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A urgência de um diálogo interdisciplinar

Ana Filipa Magalhães

De um diálogo sobre o vernáculo, nem sempre concludente, se estabelece a ligeira ponte de interacções das disciplinas da Arquitectura e da Antropologia. Além do A inicial em comum, são certas preocupações conjuntas, sensibilidades concertadas e uma vontade mútua de solidariedade interdisciplinar que encetam o diálogo, como é exemplo o Inquérito à Arquitectura Popular Portuguesa (IAPP), publicado em 1961.

No colóquio “Interacções, Antropologia e Arquitectura” que tomou o auditório da reitoria da Universidade de Coimbra, nos passados dias de 23 e 24 de Novembro, vários arquitectos e antropólogos, como James Holston, Sérgio Fernandez, João Leal e Georges Teyssot procuraram, através da cidade de Brasília, de Rio de Onor e do IAPP, mais uma vez, a reapropriação dos vocabulários de uma e de outra.

Acerca do IAPP, o arquitecto João Leal revelou uma tendência modernista em que ambas as disciplinas se focavam na definição do “popular”, que se queria genuíno e autêntico, nunca inestético ou urbano. É também necessário ter em atenção que ainda se vivia no regime salazarista.

Já James Holston criticou o planeamento e projecto da cidade de Brasília, feito sob a égide modernista, aplicado a todos os espaços da cidade de modo homogeneizador, que, para o antropólogo, esvazia o espaço de significado, além de eliminar qualquer hipótese de improviso na cidade, tão rica de potencialidades. Segundo Holston, “dada a sua amplitude, não há diálogo entre os edifícios e o espaço em redor”.

Quanto à questão formal sobre as intersecções, Holston defendeu que a antropologia é imprescindível à arquitectura para a criação da norma, dado que a primeira é a ciência da crítica e dos “marginais”, e que “norma sem crítica é tirania”. Advogou, ainda, que a arquitectura se concretiza pela imitação: “É um processo de evolução da imitação. É preciso piratear para a criação de um modelo”. Uma das denúncias feitas pelo antropólogo foi o “síndrome” do modernismo arquitectónico que passa pela criação do original, que é impossível.

O sucesso da intervenção de Sérgio Fernandez ficou a dever-se ao facto de, sem falar de normas, transgressões ou sequer referir a palavra antropologia, ter sido capaz de fundir toda a terminologia num relato espontâneo dos tempos passados em Rio de Onor, Trás-os-Montes.

Na verdade, apreende-se o conceito de sensibilidade antropológica quando o arquitecto, nesse relato, ultrapassa a dissecação dos espaços e revela o que aconteceu na expedição. Fernandez contou que, em Rio de Onor se propôs, realmente, a relacionar-se com as populações. Segundo o próprio, ao chegar à vila, ele e os seus colegas estudantes, maravilhados com a generosa oferta da natureza e do instintivo encaixe da vila no espaço paisagístico, acharam “muito romanticamente, que tudo deveria manter-se igual”, ao que o povo modestamente respondia: “Dizes isso por que não vives cá todos os dias!”. Nesse relato, Fernandez fala de uma especificidade curiosa, a respeitar por qualquer projecto arquitectónico, que é a ponte que une Rio de Onor de Espanha e de Portugal, onde se reunia o concelho de homens, ponto obrigatório de socialização.

João Leal, de volta ao IAPP, referiu que na investida instituição do “popular”, as demarcações registadas por arquitectos e antropólogos - devido ao processo de inclusão/exclusão do que é ou não popular - conseguiram ostracizar elementos urbanos e rurais tão antigos como os elogiados, de que é exemplo a “casa do emigrante” e do “brasileiro”, a casa dos pobres ou de “gosto duvidoso”. As chamadas “malfeitorias”, desprezadas pelo Inquérito, fizeram com que este perdesse amplitude, pois veio a responder em favor da arquitectura moderna, homogeneizada.

De facto, surgiram interpelações, tanto por parte de arquitectos como de antropólogos que, ao invés de susterem o interrelacionamento das matérias, pela insipiência académica, demasiado formal, com certeza levaram o público a pensar na validade dialógica, por vezes semelhante a uma luta de bandeiras que separa de um lado, a arquitectura endeusada e, por outro, o recém-nascido estudo humanístico.

Todavia, ilações foram tomadas. A curiosa abordagem da noção de “não-arquitectos”, ou seja, das populações que realmente interagem e habitam no espaço público, que além de se conformarem a esse espaço procuram, inconscientemente, uma significação cultural e mesmo uma identificação. Os moldes dessa significância obrigam a recorrer à Antropologia, pois a esta compete a compreensão e enumeração dos preciosismos locais, sejam regionais, culturais ou nacionais.

Também é de salientar o reparo exigido por ambos os lados à desconsideração efectuada por parte de certos quadros da arquitectura, ao novo espaço suburbano, indefinido e muitas vezes bloqueado de estudo.

Para o amadurecimento deste diálogo interdisciplinar, talvez sejam necessárias além das confrontações críticas, a noção certa de intersecções, ou seja, cuidar dos campos em que ambas as disciplinas são coincidentes, para evitar a crítica gratuita e para, tal como faz o conselho de Rio de Onor, se caminhar em direcção à ponte que une os dois lados e aí se discutir, ao ar livre, com um firme aperto de mãos.