Investigação

Fóssil de "gafanhoto" primitivo descoberto em São Pedro da Cova

Restos fossilizados de um gafanhoto pré-histórico foram encontrados em rochas com 300 milhões de anos na região de São Pedro da Cova, em Gondomar. O fóssil deste gafanhoto primitivo foi encontrado em 2006 pelo paleontólogo Pedro Correia, investigador doutorado do Centro de Geociências (CGeo) da Universidade de Coimbra. O estudo teve também a colaboração do André Nel, um paleoentomólogo francês do Museu Nacional de História Natural de Paris.

01 may, 2022≈ 4 min read

O novo fóssil “Lusitadischia sai” agora descrito para a ciência corresponde a um grupo de “insetos saltadores” primitivos da Archaeorthoptera que existiram no final do Paleozóico.

A Archaeorthoptera é uma superordem difundida e diversificada, que compreende a atual ordem Orthoptera (um grupo coroa que contém diversos conjuntos de taxa compreendendo gafanhotos, grilos e outros insetos intimamente relacionados), as ordens extintas Caloneurodea, Titanoptera e Cnemidolestodea, além de uma série impressionante de géneros não colocados e espécies em seu grupo tronco. Durante o final do período Carbónico e durante o período Pérmico, o grupo teve uma diversidade notável, especialmente se levarmos em conta o baixo potencial de fossilização de suas partes do corpo. Na Europa, Archaeorthoptera está bem representado no Carbónico da França e da Alemanha. No entanto, este clado permanece pouco conhecido na Península Ibérica, devido à raridade dos registos até ao momento.

Apenas seis espécimes fósseis de arqueortópteros são conhecidos do Gzheliano do Pensilvánico Superior (com idades com compreendidas entre os 303 e os 299 milhões de anos) de Espanha e Portugal. A diversidade representada por tão poucos registros espelha bem a dificuldade de encontrar fósseis do grupo na Península Ibérica. Isso não significa que este e outros insetos não fossem abundantes e diversificados no Carbónico desta região, mas sim que a limitação de seu registo fóssil é um grande obstáculo para tal descoberta.

Lusitadischia sai é o segundo registo da familia Oedischiidae até agora conhecido para a Península Ibérica e volta a aumentar a (anteriormente considerada) baixa diversidade e demonstra que está certamente subestimada, devido não só ao limitado potencial de fossilização deste tipo de fauna pré-histórica, mas também à dificuldade, nas condições tafonómicas (de preservação), de encontrar e reconhecer esses raros achados paleoentomológicos.

O nome da nova espécie é dedicado ao nosso colega e amigo Artur Sá, paleontólogo e professor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Utad), pelo seu importante contributo na estratigrafia e paleontologia do Paleozóico inferior do sudoeste da Europa e norte de África e também na promoção e valorização do Património Geológico, Geoconservação e Geoparques.

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