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Babilónia de Sons

Liliana Figueira

Línguas aproximam culturas e oportunidades de uma vida melhor

Ao final do dia, nos corredores da Faculdade de Letras, amontoam-se grupos de estudantes à porta das salas de aula. São jovens e pessoas mais velhas, de todas as idades e áreas, que, na hora habitual do regresso a casa, optam por se dedicar à aprendizagem de uma nova língua.

Algumas até já deixaram de estudar há bastante tempo mas, como se costuma dizer, o saber não ocupa lugar, seja por motivos profissionais ou simples curiosidade.

Desde o Inglês e o Italiano, às mais exóticas como o Japonês, o Neerlandês ou o Árabe, o leque de cursos que o Centro de Línguas (CL) tem para oferecer é variado e do agrado dos estudantes. “Não sei se é de excelência ou não, mas quando alguém quer aprender uma língua, é este Centro que procura”, explica M.G. Fontes. A bióloga de 40 anos, que prefere não ser identificada, encontrou o curso de Língua Gestual do CL na internet.

O facto de ter amigos surdos-mudos e de sentir “uma grande necessidade em quebrar barreiras com as pessoas” fê-la inscrever-se nas aulas que, apesar de serem apenas uma vez por semana, “são uma excelente plataforma para aprender”, salienta.

Mas mais do que a língua, os estudantes que frequentam estes cursos têm ainda o privilégio de contactar com outras culturas. Assim, aprendem também a quebrar barreiras e preconceitos em relação a países que, de outra forma, talvez nunca venham a conhecer verdadeiramente.

Mais perto das culturas orientais

Para algumas pessoas, as quartas-feiras são dedicadas ao Árabe. Neste dia em particular, a aula do primeiro nível tem poucos alunos. Entre risos e dúvidas, num ambiente descontraído, o trabalho de casa é corrigido no quadro. Seguem-se os números, um pouco de conversação e de leitura e, por fim, a visualização de algumas fotografias da Síria e do Egipto.

“Costumo dizer que os cursos de Árabe são lugares de fazer política, de intercâmbio cultural, pois os alunos ficam a conhecer melhor a nossa cultura e também eu aprendo sobre a cultura deles”, revela a professora de Árabe, Shahd Wadi. Na sua opinião, “estas conversas são essenciais para perceber que temos muito mais semelhanças do que diferenças”.

O Árabe está entre as línguas do CL com menos procura. Para a docente, “as pessoas têm medo por se escrever da direita para a esquerda, mas a escrita e a leitura são fáceis”. O mais difícil, diz, “é o vocabulário, que é muito rico”. Por outro lado, continua, “poucos procuram o Árabe por questões profissionais. A maior parte está interessada em conhecer uma língua nova”.

Sofia Ribas, estudante do 2.º ano de Direito, é disso exemplo: “Para mim, sempre foi uma língua com uma sonoridade fascinante, mas nunca foi o meu intuito trabalhar fora de Portugal”, confessa. Também a colega de curso, médica no Instituto Português de Oncologia, nutre uma “grande admiração pela cultura e pelo mundo árabe”. Apesar de “ser difícil”, nota Ana Maria Leite, “a língua cumpre as expectativas e abre horizontes”.

No entender de Joana Santos, directora do CL, a reduzida procura deve-se ao facto de “as pessoas ainda não se terem apercebido da importância destas línguas”. “Lá fora, o Árabe é capaz de ser extremamente importante e necessário para fomentar o diálogo”, refere a responsável.

Algumas, porém, já se aperceberam. Simone Miranda, de 23 anos, fez o curso de Árabe quando estava no 1.º ano de Línguas e Literaturas Modernas, em 2004. Como explica a jovem, a decisão foi tomada a pensar no futuro e “olhando para a França como um possível local de trabalho, onde o árabe é uma das línguas mais faladas”. Da mesma forma, grande parte dos estudantes que escolhem estudar Japonês não o fazem por motivos profissionais.

A própria professora, Ayano Shinzato, explica que “aparecem muitos jovens com referências de anime”. No entanto, esclarece, surgem também “estudantes de diversas áreas que querem aproveitar os protocolos com as universidades japonesas para estudar, fazer investigação ou, no futuro, trabalhar”.

Escolhas a pensar no futuro

Nas aulas de Russo, a música e a literatura juntam-se à aprendizagem da língua. A par das questões profissionais, motivadas pelo crescente aumento de cidadãos de Leste no nosso país, “os jovens querem saber mais sobre a cultura russa e têm sempre muitas perguntas” revela, satisfeito, o professor Vladimir Pliassov.

Uma das alunas, Maria Rosa de Oliveira, explica que “os cursos do CL costumam ser muito voltados para a conversação e isso é muito importante”. Embora tenha decidido aprender a língua devido à origem russa do namorado, a estudante brasileira, a fazer o mestrado em Informação, Comunicação e Novos Media, afiança que “quantos mais idiomas souber, melhor”. Aliás, depois do Inglês, do Italiano, do Espanhol e, agora, do Russo, Maria Rosa pondera estudar Chinês, “por ser uma língua promissora”.
Recordando a experiência vivida em Macau, aquando do estágio curricular, Cláudia Gameiro partilha da mesma opinião. Ainda a estudar Jornalismo, mas já a pensar no estágio, a jovem entendeu ser útil inscrever-se no Chinês e acabou mesmo por completar o 3.º nível antes de viajar para Macau. “Não são cursos muito aprofundados, parte da aprendizagem tem que ser feita por ti mesmo, mas é um bom princípio e até gostava de poder continuar”, refere a jornalista, para quem, “com a China a crescer tão depressa, pode vir a ser importante no futuro”.

Apesar de estarem em áreas completamente distintas, as mesmas razões movem Miguel Gomes, estudante do 2.º ano de Engenharia Civil. “É realmente uma mais-valia a nível profissional” considera o aluno que, incentivado pelo pai, crê poder tornar-se “mais competitivo” se souber falar Chinês. Perante as dificuldades do 1º nível, especialmente os caracteres, Miguel Gomes “não tem medo” e, acrescenta, “quando a professora fala em Chinês, já conseguimos perceber algumas coisas”.

Línguas europeias, as mais atractivas

Ainda que o CL tenha a vantagem de “dispor de línguas que as escolas privadas não podem oferecer”, como destaca a directora, para a maioria das pessoas as línguas europeias continuam a ser as mais atractivas. Não é por acaso que o Espanhol, o Alemão, o Francês e, principalmente, o Inglês, são os cursos com mais alunos inscritos, situação que Cláudia Gameiro clarifica bem quando diz que “as pessoas ainda procuram muito oportunidades de emprego dentro da União Europeia”.

Manuel Lobão, polícia recentemente licenciado em Geografia, não procura um novo trabalho. À saída do primeiro teste de Francês (nível I), justifica antes com o gosto pela língua e a necessidade em reaprender um idioma que estudou há 35 anos e que parte da família, a residir em França, usa diariamente.

Escolhas à parte, e porque qualquer razão é válida para aprender, o Centro de Línguas não podia dar melhor oportunidade às pessoas de dentro e de fora da Universidade. Embora, para muitos, um semestre baste para adquirir os conhecimentos básicos, para um número alargado de alunos, a aprendizagem faz-se por etapas e mediante o próprio convívio que, de nível para nível, facilita o processo e enriquece o saber.