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Um edifício como cidade

Departamento de Engenharia Mecânica no Pólo II da UC

Vítor Murtinho *

O arquitecto Mies van der Rohe escreveu, um dia, que “menos é mais”, numa objectiva crença de que o melhor caminho para a elaboração e desenvolvimento do detalhe construtivo passaria por um processo, simultaneamente, muito elaborado e bastante simplificado.

Mesmo que no seu exercício profissional nem sempre praticasse este desígnio, em boa verdade, este argumento sempre serviu para combater o desperdício material, levando a acreditar que a melhor solução era a que possuía mais economia de meios e, por isso, uma melhor sistematização construtiva. Se estes últimos factores são determinantes para a consolidação da máxima miesiana, com fortes implicações nos destinos das arquitecturas mais minimalistas, não consta que as intenções do arquitecto alemão tivessem a ver com o valor pecuniário disponível para a consumação da obra ou com a relativização da sua boa execução. Pelo contrário, a filosofia que van der Rohe defende, supõe uma alocação generosa de meios económicos e tecnológicos, concentrando-se os seus esforços na qualidade do produto final. Entendendo que durante o processo, a melhor arquitectura, será aquela que tiver encontrado a melhor racionalização no uso do material e, portanto, obtenha a maior verdade construtiva.

O problema surge quando para a consumação do programa, nos seus níveis quantitativos e qualitativos, não se encontra a necessária e expectante correspondência numerária e, acrescido a isto, a execução – não a do arquitecto, mas a do empreiteiro – não respeite os princípios básicos e elementares das boas normas da construção. Nesse contexto, se na primeira parte pode o arquitecto conter custos até patamares de razoa-bilidade, na componente operária, fica o projectista, infelizmente, refém do construtor. A extrapolação da máxima miesiana, neste contexto, perde totalmente o seu sentido filosófico: o menos nunca pode significar mais e, aqui, não é o arquitecto que tem que ser julgado ou questionado.

Serve esta consideração prévia para auxiliar na abordagem a um dos projectos mais interessantes de Manuel Tainha, mais precisamente o Departamento de Engenharia Mecânica (DEM), situado no Pólo II da Universidade de Coimbra (UC). As várias referências que na comunidade universitária se fazem a esta obra recaem, sobretudo, na componente das inúmeras patologias que com o tempo se têm vindo a agravar, fruto de uma desastrada e displicente construção e quase nunca sobre o valor intrínseco do projecto, aquele que importa justamente fazer ressaltar.

Na estratégia consolidada de descompressão da Alta Universitária de Coimbra, o Pólo II tem vindo a ajudar a cumprir cabalmente esse desígnio, tendo competido a Manuel Tainha o acto de projectar o primeiro edifício, no contexto do plano elaborado por Camilo Cortesão e Mercês Vieira. Tainha encontrou um território totalmente despojado de qualquer pré-existência relevante, anterior ao traçado agreste das vias que organizava todo o território. De algum modo, a proposta urbana reproduz em topografia bastante acidentada o desenho regulado outrora implementado na proximidade, mais exactamente, no vizinho Bairro Norton de Matos. A dinâmica deste plano do Pólo II induz a uma lógica de ocupação construída do espaço de quarteirão delimitado pelo traçado da grelha hipodâmica orientada segundo os pontos cardeais principais.

Apesar de o sítio ser apriorístico e ter muitas vezes um carácter nostálgico, o lugar, enquanto criação, assume-se como o resultado do processo interventivo onde a arquitectura é uma parte determinante, mas não exclusiva. O lugar, tal como Tainha o encara, resulta de uma sedimentação de conteúdos, de vivências e de atmosferas, elas próprias geradoras de estados de espírito, de imagens, de impressões, que definem e caracterizam a relação com o espaço. É neste campo perceptivo, para os utentes exigentes, que o arquitecto convoca espaço, usa e abusa de riqueza sígnica. Essa predisposição é suficiente para criar afinidade, para gerar sentimento, formas de identidade, bem como matéria susceptível para promover a apropriação necessária à vivência em maior plenitude. Nesse contexto, está presente uma ambivalência entre programa e uso, apresentando-se estes como dois valores em equidade – não negligenciáveis –, providenciando uma harmonia expectante, aparentemente sem alteridade entre a sua concretização através da forma e da função. No seu já longo percurso coerente de produção arquitectónica, não consta que Tainha se tenha desviado da linha estrutural que se cose pelo processo de elaboração de obras de sedimentação, mais do que de obras de excepção. Toda a sua prática, inquestionavelmente autónoma, de correntes e de tendências, tem a sua génese e matriz na análise consolidada das formas disfarçadamente díspares, com particular evidência no racionalismo italiano, na nossa arquitectura chã ou mesmo na arquitectura manuelina, demonstrando uma preocupação constante de incorporar nos seus edifícios um cunho identitário e talvez de peculiar portugalidade.

