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Maio pardo e ventoso faz o ano farto e formoso…

No âmbito Do Projeto dar Corpo a Ideias, o tema é... Maio pardo e ventoso faz o ano farto e formoso…
22 março
Foto da Feira dos Estudantes datada de década de 70, do séc. XIX (col. Alexandre Ramires) in Passado ao Espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia.
Foto da Feira dos Estudantes datada de década de 70, do séc. XIX (col. Alexandre Ramires) in Passado ao Espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia.
© Universidade de Coimbra

Por Ana Maria Bandeira, Arquivo da Universidade de Coimbra

A existência de uma Feira dos Estudantes está documentada desde os primórdios da instalação da Universidade em Coimbra. Os Estatutos da Universidade, de 1597, referem-se a uma “feira franca que se faz na praça dos estudantes”. O lugar que adquiriu o seu próprio nome – Feira dos Estudantes – no séc. XVI, ainda hoje existe, no largo frente à Sé Nova de Coimbra.


Foto da Feira dos Estudantes datada de década de 70, do séc. XIX (col. Alexandre Ramires) in Passado ao Espelho. Máquinas e imagens das vésperas e primórdios da Photographia.

© Universidade de Coimbra

Felizmente, sobreviveu no tempo um volume dos almotacés da feira, com o preço dos géneros ali vendidos (1796-1809). Os almotacés eram sempre doutores ou graduados na Universidade, que eram eleitos para o cargo, para taxarem os preços dos produtos vendidos e verificarem a qualidade dos mesmos.

É esse volume que podemos consultar, para conhecer o que a Natureza produzia ao longo das diversas estações do ano e que géneros alimentares existiam na feira, sejam os legumes, as frutas ou mesmo o peixe. Assim, em maio e junho de 1804 (Fig. 1) podemos ver o registo dos preços das ervilhas (tortas e direitas), as favas, o feijão verde, mas também o ruivo, a pescada, o cação, a tainha, a raia, a sardinha, o robalo, as enguias, etc. Entre maio e julho, surge sempre o registo das cerejas, cuja produção, na estação própria, certamente trazia à feira o fruto tão saboroso, havendo também a designação de “cereja preta”.

Os adágios populares espelham bem esse devir do tempo e a passagem dos meses e estações do ano, como o que escolhemos para introduzir um exemplo dos alimentos nos meses de final de ano: em novembro, prova o vinho e semeia o cebolinho.

A informação sobre a venda, em 29 de novembro de 1804, de “penduras de uvas brancas” também identificadas como “uvas de dependura”, diz respeito às uvas que, fora da estação própria, depois da vindima, se podiam conservar, dependuradas, para se consumirem nos meses de setembro a dezembro. Assim como se referem as “uvas secas” ou passas de uvas. Quanto a outra fruta, saboreavam-se as “maçãs doces da Beira” e a “fruta doce da Beira” (v. dias 29 de novembro e 13 de dezembro de 1803). Também a castanha, fora da sua estação, se poderia consumir seca. E aí está, a designação “castanha longal seca”, tal como a castanha rebordã e a castanha longal, vendidas em abril ou em junho, certamente com outras formas de conservação.

Os testemunhos dos hábitos alimentares da população estudantil, e de todos os docentes e funcionários da Universidade que poderiam abastecer-se na feira, são um interessante tema de estudo, existindo, felizmente, estas fontes documentais que atestam a diversidade de produtos, em cada estação.

Os queijo e paios do Alentejo, esses não respeitam qualquer estação e, pela sua qualidade, estão presentes ao longo do ano, com registos de preços, desde 1796, sem tirarem o lugar aos “queijos do Sabugueiro”, pela forma como, repetidamente, surgem registados.


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