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Distância física sim. Distância social não.

20 abril

Joaquim Pires Valentim

Professor da Universidade de Coimbra (Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação)

A expressão que se impôs de distância social é infeliz. Assim como são infelizes outras como isolamento social ou distanciamento social. Aquilo que pretendemos é assegurar uma distância física entre as pessoas que evite a propagação da malfadada COVID-19. Este isolamento acarreta uma profunda pobreza da nossa vida individual e colectiva. Disso já ninguém tem dúvidas. Mas isso não quer dizer que devemos procurar isolarmo-nos socialmente, nem distanciarmo-nos socialmente dos outros, ou até rejeitar o Outro. Bem pelo contrário. Estes tempos de medo e de ansiedade também podem ser tempos para fortalecer os laços sociais, a entreajuda, a solidariedade e a proximidade social, em especial, usando os meios que hoje nos permitem fazer isso. É óbvio que, fechados em casa, ficamos mais isolados socialmente. Se este é um tempo que nos isola, também nos aproxima ao mostrar como este vírus atravessa as fronteiras que nos separam. Numa situação de destino comum (estamos todos sob a mesma ameaça) e também de interdependência (se eu ficar em casa, protejo-me a mim e protejo os outros; se eu sair, posso ser contaminado e posso contaminar os outros), como é o caso agora, não é difícil criarmos um sentimento de identidade colectiva, de “estarmos todos no mesmo barco”. Motivo para não pedirmos “distância social”, mas para aproveitarmos os efeitos benéficos desse sentimento nos esforços, a um tempo individuais e colectivos, para lidar com a pandemia. Tanto mais que as pessoas ficam confinadas fisicamente, muitas vezes em pequenos espaços, em situações familiares que nem sempre são feitas de relações harmoniosas. Contrariamente a algumas velhas ideias, a investigação demonstrou que quando os grupos se isolam, ficando encerrados num universo mental e social, as más decisões, a tirania e os sentimentos de depressão podem facilmente acontecer. Mais uma razão para abrir socialmente esses espaços de confinamento familiar através dos diferentes meios tecnológicos que hoje temos ao nosso dispor. E um problema sério é que nem todos dispõem de acesso a esses meios, nem os dominam da mesma forma.

É infeliz pedir distância social até porque nestes casos de vírus, contágios e pandemias, não é preciso pedi-la para que ela se produza. Foi o “vírus estrangeiro” de Trump, foi a fanfarronice de Bolsonaro sobre a imunidade do povo brasileiro, foi o afastamento dos portugueses dos supermercados chineses e das pessoas asiáticas na rua e nos transportes públicos quando começaram a chegar as primeiras informações sobre a situação em Wuhan. Isso sim, é distância social. É o vírus “deles”, que “nós” não temos. Desde longa data, as doenças infecciosas alimentam processos de afastamento e de rejeição do Outro, nomeadamente pela sua associação à xenofobia, à rejeição dos imigrantes. Muitos ocidentais temem hoje “as doenças”, quando viajam para os trópicos, ou quando as associam a imigrantes. A mortandade com que as doenças dos europeus dizimaram povos pode parecer-lhes coisa estranha, ao mostrar, quase em espelho, temores desse tipo. Como na breve história, contada por Olga Tokarczuk (em Viagens), sobre os habitantes de uma ilha em que, “após o pânico mundial por causa da BES, a doença das vacas loucas”, a impureza de viajar para a Europa nunca mais saía do sangue dos habitantes. Ao longo de diferentes estudos, Hélène Joffe mostrou como esses processos psicossociais de afastamento do Outro se produzem tão facilmente. Processos que um dos seus títulos (neste caso, a propósito da SIDA) sintetiza muito bem: “Eu não, o meu grupo não”. Ora este coronavírus tem a característica de atravessar sem problemas fronteiras nacionais e culturais, pondo a ridículo as ideias xenófobas a esse respeito (como o trumpiano “vírus estrangeiro”). Isso deveria ser o bastante para refrearmos processos de distância social, para não pormos o Outro a distância social nesta pandemia. Mas não é o caso. De uma forma insidiosa esses processos mantêm-se activos. Há muitas linhas por onde quebrar aquele sentimento de “destino comum”. As formas de pensamento mágico que tão bem se alimentam das ideias de contágio e de impureza não deixam de estar em funcionamento nesta pandemia, mesmo em sociedades e indivíduos fortemente escolarizadas. Mesmo quando as evidências não permitem apoiar essas ideias elas persistem. Através desses processos, adapta-se de forma camaleónica a ideia de “eu não, o meu grupo não”. São os outros: os estrangeiros, os mais velhos, os mais doentes, os mais frágeis, aqueles que não tomaram as devidas medidas de protecção, de “distância social” (os que “não se protegeram”, os que “não tiveram cuidado”). Tanto mais que as desigualdades também se manifestam nas formas de lidar com o vírus e nas suas consequências. Não é a mesma coisa fazer “isolamento” numa mansão com piscina e outras comodidades ou num minúsculo apartamento dos subúrbios com pouca luz natural. Não é a mesma coisa fazer “isolamento” com abundantes recursos económicos ou tendo perdido o salário por causa da pandemia e sabendo que o sítio onde trabalhava já não volta a abrir. Por isso, não precisamos de distância social.

Mas não precisamos de distância social também porque nestas alturas (e nas outras) é com os outros que conseguimos ser melhores. A psicologia social já fez cair a ideia de que nos grupos, inevitavelmente, nos tornamos piores. Pode até ser, mas também nos podemos tornar melhores. Depende daquilo que nos liga. Entre outras coisas, depende das normas e dos valores desses grupos. Outra coisa que sabemos é que os laços sociais, não só nos ajudam a resistir, como estão associados a melhores indicadores de saúde e de bem-estar. Como recordam dois psicólogos sociais belgas (Olivier Klein e Vincent Yzerbyt) num recente artigo publicado em The conversation sobre os laços sociais e a COVID-19 (a este respeito, veja-se também o capítulo 3 do pequeno livro de divulgação de Maria Luísa Lima Nós e os outros: o poder dos laços sociais, 2018, Ed. FFMS), a falta de integração social e o isolamento são factores de risco de mortalidade bem maiores que o que geralmente se pensa. Podem ser um risco tão grande ou maior do que o tabaco, a inactividade física, ou a obesidade.

Por isso, tal como a velha mãe de uma velha canção de Sérgio Godinho também eu “não quero dar-te conselhos”, e também, tal como ela, acabo por dá-los: façam tudo menos distância social. Façam distância física e proximidade social.

Nota: Texto escrito de acordo com a antiga ortografia.