Na Engenharia Mecânica da UC, o arquitecto percebeu muito bem e assimilou as determinantes urbanísticas do Plano, bem como os ambientes dos sistemas de relações intrínsecas a cada actividade departamental, onde as dinâmicas próprias e as vizinhanças foram indicadores preciosos para a definição das hierarquias e estabilização do modelo de funcionamento global. O projecto foi-se desenvolvendo sem partir de um princípio disciplinar ou das amarras de uma ideia. O programa fluiu na forma que o arquitecto o foi convocando, à medida que precisava de espaço.

O autor, não descurando anteriores experiências, quer da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação em Lisboa, quer do Instituto Superior de Tecnologia em Tomar, promove nesta contextura uma série de situações, porque melhoradas, que tornam a intervenção em Coimbra, uma das suas obras conceptualmente mais interessantes. O carácter mais disperso em Tomar ou a indefinição dos limites em Lisboa, são aspectos menos concretizados, quando confrontados com o rigor da operação que reconhecemos ser mais consolidada no DEM.

Na obra de Tainha, a sua operação interventiva não é submetida a qualquer conjuntura temporal, ou se quisermos de moda – mas antes de resistência. Ao mesmo tempo, demonstra-nos que é possível discernir regularidades em cada projecto, tendo sempre presente que a obra resulta da abordagem entre o sítio, os meios e os fins a que se destina, que a ocupação do espaço nunca será um acto de consumismo, mas sensivelmente um acto de criação. No seu já longo processo de projecto, praticamente não se percebe um desejo radical de mudança, mas a afirmação constante de um percurso com permanente irrequietude, onde a experiência anterior serve e ajuda a melhorar a que se segue.

Em Coimbra, o edificado não parte de uma composição estruturante de toda a forma, mesmo que ela esteja sempre presente, mas procede da adopção de um modelo organizativo fundado a partir do próprio programa e que define, desse modo, o seu princípio, mas também a sua configuração final. O lote é integralmente utilizado, quase que não deixando espaço para o crescimento. Parte-se da presunção que o edificado esgotou todo o potencial construtivo, pelo que a proposta cumpre o princípio de que respeita a escala da própria operação – termos tão caros ao arquitecto –, já que se encerra sobre si mesmo e, concomitantemente, se descomprime de modo serial para o espaço público adjacente. É no plano do espaço do concreto que o arquitecto reencontra as suas bitolas; é sempre a partir do solo que decide quais as medidas mais justas, de modo a conseguir a solidariedade expectável entre a forma e o uso.

A implantação delicada do edifício, com recurso a sucessivos socalcos, vencendo primorosamente a diferença topográfica mais desfavorável segundo o eixo norte/sul, torna coerente a osmose entre a paisagem pré-existente e o construído, como se o edifício sem pre lá tivesse estado. Para enfatizar o plano das ruas, define uma pele urbana que delimita todo o quarteirão, que nalgumas partes assume a espessura do corpo do edifício e noutras é meramente um muro que conforma espaço e que separa o espaço exterior público do espaço exterior privado. Neste contexto, o muro delimita a configuração base e como fronteira faz a concentração da distância entre um fora e um dentro, entre o lugar de passagem fugaz e o lugar para se estar, para usufruir, para o recolhimento. O lote foi o pretexto para fazer um espaço pouco contagiado pela envolvente, mas mais contaminado pela atmosfera que vê na solução uma continuidade consciente e sempre omnipresente entre o espaço edificado interior e o espaço exterior adjacente. A forma dos diferentes edifícios articulados com o muro de coroamento do lote, vão definir uma série de pátios, com dimensões variáveis e que funcionam como zonas intimistas, ou para melhor controlo de luz indirecta no espaço interior, ou para a oferta de agradáveis espaços para se estar, como é o caso do pátio localizado no vértice sul/nascente.

