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A regulamentação ao serviço da eficácia do medicamento e da segurança do doente

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Quality by Design in Pharmaceutical Manufacturing 4.0 é o tema do projeto da Helena Bigares Grangeia, estudante do programa de doutoramento em Ciências Farmacêuticas - Drugs R&D, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC). Desenvolvido em parceria com diversas empresas, este programa doutoral pretende aproximar a academia e a indústria para que, em conjunto, encontrem novas soluções para questões do quotidiano empresarial, sempre em prol da segurança de doentes. No caso da Helena, o projeto é desenvolvido em parceria com a Bluepharma, tendo como orientador científico Sérgio Simões e como coorientador Marco Reis, como também uma supervisora empresarial, Sónia Alfar, que acompanha o plano de trabalhos na empresa. Foi precisamente esta ligação à indústria que chamou a estudante ao programa doutoral, dado que estava já a trabalhar na área regulamentar. Tem conduzido a sua investigação seguindo a premissa de que a investigação associada ao medicamento não termina quando este vai para o mercado, mas deve continuar, sempre no sentido da melhoria da qualidade do processo e do produto, como também da vida de quem precisa de o tomar. 

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Qual é o objeto de estudo do teu projeto e o que pretendes investigar?

O objeto de estudo é o medicamento e as várias componentes do seu processo de produção. A ideia principal do projeto passa por ter muito presente o pressuposto que a investigação associada ao medicamento não termina quando ele vai para o mercado, após concluirmos o processo de desenvolvimento. O processo de investigação deve continuar. E neste projeto de investigação é precisamente isso que estamos a fazer: uma investigação pós introdução do medicamento no mercado, sempre com a ideia de que há uma melhoria contínua implícita em todo o processo de produção do medicamento. E esta investigação faz-se através da análise dos dados industriais que são gerados. É um recurso que a indústria já tem à sua disposição sendo que, muitas vezes, não extrai todo o potencial desses dados. E, por isso, é importante desenvolver estratégias que permitam recolher, organizar e analisar esses dados (através de técnicas matemáticas e estatísticas), que vão contribuir para, em última instância, otimizar o processo de produção do medicamento.

Neste quadro, os objetivos macro deste projeto passam por melhorar a eficiência dos processos – com uma consequente maior disponibilidade de medicamentos para a população em geral – e também melhorar a sustentabilidade dos próprios processos industriais com uma otimização dos recursos alocados. Estes são os principais objetivos, em que recorremos ao quality by design, que se traduz numa abordagem sistematizada do desenvolvimento do produto que proporciona uma compreensão integrada desse produto e do seu processo, com análise de risco envolvida e gestão de todo esse risco ao longo do ciclo de vida do medicamento. Por norma, esta abordagem é aplicada a um novo medicamento/produto. E o que estamos a fazer de inovador neste projeto é aplicar esta abordagem retrospetivamente, ou seja, a produtos que já estão no mercado, mas que não tiveram essa abordagem aplicada (por ser uma abordagem recente) no seu processo de desenvolvimento. Ou podem até ter tido, mas com os dados industriais gerados posteriormente faz todo o sentido revisitar e completar a abordagem em prol da otimização do processo.

E como foi o processo de recolha de dados em contexto industrial? O que procuraste recolher?

Foi um processo desafiante. Fala-se muitas vezes dos desafios do tratamento de dados, mas a recolha é o primeiro desafio, principalmente porque é necessário perceber que tipo de dados devemos recolher. E para dar resposta a este primeiro desafio, no início do meu projeto estive na fábrica da Bluepharma para falar com o máximo de pessoas quanto possível, desde operadores de fábrica a supervisores de produção. Fui também aos laboratórios, ao armazém e interagi com colaboradores na área da Garantia da Qualidade, Compliance do Produto e Assuntos Regulamentares para tentar perceber todo o circuito do medicamento que estou a estudar e todas as variáveis que podiam afetar o seu processo de produção. Foi um processo de recolha multidisciplinar e acho que a recolha de dados deve ser feita assim, especialmente quando estamos perante um objeto de estudo com tanta variedade de informação.

Relativamente ao que acabei por recolher, são dados relacionados com as matérias-primas, com o processo de fabrico, com o processo de embalamento e de armazenamento do medicamento. Alguns dados foram facilmente acedidos, mas em alguns casos foi preciso extraí-los de equipamentos ou ir a arquivos, o que acabou por tornar todo o processo um pouco moroso. Esta recolha enfatizou também a importância de, no futuro, se continuar a promover a centralização e disponibilização digital da informação, permitindo uma integração proativa dos dados dos processos – indústria 4.0 –, que facilite outro tipo de análise de dados, a nível industrial, mas também para a academia em geral, permitindo perceber cada vez melhor todo o processo do medicamento. 

Estás a frequentar um doutoramento que tem uma grande ligação à indústria. Como é que funciona o programa doutoral?

