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O achatamento cognitivo da curva não é suficiente

28 abril

Art Pilacinski e Jon Walbrin

Investigadores ProactionLab 

Tradução Daniel Ribeiro

Investigador ProactionLab 


O achatamento cognitivo da curva não é suficiente. O viés do crescimento exponencial e a perceção de risco durante o estado de emergência da COVID-19.


O crescimento exponencial tornou-se recentemente numa das expressões matemáticas mais badaladas dos últimos tempos. Como mostra o Google Trends, o interesse público (medido pelo número de pesquisas no Google) no termo "curva exponencial" aumentou drasticamente em março de 2020, quando os primeiros casos da COVID-19 foram relatados na Europa, tendo se verificado de seguida um aumento acentuado de casos num curto espaço tempo. O termo em si refere-se a um aumento de um determinado valor que segue uma curva geométrica onde o valor atual é exponenciado – ou seja, duplicado - a cada intervalo de tempo. Assim sendo, mesmo que o crescimento comece com números muito baixos e assim permaneça por algum tempo, estas mudanças acabarão por atingir um ponto de viragem, a partir do qual os números crescem de forma muito significativa. Desta forma, se uma doença começasse apenas com um só caso e se o número de doentes duplicasse a cada dia, seriam apenas necessárias pouco mais de três semanas para infetar toda a população de Portugal. Por esta razão, até o grande escritor e filósofo francês Albert Camus observou no seu romance "A Praga" que a natureza exponencial das epidemias é o pior cenário possível, uma vez que exige que todas as medidas preventivas sejam aplicadas o mais cedo possível, antes que a epidemia cresça demasiado e impossibilite os sistemas de saúde de a conter. No entanto, para os seres humanos, o crescimento exponencial é um pouco difícil de compreender de forma intuitiva. Como podemos verificar em diversos jornais económicos (1), a mente humana é vítima da falácia de se ver aos números reais e esperar que o aumento seja "linear" – isto é, que que aumente de forma constante e consistente ao longo do tempo – se os valores iniciais forem baixos. É o que acontece na atual pandemia: as mesmas razões que parecem ter motivado as pessoas a irem a jogos de futebol pouco depois de terem sido detetados os primeiros casos da COVID-19 na Europa. Também fizeram com que vários governos acreditassem que a baixa mortalidade nos países que conseguiram abrandar a taxa de propagação do vírus, pudesse ser usada como referência para estabelecer estratégias bastante arriscadas para lidar com o mesmo (2). Por outro lado, as notícias angustiantes de Itália levaram muitas pessoas a sobreestimar a situação (3) no início do contágio do vírus nos seus países. Isto resultou no pânico generalizado e em comportamentos irracionais, fazendo simbolicamente o papel higiénico tornar-se um dos recursos mais procurados na Europa. 

O enviesamento na estimativa do risco de contágio viral aparenta ter dois lados que fazem com que as pessoas sub ou sobreestimem o risco, dependendo da forma como olham para os dados disponíveis, focando-se no extremo inferior ou superior da curva exponencial. Aparentemente, a mente humana é mais propensa a interpretar mudanças como ocorrendo de forma gradual e linear. Esta característica básica da cognição humana tem implicações extremamente importantes para a compreensão do comportamento humano em casos de emergência cuja evolução siga uma curva exponencial, especialmente a tendência para subestimar o risco com base em números inicialmente baixos no início da pandemia. Este viés resultou na falsa sensação de segurança, inclusive na elaboração de políticas de saúde pública por parte de alguns países, que custaram muito mais vidas do que aquelas que poderiam ter custado. É por isso evidente que qualquer planeamento estratégico em tempos de crise deve ter em conta o comportamento e a cognição reais do ser humano, motivando ações preventivas em à luz deste comportamento, prevenindo vieses cognitivos na estimativa de risco. 

Por este motivo o Proaction Lab decidiu usar as informações apresentadas anteriormente e fazer o que normalmente faz: investigar como a mente funciona e como as pessoas compreendem o risco da situação atual. Vamos usar uma plataforma de inquéritos on-line para medir a perceção humana sobre a tendência de crescimento do risco bem como os comportamentos adotados durante a epidemia atual. Pretendemos fornecer dados em tempo real sobre como as pessoas entendem o risco associado às atividades diárias e preveem a mudança desse risco ao longo do tempo. Em seguida, vamos comparar os dados com as estatísticas epidémicas reais (por exemplo, o número diário de casos confirmados). Além disso, recolheremos dados sobre necessidades sociais que podem mudar com as medidas de isolamento social prolongado. Estas medidas prolongadas podem potencialmente modificar a perceção subjetiva do risco, por se saber que as pessoas quebram mais frequentemente as orientações de segurança (como o distanciamento social) quando as medidas preventivas têm uma longa duração. É importante referir que, ao incluir dados longitudinais, determinaremos as condições em que as campanhas informativas podem ser mais eficazes e quando a avaliação subjetiva do risco é afetada por outros fatores psicológicos (por exemplo, flutuações de humor relacionadas com o isolamento prolongado ou o distanciamento social). Estes dados ajudar-nos-ão a formular um modelo da dinâmica da perceção humana real e ajudarão a adaptar a comunicação de informação sobre a importância das medidas preventivas (como a decisão informada sobre a necessidade ou não de uma determinada medida preventiva). Em cooperação com os nossos colaboradores do CHUC, procuraremos também alargar a investigação atual aos profissionais de saúde e verificar se a sua perceção das tendências difere da perceção das tendências da população em geral, e como é que isso afeta a alocação de recursos e o planeamento estratégico. A nossa investigação explorará os princípios da cognição humana de modo a fornecer orientações importantes para a elaboração de políticas na gestão dos risco epidémico, agora e no futuro. Tendo em conta o número de animais que poderão transmitir várias doenças aos seres humanos e a facilidade com que se podem alastrar num mundo globalizado, o aparecimento da próxima pandemia será provavelmente apenas uma questão de tempo. É vital sensibilizar o público e os decisores políticos no sentido de estarem preparados para tal. 

References: (1) Levy & Tasoff (2017) Exponential-growth bias and overconfidence. https://doi.org/10.1016/j.joep.2016.11.001 (2) Boudry (2020) A strange paradox: the better we manage to contain the coronavirus pandemic, the less we will learn from it. https://theconversation.com/a-strange-paradox-the-better-we-manage-to-contain-the-coronavirus-pandemic-the-less-we-will-learn-from-it-135268 (3) Poletti et al. (2011) The effect of risk perception on the 2009 H1N1 pandemic influenza dynamics. 10.1371/journal.pone.0016460