Nesse mesmo pátio, de articulação directa com o bar do departamento, destaca-se o corpo cilíndrico autónomo de um anfiteatro que com um pequeno espelho de água, apenso, cria um cenário bastante apetecível, principalmente porque com o tempo já adquiriram um porte funcional e o Verão, no local, é bastante rigoroso.

Debruçado sobre a rua principal, que liga ao Departamento de Engenharia Civil, distingue-se um corpo esbelto de dois pisos, que alberga a maior parte dos gabinetes e se descomprime a poente para permitir o acesso automóvel ao estacionamento privativo interior, mas a céu aberto. Esse mesmo corpo, em forma de foice, contorce-se e estende-se transversalmente até à rua a sul, indo decretar o pátio já descrito e ainda a praça central do conjunto edificado. A definição da praça central, situada no coração do lote, é conceptualmente coadjuvada por um eixo principal caracterizado pelas entradas a norte e a sul, coligando as cotas alta e baixa.

E, por outro eixo, perpendicular, que emana da praça e se estende como rua em paralelismo ao edifício principal, fluindo na zona de estacionamento. Este eixo, secundário mas não desprezível, serve os dois blocos de laboratórios e, porque reproduzido em percurso coberto de galeria, no interior do edifício principal (ensaiada na Faculdade de Psicologia em Lisboa, mas aqui com desenho mais consistente, com enfiamentos visuais melhor formalizados e pontos de remate solidarizados), acaba por favorecer uma ampla liberdade de escolha pedestre, funcionando intencionalmente como uma verdadeira promenade.

Todo o espaço de circulação interior é meticulosamente pensado – numa catadupa experiente sucedem-se estrategicamente pontos notáveis, plataformas desniveladas que definem zonas de estar, pontos de encontro e de reencontro consciente entre as pessoas, mas também com a arquitectura. De vez em quando, aqui, desvela-se o espaço exterior através de controladas e inteligentes aberturas. As janelas nas paredes verticais, ajudando ao escape espiritual, e as zenitais, favorecendo a entrada franca dos fluxos radiantes e demonstrando a absorção do princípio corbusiano de que a arquitectura é o jogo magnífico dos volumes sob a luz. Na precisão do desenho sobressai sistematicamente um grande rigor na proporção, uma enorme consciência na manipulação dos efeitos e das formas. A entrada principal, convenientemente destacada na fachada austera, é coadjuvada pela existência de uma escadaria que obriga à consciencialização do destino, definindo e remarcando o patamar de chegada ou de partida, assinalando a fronteira de espaços, servientes e servidos.

Toda a evidência sígnica, colocada amiúde um pouco em todo o projecto, não pretende exorcizar repositórios simbólicos, mas antes pretende enfatizar o problema no campo dos sentidos. A linguagem na obra de Tainha serve os propósitos estratégicos identitários, mas na génese, subsiste o prenúncio de que qualquer que seja o pensamento arquitectónico foi sempre mediado por um pensamento construtivo.

A metodologia compositiva, os ritmos e os remates, o contraste entre luz e sombra, são uma espécie de matriz delicada e muito fina que dirime argumentos com o sítio e o programa. Uma matriz que permite transformar a natureza física, através do projecto, numa sempre recorrente, construída, mas verdadeira poética da matéria.

Conceptualmente aquela arquitectura é um exercício de plena maturidade de um artista que não está sufocado pelos mediatismos e imediatismos das imagens, que percebe bem os limites da sua liberdade e sabe qual o melhor modo para atingir a individualidade da sua obra. Mas, inexoravelmente, também sabe que a identificação da obra é a auto-identificação, quase sempre, do arquitecto.

Para o melhor e para o pior, o DEM em Coimbra, é uma obra ofegante que dá a ver e permite descobrir o saber e o sabor de Manuel Tainha. Todavia, alguém que está convencido que a arquitectura é arte, mas também e sobretudo, presença no estaleiro, técnica e construção, não deve ser penalizado por aquilo que efectivamente concebeu, mas cuja massa saiu de calosidades que não as das suas mãos.

* Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra