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Um caminho no ensino superior para mostrar que a diferença não é inimiga da sabedoria

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No ano letivo 2020/2021, Diogo Nolasco ingressou na Universidade de Coimbra (UC) com uma das médias mais altas. A classificação de 19,8 valores garantiu-lhe a distinção com o prémio UC à Frente, que, em cada ano letivo, destaca estudantes nacionais que entram numa licenciatura ou mestrado integrado com nota de candidatura igual ou superior a 18 valores e que selecionam a UC como primeira opção. A História sempre foi a sua grande paixão e foi esse o caminho que escolheu no ensino superior, sendo atualmente aluno da licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Portador de autismo de nível 1, as adversidades que foram surgindo ao longo da sua jornada nunca foram motivo para baixar os braços. E, como ele, nem o pai, nem a mãe, nem alguns/algumas professores/as viram este diagnóstico como um impedimento a um futuro justo e feliz. Foi assim que a inclusão se tornou numa das grandes bandeiras do Diogo, não apenas para salvaguardar o seu reconhecimento e integração, mas também a integração de jovens com o mesmo diagnóstico.

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Quando e como começou o teu percurso na Universidade de Coimbra?

O meu percurso começou em 2020, depois de ter feito o exame nacional de acesso ao ensino superior. Durante muito tempo, não imaginei que conseguisse chegar até aqui. Também não esperei conseguir ter uma classificação tão generosa no exame de acesso. Desde o ingresso na UC, tentei integrar-me e corresponder às expectativas que tinha. E, uma vez que consegui realizar este sonho com todas as limitações que tenho, senti a responsabilidade de mostrar às pessoas com as mesmas características que eu, e que tenham também essa vontade de ingressar no ensino superior, que é perfeitamente possível fazê-lo.

Chegaste à Universidade de Coimbra durante a pandemia de COVID-19. Como foi viver esta experiência nos moldes que a pandemia acabou por exigir?

De certa maneira, 2021 foi o primeiro ano em que comecei a vir quase todos os dias para a Universidade e a conhecer os espaços mais intimamente, porque o ano anterior foi um ano em regime misto, com muitas aulas à distância. E, por isso, não foi muito fácil conhecer os cheiros, as pessoas e os lugares. Mesmo assim, consegui integrar-me, fazer alguns amigos e participar em iniciativas que decorreram online.

A situação do ensino à distância teve desvantagens, mas também trouxe algumas vantagens, porque me deu algum tempo para me orientar. E, na minha perspetiva, acho que todos, enquanto sociedade, devíamos tentar aprender alguma coisa com a pandemia, nomeadamente sobre as aulas online (por exemplo, para o caso de trabalhadores-estudantes, que possam ter problemas com a deslocação). Claro que nunca será a mesma coisa que estar aqui presencialmente nas aulas e com os colegas. Acho que isto nos ensinou que devemos sempre tentar fazer o melhor dentro do possível e acho que foi isso que fizemos no ano passado.

Quando é que decidiste que querias estudar na UC?

Imediatamente depois de fazer o exame para acesso ao ensino superior e depois de saber qual era a minha média de acesso. Tomei essa decisão muito espontaneamente, por razões sentimentais, mas também por razões utilitárias. Resido numa vila pertencente ao concelho de Oliveira do Bairro, na Mamarrosa, no distrito de Aveiro e a Universidade de Aveiro não tem, por exemplo, o curso de História. E a Universidade de Coimbra tem esse curso. A UC é uma universidade com um misto de antigo e de novo. Há uma aura muito grande de inovação, mas, ao mesmo tempo, não há uma rutura com aquilo que está para trás. Pelo contrário, há um grande orgulho em assinalar aquilo que está para trás. É uma universidade com uma grande, grande história! A minha mãe também já tinha tirado o curso dela aqui, uma prima paterna minha também e, portanto, havia uma certa ligação emocional.

És atualmente estudante da licenciatura em História. Como é que o interesse pela História surgiu no teu caminho?

Sempre foi o meu interesse especial, cruzado com outras áreas, nomeadamente com o canto. A História sempre foi a minha grande obsessão! As pessoas com as minhas características, dentro do espectro do autismo de nível 1, costumam ter, desde pequenas, um interesse particular por um tema específico e isso reflete-se, depois, ao nível das suas escolhas em termos de curso, de carreira. Há áreas da História pelas quais me interesso mais, nomeadamente o Cristianismo (a origem, a atualidade, as evoluções e as mutações) ou a Segunda Guerra Mundial. Estudar História sempre foi o que quis fazer, não me imaginava noutro curso.

Com base na tua experiência na nossa Universidade, como descreverias a UC a futuras/os estudantes?

A Universidade de Coimbra é, como disse há pouco, um cruzamento entre o novo e o antigo. Por um lado, há as tradições, inclusivamente as académicas, e, por outro lado, é feito um grande esforço no domínio da inovação, da transdisciplinaridade e da partilha de conhecimento entre colegas de diferentes cursos. Há uma aposta muito grande na frequência de disciplinas que não sejam do nosso plano de curso (por exemplo, estou a fazer menor em Estudos Europeus e estava para fazer uma disciplina de lista aberta, mas não foi possível por incompatibilidade de horário). É uma Universidade que se pauta por valorizar bastante os estudantes que têm bons resultados. É uma Universidade onde, em geral, há uma boa capacidade de integração entre colegas e professores, que acolhe bastante bem a diferença, respeita-a e procura capitalizar aquilo que ela tem para oferecer. Por isso, diria a um futuro estudante que tem aqui o espaço certo tanto para a parte mais lúdica da vida académica, como o espaço certo para aprimorar os seus interesses ao nível daquilo que queira fazer em termos académicos.

Enquanto estudante do ensino superior, quais são os maiores desafios que tens encontrado ao longo deste percurso?

Apesar das vitórias que vou obtendo, continuo a ser uma pessoa que, como todas, tem as suas limitações. Ainda não tenho – e, francamente, não sei se algum dia virei a ter – carta de condução. Neste momento, tem sido uma vizinha, que é engenheira informática aqui em Coimbra, que me tem trazido todos os dias. Esse é um obstáculo, porque, por exemplo, recentemente iniciei o meu percurso no Coro Misto da Universidade de Coimbra e durante algum tempo vim aos ensaios e participei em algumas atividades. E, neste momento, como tenho esta limitação da deslocação própria, não tenho tido tanto essa possibilidade, porque como os ensaios decorrem algo tarde não posso exigir à minha vizinha que fique comigo até tão tarde. Não quer dizer que seja um obstáculo insuperável, até porque no próximo ano não excluo vir a arranjar um apartamento aqui em Coimbra para ficar um bocadinho mais perto. Mas acaba por ser, neste momento, uma limitação. 

Não posso dizer que consegui ultrapassar as minhas barreiras e os meus obstáculos todos. Por vezes, também tenho alguma dificuldade em sintonizar-me com alguma linguagem mais própria da minha geração. Apesar disso, tenho-me integrado bem, tenho amigos próximos entre os colegas do curso de História e também de fora e também tenho amigos próximos entre professores. Mas a dificuldade que às vezes sinto em encetar diálogo quando os temas de conversa não são tanto os meus temas, é uma dificuldade que se mantém e contra a qual vou lutando. Tenho momentos de maior espontaneidade e de menor espontaneidade e de maior introversão ou de maior extroversão. Ainda há, às vezes, algumas limitações e vou lutando, fazendo o que posso, vou fazendo a minha caminhada, tal como todos os estudantes desta casa.

És portador de autismo de nível 1. Algum dia este diagnóstico te fez crer que não ingressarias no ensino superior?

Ao longo do meu percurso escolar, muitas pessoas não acreditavam que eu conseguiria fazer o que quer que fosse. Sofri bullying, humilhação e sempre tive bastante dificuldade em socializar. A dada altura, estava inserido numa sala de Modelo TEACCH e as professoras disseram aos meus pais que o meu futuro após o 9.º ano seria ingressar numa CERCI (Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Crianças Inadaptadas). O meu pai e a minha mãe (o meu pai já faleceu, a minha mãe ainda é viva) opuseram-se e disseram que esse não seria o quadro institucional que me favoreceria e que eu tinha mais capacidades do que isso. As professoras não encararam muito bem aquilo, pelo que ao longo do 7.º ano de escolaridade senti os apoios a irem escasseando à medida que o tempo passava. Frequentei o 9.º ano, não o concluí, e só muito mais tarde, quando soube que uns professores de um centro Qualifica de Anadia iam à minha zona, a um centro de cidadania liderado pelo Doutor Arsélio Pato de Carvalho, falei com uma das técnicas, a Doutora Helena Mamede, e descobri que não tinha terminado o 9.º ano ao abrigo do ensino regular. E foi aí que me foi oferecida a oportunidade de concluir o ensino com esta equipa de professores que acreditou em mim e achou que tinha algum potencial para desenvolver. Foi assim que fui induzido a tentar fazer este percurso, a acabar a minha escolaridade e a fazer o trajeto até entrar no ensino superior. Pelos vistos, eles tinham razão! Acho que consegui provar isso.

Quais é que foram os momentos que mais marcaram o teu percurso na Universidade de Coimbra?

Tenho que destacar dois momentos: a minha participação na cerimónia de acolhimento de novos estudantes e a cerimónia de entrega dos prémios UC à Frente. Certamente que teria também outras coisas sobre as quais poderia falar, mas tenho que destacar estes dois momentos, porque foi aí que tive a oportunidade de mostrar à comunidade académica a minha situação. Alguns colegas ouviram o que disse e vieram-me dizer que até àquele momento tinham dificuldade em perceber e, por isso, em pôr-se na pele de alguém na mesma situação que eu e a perceber o que estava em causa.

Para terminar, que mensagem gostarias de deixar à comunidade UC sobre a tua experiência de integração na Universidade de Coimbra?

Comunidade UC, antes de mais, muito obrigada por me terem acolhido tão bem! A mensagem que gostaria de deixar é: continuemos a ser conscientes de que a diferença não é inimiga nem do progresso, nem da razão, nem do talento. Continuemos a investir na transdisciplinaridade e na inclusão. Continuemos a acreditar no ser humano, na sua capacidade infinita para tudo e mais alguma coisa, mas, acima de tudo, para o bem e para o intelecto. Continuemos a promover e a criar conhecimento. Continuemos a criar novas estratégias, novas ferramentas, que permitam que a UC seja, efetivamente, uma UC for All. E que tenhamos sempre espaço para todos os estudantes, para todos os membros da comunidade académica, quer sejam professores ou funcionários, que são uma parte indispensável da vida da UC. Da minha parte, espero continuar a fazer sempre o meu melhor para dignificar, dentro do possível, a comunidade UC. Dentro de todas as minhas limitações, também quero dizer, a colegas e a todos os neófitos deste labirinto de emoções que é a comunidade UC, que contarão sempre comigo para o que precisarem.

Assista ao vídeo desta entrevista:

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Produção e Edição de Conteúdos: Catarina Ribeiro, DCOM e Inês Coelho, DCOM  
Imagem e Edição de Vídeo: Marta Costa, DCOM  
Edição de Imagem: Sara Baptista, NMAR





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