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Pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos afetam 15% das mulheres portuguesas no pós-parto

4 setembro
Ana Telma Pereira e António Ferreira de Macedo
Ana Telma Pereira e António Ferreira de Macedo
© Fotografia: © UC | Paulo Amaral

Uma “elevada percentagem” de mulheres apresenta “sintomas clinicamente relevantes” de perturbação obsessivo-compulsiva (POC) no período pós-parto. A conclusão é de um estudo realizado pelo Instituto de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), no âmbito do projeto “Screening, prevention and early intervention in perinatal psychological distress – effectiveness of a new program in primary healthcare”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Nos resultados da investigação destaca-se o facto de cerca de 15% das inquiridas terem pensamentos e comportamentos obsessivo-compulsivos de forma recorrente.

É Ana Telma Pereira, investigadora do Instituto de Psicologia Médica e primeira autora do trabalho, quem enfatiza a “elevada percentagem” de mulheres com “sintomas clinicamente relevantes” de POC identificadas no estudo “Postpartum obsessive-compulsive phenomena: a psychometric and epidemiologic study in a Portuguese sample” [que envolveu 212 participantes, recrutadas maioritariamente na Maternidade Bissaya Barreto (Coimbra) e entrevistadas no 6.º mês pós-parto]. No total, 74,1% das inquiridas registaram pelo menos uma obsessão (pensamento ou imagem repetitivo, como o receio de deixar cair o seu bebé) e 41,5% apontaram pelo menos uma compulsão (comportamento repetitivo, como verificar repetidamente o bebé enquanto ele está a dormir). Só 24,1% não reportaram quaisquer obsessões ou compulsões.

Estas obsessões ou compulsões não significam, por si só, que as inquiridas sofram de perturbação obsessiva-compulsiva – só 2,4% foram diagnosticadas como tal (o que distingue quem sofre de quem não sofre da doença não é o conteúdo dos pensamentos e comportamentos, mas sim o seu caráter repetitivo, intrusivo e perturbador da vida quotidiana). No entanto, todos os sinais podem servir de alerta. “É importante avaliar e detetar o mais atempadamente possível a presença de sintomas e os factores de risco em várias esferas da perturbação psicológica perinatal (como Perturbação Obsessivo-Compulsiva, depressão e ansiedade), até porque as consequências negativas não são apenas para a mulher, mas também para a descendência, podendo afetar o desenvolvimento dos filhos”, sublinha Ana Telma Pereira.

No estudo – premiado com o Best Poster Award no World Congress on Women’s Mental Health, promovido pela Associação Internacional para a Saúde Mental das Mulheres, e agora em fase de publicação –, o receio de deixar cair o bebé (49,5% das participantes), o medo de que ele morra durante o sono (49,1%) e o cuidado com a sua alimentação (47,2%) são apontados como as preocupações mais comuns. Verificar repetidamente o bebé enquanto ele está a dormir (25,9%), lavar ou limpar repetidamente as mãos (18,9%) e procurar informação acerca da gravidez, parto e bebés de forma excessiva (15,6%) são os comportamentos mais frequentemente registados. E 15,5% das inquiridas admitem gastar mais de uma hora por dia com estes pensamentos/comportamentos.

O trabalho conduzido pela equipa do Instituto de Psicologia Médica da FMUC foi o primeiro a propor e aplicar uma versão portuguesa da Perinatal Obsessive-Compulsive Scale, o único instrumento utilizado a nível internacional para avaliar os sintomas da POC tendo em conta o contexto específico do período perinatal. “Ainda não tinham sido estudadas outras versões para além da original (australiana). É um instrumento que nos vai permitir fazer uma avaliação rápida e válida dos sintomas, e sua gravidade e interferência, e do risco [de desenvolver Perturbação Obsessiva-Compulsiva] e está já a ser muito útil e bem aceite para fins clínicos e de investigação”, nota Ana Telma Pereira. Isso assume particular importância tendo em conta que, entre as doenças mentais comuns (como ansiedade, depressão e fobias), “a POC é a menos bem diagnosticada e a que leva mais tempo entre o primeiro sintoma e o pedido de ajuda”, sublinha António Ferreira de Macedo, diretor do Instituto de Psicologia Médica da FMUC e co-autor do trabalho.

Por isso mesmo, o objetivo final da equipa de investigação é continuar a desenvolver ferramentas (de avaliação e de intervenção) para melhor acompanhar as potenciais pacientes de POC durante a gravidez e o pós-parto. Em curso já está um ensaio clínico que testa a eficácia de um programa de intervenção em grupo, baseado em terapias cognitivo-comportamentais, com exercícios de mindfullness e auto compaixão – que é coordenado pela supervisora clinica do projeto, Mariana Marques. Para o futuro fica também a intenção de incluir os progenitores do sexo masculino nestas linhas de investigação. “É errado ficar com a ideia de que isto são coisas só das mulheres”, conclui Ana Telma Pereira.

UC - Rui Marques Simões