O que chamou a minha atenção para este programa doutoral foi precisamente o facto de aliar a academia e a indústria. Acho que se assim não fosse não teria ingressado neste doutoramento, porque queria muito ter esta componente mais prática e ligada à indústria presente. Aliciava-me muito a parte da academia, de ir mais além e investigar, mas foi a fusão com a indústria que me fez candidatar a esta bolsa de doutoramento.

É um programa relativamente recente, que envolve várias empresas – no meu caso, a Bluepharma – em que o projeto de doutoramento é sempre desenvolvido em colaboração com uma empresa, respondendo a uma necessidade ou uma expectativa que a empresa tem e que no seu quotidiano, por vezes, não surge a oportunidade de tratar. E através deste programa doutoral, há uma pessoa que acaba por ficar alocada a essa investigação que é necessária na empresa. Achei o programa muito interessante por ter este ponto de vista e por aliar estas duas dimensões, a academia e a indústria.

À semelhança de outros doutoramentos, neste programa temos sempre um orientador científico, que coordena toda a vertente científica, mas temos também a figura do supervisor empresarial, que é a pessoa que coordena os nossos trabalhos e nos apoia na empresa para assegurar também o progresso do projeto de investigação.

Sendo o projeto desenvolvido a partir de dados de produtos da Bluepharma, como tem sido pensado e considerado o potencial de replicação por parte de outras empresas?

Essa tem sido uma preocupação ao longo de todo o projeto. Procurarmos sempre conseguir ter uma vertente prática que seja útil para o produto que estou a trabalhar e para a empresa e que, ao mesmo tempo, possa ser reprodutível para outros produtos e também pela indústria farmacêutica em geral.

Na publicação de artigos para partilhar o que estamos a desenvolver, a reprodutibilidade tem sido também sempre uma preocupação. E como as ferramentas que estamos a desenvolver têm alguma complexidade, tentamos desconstruir todo o processo. Isto para procurar que sejam práticas na utilização na realidade industrial, para que não fiquem na gaveta e para que possam, efetivamente, ser utilizadas para outros produtos que já estão disponíveis no mercado e nos quais se pretende revisitar a estratégia de produção para melhorar a sua eficiência. Construímos matrizes de análise de risco, utilizamos técnicas estatísticas de seleção de todas as variáveis que conseguimos sinalizar e que são importantes para construirmos os modelos matemáticos que traduzem os processos. Todos estes passos são reportados da forma mais fiel quanto possível e procuramos sempre explicar como é que realmente podem ser aplicados, quer a nível interno (quando passamos a informação às equipas da empresa), quer pela comunidade científica. O que procuramos sempre é que o resultado final que apresentamos seja simples e aplicável, mesmo que o processo tenha sido complexo.

Sentiste que a tua presença na empresa fez a diferença, nomeadamente para pensar de forma diferente alguns processos?

Acho que sim. Tentei sempre reunir com as equipas e as próprias equipas já começavam a chamar-me para acompanhar determinados processos, como reuniões com fornecedores. Pediam a minha opinião e dei muito valor a este envolvimento que me permitiram. Ao longo do projeto, houve ferramentas que fui estudando que acabaram por não ser aplicadas – é um processo que faz parte de fazer investigação –, mas acabei por transmitir esses conhecimentos às equipas e estão a ser usadas para outras questões internas para as quais se revelaram uma mais-valia. Ao longo do tempo que passei na empresa, tive sempre o cuidado de ir partilhando o que estava a fazer junto de todas as equipas que estão diariamente a trabalhar nos processos que estudei, para que o que estava a ser desenvolvido fosse sempre devidamente contextualizado. Todo o tempo que passei na fábrica, no laboratório e no armazém foi muito importante para o meu projeto de doutoramento, sentindo o interesse e a vontade de colaboração das equipas neste processo.

Como é que surgiu o teu interesse pela área das Ciências Farmacêuticas?

Segui a área de Ciências no ensino secundário, porque gostava muito de Biologia, especialmente da vertente que envolvia a área da Saúde, e gostava também de Química. Acho que as duas áreas se encontraram no meu caminho quando escolhi este curso. E foi quando vim fazer uma visita à Faculdade de Farmácia que fiquei esclarecida sobre o rumo a seguir. Tive também uma professora de Biologia – Isabel Paiva –, que me incentivou a seguir Ciências Farmacêuticas depois de ter partilhado com ela essa possibilidade. Acho que sempre tive perfil para me enquadrar nesta área, pelo que a decisão foi natural, mas estas influências foram realmente decisivas.

Durante o curso de Ciências Farmacêuticas, sempre estive muito aberta a todas as possibilidades de carreira. Não posso dizer que sou aquela pessoa que desde sempre sabia o caminho a seguir. No fundo, fui dando oportunidade de descobrir todas as áreas a partir das disciplinas que fui tendo. E foi isso que me fez perceber, em conjunto com alguns estágios que realizei, o que gostaria de vir a fazer. O meu interesse maior acabou por se focar sempre na indústria e na área regulamentar. Sempre gostei de trabalhar na parte regulamentar da indústria, por sentir que estava a dar uma contribuição efetiva para uma atividade que se traduz muito diretamente na garantia dos requisitos de um medicamento seguro e eficaz para a população. E a investigação esteve também sempre presente e sempre me fascinou, por tornar possível ir sempre um bocadinho mais além, por dar a oportunidade de entender coisas que ainda não foram explicadas. E essa adrenalina sempre me entusiasmou muito! Sempre gostei muito destas duas vertentes. Comecei pela indústria e pela parte regulamentar e acabou por surgir a oportunidade de fazer um doutoramento que, envolvendo a indústria, acabou por ser ouro sobre azul.

E como é que surge a possibilidade de trabalhar na área da regulamentação de medicamentos?

Durante o decorrer do curso sempre pensei que poderia gostar de muitas coisas. O curso de Ciências Farmacêuticas é um curso com diversas saídas profissionais e vamos tendo essa perceção durante todo o percurso. Acho que foi mais ou menos no quarto ano, quando comecei a ter disciplinas que incidiam na regulamentação, que comecei a perceber que gostava da área. E gostava pela importância que assume no desenvolvimento de fármacos. Isto porque podemos ter, a nível clínico, o melhor produto do mundo, mas se não garantirmos que, desde o início, tivemos em conta todos os requisitos para a sua entrada no mercado podemos falhar redondamente e não cumprir o que é necessário. Eu vejo a regulamentação como uma forma de orientar o desenvolvimento e garantir posteriormente a melhoria contínua do medicamento, de um cosmético, de um dispositivo médico – no fundo, de todos os produtos associados à área da saúde – garantindo, sempre, que há a tal segurança e eficácia que a sociedade espera do trabalho dos farmacêuticos. É uma área basilar que orienta depois todas as outras e garante esses pressupostos que nos orientam durante todo o curso: garantir sempre a segurança do doente e a eficácia do medicamento.

Quais têm sido os maiores desafios do processo de construção de um projeto de doutoramento?

O desafio macro que destacaria é a interdependência de todas as tarefas. Por vezes, desenvolvemos determinada tarefa a achar que vamos ter determinado resultado e esse resultado não surge. E, nestes momentos, há o grande desafio de estarmos predispostos para uma gestão dinâmica, percebendo que as coisas nem sempre vão correr como esperamos. Esta imprevisibilidade faz sempre parte do processo de investigação e devemos estar preparados para estas situações.

Diria também que, do ponto de vista da gestão e análise de dados, todas as áreas do saber, sobretudo da área da Saúde e das Ciências Sociais, deveriam ter presentes na sua formação estes processos de análise de dados. Certamente que no futuro os dados vão estar cada vez mais presentes em todas as investigações, em várias vertentes da sociedade, e extrair o máximo deles é algo que faz já sentido e que vai fazer ainda mais sentido no futuro. E ter mais familiaridade com as ferramentas de tratamento e análise vai permitir-nos, como doutorandos de distintas áreas, ter mais plasticidade e espírito crítico para lidar com dados.

Sobre o desafio de fazer um projeto que concilia investigação e indústria diria que passa, acima de tudo, por termos um trabalho consequente, que vá, de facto, ter algum impacto na realidade industrial.

Gostarias de partilhar algumas dicas com os/as estudantes que estão também a desenvolver um projeto de investigação?

De uma forma geral, diria a quem está no início que não podemos querer interligar os pontos olhando para o futuro, como dizia Steve Jobs. Ou seja, conseguimos interligá-los olhando para o passado e para a construção no presente. Às vezes, há uma ansiedade de querermos resultados no imediato. E há também a expectativa de que as coisas vão acontecer num determinado momento, mas nem sempre isso acontece. E, por isso, precisamos de perceber que um projeto de investigação é uma construção constante e precisamos de ter calma e clareza para perceber que estamos a construir os pontos que, no futuro, vamos ser capazes de interligar. Pode não ser no imediato, mas temos que confiar no nosso trabalho.

Outro conselho que gostaria de deixar diz respeito ao isolamento do doutorando. Apesar do doutoramento ser um processo muito autónomo, devemos procurar não nos isolar e procurar outros colegas de doutoramento e também atividades dirigidas a doutorandos que são promovidas pela Universidade de Coimbra. São oportunidades boas para conhecer colegas de outras áreas, para criar pontes e apostar na interdisciplinaridade que também é importante na investigação. E, em conversas simples, os colegas podem ajudar-nos com colaborações ou ideias que podemos ainda não ter ponderado ou sequer pensado. Acho que a procura de novos contactos e da multidisciplinaridade do projeto é também muito importante. 

Produção e Edição de Conteúdos: Catarina Ribeiro, DCOM e Inês Coelho, DCOM
Fotografia: Paulo Amaral, DCOM 
Edição de Imagem: Sara Baptista, NMAR





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