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Intersecções: Antropologia e Arquitectura

Colóquios do Outono 2009

Luís Quintais, Nuno Porto, Sandra Xavier e Paulo Providência *

Tanto na antropologia quanto na arquitectura reconhecem-se tendências de apropriação mútua. Ou seja, os arquitectos mostraram-se sensíveis aos saberes antropológicos, e os antropólogos, por seu turno, revelaram-se atentos observadores dos modos de fazer o espaço que a arquitectura foi desdobrando.

Dir-se-ia, aliás, que a antropologia e a arquitectura denunciam, nas suas relações de recíproca inscrição de olhares e práticas, um conjunto de codificações acerca do que é ser moderno que emblematiza as hesitações, diferenças, complexidades e aporias dessa condição moderna. Poucos foram seguramente os diálogos inter-disciplinares que o fizeram ou fazem de forma tão rica e, ao mesmo tempo, de maneira tão pouco reflectida.

Com a geração do Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal, com Arnaldo Araújo, com Sérgio Fernandes, ou, no panorama internacional, com a geração do Team Ten e Aldo Van Eick, ou ainda com Bernard Rudofsky, a arquitectura revela a sua apropriação constante dos saberes, discursos e sensibilidade da antropologia, procurando, assim, “fundamentos” mais consonantes com uma ideia de “habitar” que articule diferenças e semelhanças e que espelhe a interactividade e o dialogismo sempre presentes (e sempre necessários) em qualquer concepção de arte pública.

Compreende-se então que a introdução da antropologia na formação dos arquitectos, associada a “novas preocupações sociais” da arquitectura, ou a introdução de temas caros à antropologia no discurso arquitectónico (como aquele que faz da rua um espaço de encontro de diferenças e de constituição de uma “comunidade” de fronteiras móveis, fluidas, imprecisas, mas sempre actuantes), correspondem a uma vontade de aproximação da arquitectura à realidade urbana (social e cultural), e a uma aspiração de intervenção nesse tecido de complexidades, fazendo aproximar da vida o projecto, essa entidade abstracta de planeamento que, na sua declinação gráfica e selectiva, não é comensurável com o território de diferenças e de dialogismos que deveria alimentar sempre o ofício da arquitectura.

A questão que permanece, do ponto de vista da arquitectura, é precisamente a de saber de que forma é que ocorreu a “antropologização da arquitectura”, isto é, como é que as “práticas etnográficas”, convocadas pelos principais actores da crítica ao movimento moderno em arquitectura, trabalharam e negociaram o “significado” social da arquitectura.

Para pensar alguns dos problemas que este enlace entre a antropologia e a arquitectura promoveu e promove, reuniram-se nestes Colóquios de Outono um conjunto de influentes investigadores provenientes de ambas as áreas e que aqui procuraram pensar em conjunto as aporias e dilemas, as diferenças e as semelhanças, que constituem a complexidade deste diálogo que se torna particularmente evidente desde, pelo menos, a década de 60 do século XX.

James Holston, antropólogo (Universidade da Califórnia, Berkeley), apresentou uma conferência que nos permitiu compreender a complexidade em que se fundou, no contexto brasileiro, a recepção à normatividade modernista emblematizada pelo Congrès International d’Architecture Moderne (CIAM). Holston salientou a relevância que aí assumiu e assume a “generatividade” das ideias modernas (emblematizada pelo construção, em São Paulo, do Edifício Copan de Oscar Niemeyer nos inícios dos anos 50) quando transportadas para contextos de extrema densidade urbana.

Sérgio Fernandez (Universidade do Porto), arquitecto, trouxe-nos um olhar marcadamente etnográfico, de onde se não isenta a melancolia, sobre a sua experiência de contacto com a população de Rio de Onor nos inícios da década de 60 (1963-1965), e sobre as “lições” construtivas e formativas (em sentido amplo) que o arquitecto recebeu, no rescaldo do Inquérito, através da sua démarche etnográfica.

Georges Teyssot, teórico e historiador da arquitectura (Universidade de Laval, Canadá), ofereceu-nos uma magnífica reflexão sobre a importância de que se revestiu, em Aldo van Eyck, e durante a década de 60, a introdução de uma perspectiva fortemente descentrada da arquitectura que apelava recorrentemente à viagem e à etnografia como recursos de re-constituição da ideia de espaço construído, sendo decisiva a expressão que aí adquiriu, por exemplo, o contacto com as populações Dogon no Mali nos anos 60 fortemente mediadas pelo arquivo da expedição Dakar-Djibouti (1931-1933).

João Leal, antropólogo (Universidade Nova de Lisboa), tendo por eixo o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal, revelou-nos, provocatoriamente, o modo como as figurações do “popular” em arquitectura só podem ser cabalmente entendidas num tecido de hibridizações e contaminações que as declinações modernas tendem, quase inevitavelmente, a eliminar.

Algumas das propostas mais férteis dos Colóquios de Outono deste ano, assinalaram a importância de uma prática de desconstrução da normatividade discursiva que procede de muitas das reificações do moderno que se fizeram ou fazem inscrever na tradição construtiva da arquitectura. É neste contexto, aliás, que se podem fazer situar algumas das propostas de João Leal no que diz respeito ao “popular” e às aproximações etnográficas dos arquitectos.

Assim, a ideia de que os processos de apropriação de uma determinada realidade cultural, reconstruída pelo etnografar dos arquitectos (presente nos seus apontamentos, no seu ordenar da “realidade”, nas suas fotografias e nos enquadramentos que elas revelam, na comunicação gráfica das implantações e organizações), é ela própria uma construção que exige desconstrução, já que tal construção correspondeu ou corresponde a processos de legitimação de um fazer que assenta em noções e aquisições que se não isentam da sua historicidade, é um dos traços consensuais a reter dos Colóquios.

O que estes Colóquios nos trouxeram foi, justamente, uma leitura das inter-disciplinaridades e inter-deslocações discursivas e interpretativas que nos mostrou a viabilidade da crítica (e de uma certa ponderação desconstrutiva) quando ela ocorre num espaço de encontro e de partilha.

* Professores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra