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Registos Iconográficos da Amazónia do Século XVIII

Por Carla Coimbra Alves, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra



MCUC Desenhos

Ainda que já muito se tenha escrito sobre a primeira expedição científica realizada na Floresta Amazónica, promovida pela coroa portuguesa e protagonizada por Alexandre Rodrigues Ferreira às capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuyabá (1783- 1792), outros protagonistas desta extraordinária viagem merecem inquestionável reconhecimento histórico pelo excecional trabalho de divulgação científica. Para além de Agostinho Joaquim do Cabo, um jardineiro botânico que incansavelmente identificou milhares de espécies vegetais então recolhidas, dois outros homens merecem o nosso destaque.

José Joaquim Freire e Joaquim José Codina são os desenhadores-riscadores que integraram a equipa de Ferreira e que com ele percorreram cerca de 39000 kms em inóspitos territórios então pertencentes a uma das mais importantes colónias portuguesas, o Brasil.

Ambos formados na Casa do Risco e de Gravura do Real Gabinete da Ajuda, em Lisboa, foram autores de milhares de estampas que, numa época em que a fotografia ainda havia de tardar, revelaram ao mundo as riquezas naturais da Amazónia. É certo que a prioridade era o registo iconográfico dos exemplares de História Natural, mas como poderiam estes homens deixar de registar a imagem dos ameríndios com que se foram cruzando, os seus usos e tradições impregnados de exotismo?



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 Fig. 1Estampa de índios jurupixunas. Amazónia,        1787. Joaquim José Codina. PT-MUL-RMJBA-TC-02-   0006. In Desenhos de gentios, animais quadrúpedes,          aves, anfíbios, peixes e insetos da Expedição Filosófica    do Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Originais. Volume 1.  Arquivo Histórico dos Museus da   Universidade de Lisboa. Museu Nacional de História Natural e da Ciência, Universidade de Lisboa | PRISC. Fig. 2 - Máscara Jurupixuna. Amazónia, 1783-1792. MCUC, ANT.Br.136. Imagem de Carlos Barata. Coleção de Antropologia do Museu da Ciência da Universidade de Coimbra.


A informação histórica fornecida pelas estampas pode ser extraordinariamente poderosa. Esta, em particular (Fig.1), permitiu a identificação da proveniência de uma coleção com mais de três centenas de artefactos (Fig.2). Em boa verdade, durante muitas dezenas de anos, parte do espólio etnográfico recolhido por Alexandre Rodrigues Ferreira, vindo do Real Museu da Ajuda para a Universidade de Coimbra em 1806, não estava identificado como pertencente à recolha feita por Ferreira.

É apenas em 1981, quando a Professora Tekla Hartmann, da Universidade de São Paulo, visita o então Museu e Laboratório Antropológico da Universidade de Coimbra e cruza o seu olhar com uma das máscaras brasileiras do século XVIII, que é feita a identificação daquele conjunto de artefactos como pertencentes à recolha levada a cabo por Alexandre Rodrigues Ferreira. De facto, Tekla Hartmann, que tão bem conhecia o acervo iconográfico da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, não teve qualquer dúvida em associar esta máscara àquelas aguarelas desenhadas por José Joaquim Freire e Joaquim Codina.

Para além da estética e detalhe de cada um dos desenhos, a inegável importância histórica desta coleção é um excelente motivo para a divulgarmos e falarmos destes homens, menos conhecidos, mas cujos excelentes contributos merecem registo.