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Cada pessoa é um mundo

A propósito do livro Um Por Cem: Um olhar sobre as repúblicas de Coimbra, de Margarida Madeira e Teresa Carreiro

J. L. Pio Abreu *

Cada pessoa é um mundo. Quando conhecemos alguém, começamos a viajar por esse mundo fascinante. Desvendamos a entrada, ficamos na ombreira ou penetramos pelos mais escondidos locais, conhecemos aqueles que partilham esse mundo de que também nós começamos a partilhar. Quando descemos aos territórios mais recônditos, deparamo-nos com imensos corredores e labirintos onde estão guardadas as peças mais valiosas que são a raiz de cada vida.

Do que é composto o mundo de cada um? De pessoas, certamente. Das pessoas que compartilham ou compartilharam o mesmo mundo. De pessoas esfumadas pelo tempo, das quais já só restam as efémeras imagens guardadas na memória. Daquelas faces, daqueles corpos que o tempo já mudou, e de que ficam apenas os olhos que viram as mesmas coisas. Os olhos e a voz, que se mantêm idênticos, as palavras que sempre podemos reproduzir.

Para além disso, ficam os ambientes, os pequenos objectos de uso diário, os cheiros, as paredes, os recantos, o sol que espreita pela janela, a brisa que o acompanha, a cor da desarrumação, os pequenos insólitos gratuitos que se impõem já carregados de sentido. E também, mais uma vez, as palavras. As palavras que narram, que descrevem, que foram ditas, com sentido ou sem sentido, a poesia das palavras, as que estão escritas nas paredes eternas, as que se transmitem de boca em boca, que se renovam e que formam o mito.

Quem passou por Coimbra, e lá viveu a sua juventude, partilha um mundo que se infiltra em todo o ser e marca profundamente a sua identidade. Porquê, ainda ninguém o explicou muito bem. Mas é assim. Há quem diga que é a alma de Coimbra, e que esta está guardada nas suas repúblicas.

É por isso que o livro Um por cem, numa alusão à mágica retórica dos centenários que se comemoram a cada aniversário das repúblicas, se oferece como um repositório dessa alma, o desvendar do mundo comum aos coimbrões. Tem fotografias de Margarida Madeira e textos de Teresa Carreiro.

A Teresa, conheci-a quando, por motivos académicos, decidiu estudar as repúblicas de Coimbra. Vinha de fora (de Lisboa), pensando que ia apenas desvendar um objecto de estudo sociológico. Pura ilusão, porque mexeu no fogo e foi por ele consumida. Apaixonou-se. Pior do que aqueles que por Coimbra passaram, ela não se libertou mais dessa presença, que agora exala nos textos que acompanham as fotografias.

Quanto à Margarida, começou por fazer as fotografias e sei que ficou transtornada. Padeceu da mesma doença. Afinal, aquilo que forma a raiz do mundo daqueles que estudaram em Coimbra é algo poderoso, como um vírus, um elixir ou o canto das sereias. E é por isso que as fotografias são apaixonantes.

Com excepção de um cão e da sua imagem reflectida num espelho convexo, nenhum ser vivo, animal ou humano, é fotografado. Contudo, são fotografias cheias de presença humana, nos lençóis abertos, nos estojos de limpeza, nas panelas penduradas, nos pratos ainda sujos, nos frascos de compota ou especiarias, no livro aberto e, sobretudo, na vida das paredes pintadas, desenhadas, prenhes de papéis escritos, de cartazes rasgados ou de fotografias desbotadas. Remetem sempre para a presença de alguém, actual repúblico, antigo repúblico, ou nós próprios, leitores e apreciadores do livro. E remetem também para ou-tros lugares, preocupações, gostos, cheiros, tristezas e alegrias, quente aconchego ou fresca brisa. Assim, desfilam pelas fotografias os estados subjectivos – os qualia – de quem, frequentando as casas ou apenas folheando as páginas do livro, se sente vivo.

Depois, numa difícil técnica de levar até ao limite a profundidade do campo, as fotografias mostram-nos planos sucessivos, delimitados por uma porta semi-aberta, por uma vidraça, um cortinado, um vão de escada ou a base de uma estante, como se fossem caixas chinesas. Como a Alice no País das Maravilhas, as fotografias convidam-nos a entrar por elas adentro, penetrando por planos sucessivos, cada um revelando um mundo que dá para outro e assim sucessivamente.

Mas, no fundo, no fundo, bem lá no último plano, o que guardam estas caixas chinesas que são as fotografias de Margarida Madeira? – A alma de Coimbra.
Cada pessoa é um mundo. Mas os mundos daqueles que passaram por Coimbra encontram as suas raízes nas fotografias deste livro. São raízes que podem ficar “à beira desta cama onde se deita a madrugada”, numa “paisagem atravessada de poesia, filosofia travessa, militância, música e festarola, desenrascanço, ruptura e demanda do novo”, ou ainda em “coisas escondidas dentro de coisas visíveis, amontoado de memórias, mapas de significação (...) peças insólitas, sinais de trânsito, candeeiros de iluminação pública, recortes vários, placas em línguas estranhas, murais esboroados a preto e branco e grafittis com mensagens sérias”, como nos explica Teresa Carreiro nos textos que acompanham as fotografias.

É o local onde todos se lembram que disseram o que a Teresa escreveu: “Não nos venham dar conselhos, sabemos bem fazer asneiras sozinhos”. Ou então: “Este mundo faz-de-conta é hostil a toda a trivialidade e destila humor e iconoclastia. Omnipresença da imaginação? Sei lá, diz ele distraidamente, recostado num sofá desbotado, num sorriso que lhe infantiliza o rosto”.
Sim, nas palavras e nas coisas que o livro revela, está alojada a alma de Coimbra.

* Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra