Ofélia Paiva Monteiro: A elegância do saber
Texto de CARLOS REIS
| |
O desaparecimento de Ofélia Paiva Monteiro é uma perda irreparável para a universidade portuguesa e para quantos tiveram o privilégio de com ela aprender. Foi uma distinta humanista e uma grande romanista.
Uma distinta humanista porque, na docência e na investigação, Ofélia Paiva Monteiro olhou sempre a literatura como um motivo fecundo para refletir acerca da condição humana e da sua representação nos autores e nos temas que a ocuparam: o Iluminismo e Camilo Pessanha, Camões e Alexandre Herculano, Madame de Lafayette e Stendhal, Diderot e Victor Hugo, Eça de Queirós e, acima de todos, Almeida Garrett.
É bem sabido: Ofélia Paiva Monteiro foi a maior especialista de sempre que a obra garrettiana já teve. A profundidade da sua exegese consente que se diga que Garrett não foi o mesmo, depois dos trabalhos de Ofélia Paiva Monteiro. A sua vocação garrettiana provinha da leitura exaustiva dos textos e também de uma espécie de cumplicidade com o seu autor, como bem testemunharam quantos alguma vez tiveram o privilégio de a escutar. A tese A Formação de Almeida Garrett. Experiência e Criação (1972) é ainda hoje um trabalho de referência obrigatória, mesmo sabendo-se que as bases metodológicas em que assenta têm o sinal do tempo em que se inscrevem.
Para além disso, Ofélia Paiva Monteiro era uma romanista de grande envergadura, sustentada por extenso e diversificado conhecimento das literaturas portuguesa e francesa (aquelas a que dedicou o melhor da sua ação universitária) e também das literaturas espanhola e italiana. Esse conhecimento traduzia uma atitude intelectual que olhava o vasto campo das literaturas e das línguas românicas como um legado em que era forte o timbre cultural e civilizacional da comum matriz greco-latina.
Provinda de uma conceção de universidade moldada nos anos 50 e 60 do século passado, Ofélia Paiva Monteiro soube entender, com inteligência e tolerância, as mudanças que atingiram a instituição universitária nas últimas décadas. Dou testemunho disso mesmo, porque tive o privilégio de contar com a sua ajuda no grupo de investigação “Figuras da Ficção”; ali pudemos beneficiar da sua empenhada colaboração e da sua disponibilidade para a inovação, a par do muito saber que nela existia, sempre expresso com uma elegância intelectual que era uma inconfundível marca de água pessoal.
O legado de Ofélia Paiva Monteiro é exemplar e está bem representado naquele que foi o projeto da sua vida: a edição crítica das obras de Garrett que, até ao fim dos seus dias, coordenou e que se encontra em curso de publicação pela Imprensa Nacional. Tomo como evidência da relevância de um tal projeto a modelar edição das Viagens na minha terra subscrita pela grande garrettiana. Ofélia Paiva Monteiro estruturou-a por forma a enquadrar o magistral relato e o respetivo aparato de notas com textos prologais, com uma extensa introdução, com as notas do autor, com notas complementares e com anexos, indo muito além da (já de si complexa) fixação do texto.
O que aqui fica não é (nem poderia sê-lo) o balanço circunstanciado de uma vida dedicada à universidade, uma dedicação que talvez nunca tenha tido o devido reconhecimento público; a discrição com que Ofélia Paiva Monteiro estava na academia era pouco propícia a ser iluminada pelas luzes de uma ribalta que ela nunca procurou. Fica o exemplo – e não é pouca coisa. Se olharmos para aquele que foi o tal projeto da vida de Ofélia Paiva Monteiro, fácil se torna dizer, com destinatários certos: um tal projeto tem de ser continuado. Será essa a grande homenagem a render à Mestra.
(Texto publicado no Jornal de Letras, Artes e Ideias)