas, com uma paleta em cada mão, mas estar com uma cara muito séria. Uma espécie de jogo de sinais contrários e, ao mesmo tempo, um lado de auto-ridículo. Eu levava sempre as coisas muito a sério, mas não parecia. Chegaram a apelidar-me de o Ramalho Eanes da performance [risos]”.

Em 1986, após uma exposição no Museu Soares dos Reis sobre Salvador Dalí, para a qual fez uma tela - de onde surgiu o nome “Repórter Estrábico” -, formou a banda homónima, com José Ferrão: “Foi aí que ele me sugeriu que fizéssemos mais letras, para formar um grupo.” Em 1991, chega a lançar o álbum Uno dos.

Posteriormente, depois de sair dos Repórter Estrábico, e como se arte nele fosse involuntária, começa a enveredar pelos trabalhos em vídeo. Desde 1993 que Olaio tem vindo a desenvolver essa faceta de videasta. Os seus primeiros vídeos apoiam-se em vários discos instrumentais country (Post-Nuclear Country, 1993-1994): “Era uma invenção colada e descolada do que estava a ouvir, mas tinha um interesse efémero”. No ano seguinte, inicia uma colaboração com o músico João Taborda que se mantém até hoje e com quem já gravou três discos, Loud Cloud, Sit on My Soul e Red Rainbows, editados, respectivamente, em 1996, 1999 e 2008.

António Olaio é ainda professor auxiliar no Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (UC), onde lecciona desde 1991. Responsável pelas disciplinas de Desenho II e de Conceitos e Práticas da Arte Contemporânea, encontra também no ensino, uma extensão de si próprio. “Quando sou professor, continuo a ser artista. Felizmente, não sinto que estou ali num emprego diferente. Nós não somos apenas artistas quando estamos a pintar. Também é um trabalho artístico, de provocação, de criação”, garante.

Singing my art away

Conciliar todas as artes, correndo o risco de perder um bocado de cada uma delas não é problema para o artista plástico: “Não sinto que estou a conjugar coisas distintas, creio que elas são comunicantes.  O que me agrada nas coisas é o grau de ambiguidade que elas podem traduzir e isso, porventura, também me levará a exprimir por meios tão diferentes”. É, aliás, neste cruzamento de artes, que acha que, “possivelmente”, se encontra a “arte suprema” – “Acho que nem é preciso termos pudor em relação às palavras e acho óptimo poder dizer-se arte suprema.” Na sua casa-galeria, coabitam Elvis Presley, Che(r) Guevara, George W. Bush ou até Saddam Hussein.

Tal como em si mesmo, encerram-se ali vários mundos, resultando na exploração do insólito que o constrói. Nas suas criações, mistura palavra, canção e imagem, acreditando que a obra de arte é a maneira certa de comunicar e que é, acima de tudo, um jogo de relações. Mesmo que tivesse dúvidas, garante que faria de conta que acreditava, para continuar a fazer o que já faz: “É nesse desvario de relações que ela se manifesta. Claro que há um lado objectual que eu, de certa forma, cultivo: são pinturas, são telas, são objectos que se podem ter em casa, que se podem tocar ou reproduzir. Enquanto capacidade de relação, é que isso me interessa”.

Não se considera interessante e irritam-no “solenemente” as leituras que procuram ver biografias dentro do objecto artístico: “Agrada-me mais a minha banalidade. Para mim, isso não tem um sentido pejorativo. Isso, sim, tem um potencial simbólico ainda mais interessante”. Não terá sido por acaso que, na sua tese de doutoramento, abordou a temática da obra de Marcel Duchamp…

Nos últimos meses, viu patente na Culturgest, em Lisboa, a sua exposição mais longa – BRRRRAIN –, que estabelece um contraponto entre o seu trabalho em vídeo e a sua pintura. Apesar de “não ser uma exposição antológica”, segundo o curador Miguel Wandschneider, é uma exposição “muito vasta” do artista plástico que este considera como alguém que “encara a arte sempre com a realidade na sua mira”.

Ainda que lhe atribuam essa função, António Olaio não se considera curador. Apesar de tudo, é apologista de uma atitude provocatória, no sentido de desencadear situações artísticas: “Nos tempos de faculdade, formei um grupo, juntamente com uns colegas, o Grupo Missionário. Éramos um grupo provocatório ou, pelo menos, queríamos sê-lo. E a nossa função, mais do fazer coisas, era juntar artistas para fazer acontecer”. Hoje em dia, a sua opinião não diverge muito: “Acho que as instituições, nesta nova década, poderiam criar situações, em que os artistas respondessem perante reptos e não só estar atentos ao que se produz. Pode ser uma forma de encomenda, numa forma de provocação.”

Para Olaio, arte e estratégia podem ser compatíveis, desde que esta promoção não escureça a verdade da obra: “A arte existe para além da sua mediatização e da sua presença museológica. Podemos ima-ginar que a coisa mais genial é aquela que nós não conhecemos. Não tenho nada contra, se ela é feita para ser conhecida, quanto mais comunicada ela for, melhor”.

Relativamente à cidade onde vive, o Planeta Coimbra, e ao modo como esta vive a cultura, António Olaio diz ser desperdiçada: “Coimbra está muito aquém de Coimbra. Esta cidade tem uma densidade conceptual tão grande - Afonso Henriques, Rainha Santa, a Universidade, o mito da própria cidade -, que, se for encarada de uma forma folclórica, é um desperdício”.

Um dos próximos projectos de António Olaio envolve, precisamente, parte dessa densidade coimbrã: “Quero fazer um vídeo para a minha próxima exposição, pedi autorização para filmar na Sala do Exame Privado da UC. Fazer isto neste sítio tem uma força conceptual e simbólica como não há em mais nenhuma universidade em Portugal”.

No entanto, Olaio sente-se um pouco “estrangeiro” na própria cidade, confessando que tem com Coimbra uma relação conflituosa, algo típico de quem nela habita: “Coimbra talvez seja a cidade que mais ADN português tem, com essa relação que as pessoas têm de a adorarem e criticarem – uma espécie de revanche que é muito central na nacionalidade e na identidade portuguesa”.