Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Ciclo de Conferências “Pluralizando o Antropoceno II”

21 outubro
Gonçalo Santos
Gonçalo Santos
© DR

Gonçalo Santos do Centro de Investigação em Antropologia e Saúde (CIAS) da Universidade de Coimbra é o curador da segunda temporada de um Ciclo de Conferências em Serralves sobre o Antropoceno e os grandes desafios sociais e ecológicos do mundo contemporâneo

A publicação em agosto passado de um relatório escrito por especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas marcou as manchetes dos jornais em Portugal devido a uma série de previsões alarmantes para 2030 que pintam um cenário de crescentes incertezas ambientais e perturbações climáticas. Este relatório de mais de 3000 páginas inclui Portugal na lista de países europeus com mais vulnerabilidades, mas seria um erro circumscrever a atual crise ambiental e climática a uma análise à escala nacional. A única forma de fazer frente aos desafios do Antropoceno, ou a “era dos humanos,” como se está cada vez vez mais a designar a presente era de crescentes incertezas ambientais antropogénicas, é adoptar uma perspectiva global. A atual crise ambiental e climática resulta de uma série de desenvolvimentos sociais, tecnológicos, e económicos que ocorreram em diferentes partes do mundo depois da revolução industrial e em particular a partir da segunda metade do século XX com a aceleração da globalização. É que se o sistema de produção e consumo da economia capitalista mundial contemporânea trouxe muitos benefícios materiais para algumas pessoas e populações, ele também engendrou uma dinâmica de devastação ambiental sem precedentes e uma conjuntura de alterações climáticas com efeitos preocupantes. Há muitas pessoas que continuam a negar a existência de qualquer crise ambiental e climática, mas é cada vez mais difícil ignorar os debates em curso sobre destruição ambiental, mudanças climáticas, e a possibilidade de uma sexta extinção de massa que poderá pôr em causa a sobrevivência humana no planeta. Estes são os grandes desafios da era em que vivemos, e a presente década—a terceira do século XXI—será decisiva para que se consigam desenvolver respostas globais capazes de ultrapassar esta situação de crise e desastre iminentes e criar novas visões de esperança e de justiça.

O antropólogo Gonçalo Santos, docente do Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra, e diretor da rede de pesquisa internacional Sci-Tech Asia, tem estado a estudar as grandes transformações sociais e ecológicas na China contemporânea, e esta experiência de pesquisa fora de Portugal e da Europa levou-o à realização de que a atual crise ambiental e climática é um problema global que requer soluções globais e que face à apatia das classes dirigentes e das instituições governamentais e intergovernamentais mundiais cabe à sociedade civil internacional a responsabilidade acrescida de aprofundar a crítica ecológica do sistema económico mundial e organizar fóruns de debate sobre modelos de organização económica mais sustentáveis. Foi esta convicção que levou Gonçalo Santos a lançar a primeira temporada do colóquio “Pluralizando o Antropoceno” no início de 2021, e o sucesso desta primeira temporada levou-o a conceber uma segunda temporada, uma vez mais em parceria com a Fundação de Serralves, a rede de pesquisa Sci-Tech Asia, o Centro de Investigação em Antropologia e Saúde, o Departamento de Ciências da Vida e o Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra.

“Pluralizando o Antropoceno II” contará com a presença de figuras bem conhecidas nas humanidades e nas ciências que têm estado a trabalhar sobre questões de política e história ambiental em contextos diversos. Os desafios sócio-ambientais que os portugueses ou os chineses estão a experienciar na era do Antropoceno são diferentes dos desafios enfrentados pelos povos da Amazónia. O uso do termo Antropoceno para denominar a atual era de incertezas ambientais antropogénicas crescentes abriu um novo campo de conversas multidisciplinares sobre o futuro das relações entre seres humanos e meio ambiente no século XXI, mas também gerou um entendimento monolítico do Antropoceno como uma experiência humana unificada. Este enquadramento em redor de um paradigma de espécie universalizante tem um efeito excessivamente homogenizante. É que nem todos os humanos estão igualmente implicados nas forças que conduzem as crises ambientais contemporâneas, e nem todos os humanos são igualmente convidados para os espaços conceptuais onde estes desastres são teorizados ou onde respostas a estes desastres são formuladas. É preciso pensar nestas diferenças para prevenir uma intensificação das desigualdades já existentes, da mesma forma que é preciso pensar naquilo que nos junta no planeta como uma comunidade global de populações humanas com um destino comum.

 Se a primeira temporada de Pluralizando o Antropoceno ajudou a disseminar o conceito do Antropoceno em Portugal, esta segunda temporada procurará criar as condições para o estabelecimento de um fórum ambiente mundial. Cada palestra será seguida por uma conversa informal que será também aberta à participação ativa da audiência. O ciclo vai abrir com o antropólogo francês Philippe Descola, um dos mais famosos antropólogos contemporâneos, com uma palestra sobre o que ele chama a “antropização da terra” e o que correu mal nesse processo de expansão humana num planeta com recursos limitados. Seguir-se-á uma conversa com o historiador indiano Rohan D’Souza que vai levantar questões importantes sobre o quem ou o quê possui a capacidade de agir para fazer o que é necessário para reverter o processo de destruição ambiental que está a comprometer o bem estar de populações vulneráveis e das gerações futuras. Seguir-se-á uma palestra do próprio Gonçalo Santos e da antropóloga chinesa Jun Zhang, radicada em Hong Kong, que vão defender a ideia de que é nos vasos sanitários das casas de banho dos grandes centros urbanos mundiais e na cultura institucionalizada de descarga e esquecimento que molda o funcionamento destas tecnologias da vida quotidiana que nós vamos encontrar a melhor ilustração dos valores éticos que guiam as economias descartáveis contemporâneas e a presunção que o planeta tem recursos infinitos (neste caso, recursos hídricos infinitos). Seguir-se-á uma palestra da historiadora de arte Maya Kóvskaya que vai mostrar como a arte oferece um espaço para criticar o paradigma estético dominante da modernidade que coloca o “Anthropos” no centro do cosmos como mestre da natureza. Os conhecidos antropólogos Arturo Escobar e Marisol de la Cadena vão apresentar um manifesto “contra o terricídio,” mostrando como é possível conceber a defesa dos direitos da natureza de forma pluriversal. A socióloga americana Kate Crawford vai chamar a nossa atenção para os custos ambientais e ecológicos da mais recente revolução industrial assente na inteligência artificial e nas tecnologias digitais. Em Portugal, em particular, fala-se da transição climática e da transição digital como se fossem compatíveis uma com a outra, mas a verdade é que centros de produção tecnológica como Silicon Valley tiveram um papel importante na génese da atual crise ambiental e climática. Finalmente, na última palestra desta segunda temporada, o conhecido ativista e escritor Raj Patel vai propor uma nova forma de pensar sobre os grandes desafios socioambientais do Antropoceno, combinando abordagens marxistas com a nova disciplina da ecologia mundial.

Sete palestras, sete conversas, sete oportunidades para refletir sobre os desafios plurais e as escolhas civilizacionais que terão de ser tomadas num futuro muito próximo, já ao virar da esquina, na era do Antropoceno. Isto não são apenas ideias para adiar o fim do mundo, são ideias para ir além do fim do mundo.