a carregar...

Perspectivas














Eduardo Lourenço e a “fuga extraordinária” de Portugal

O local escolhido para a conferência “Labirinto de Heranças” não poderia ter sido mais simbólico da representatividade de uma das ideias que Eduardo Lourenço identifica sobre a evolução da pátria portuguesa, a de um século XVIII como “celebração contínua de Portugal num certo mosteiro de si mesmo.” Uma consequência do ouro do Brasil, possível com o impulso de “fuga” que o mar despertou e que marca este recanto ocidental até hoje.

“A nossa história é sempre uma fuga extraordinária, para diante”, uma marca, “um sinal distintivo da aventura do pequeno Portugal no concerto de outras nações do Ocidente.” Na Biblioteca Joanina, no dia 31 de Janeiro, na conferência, com título alusivo à sua obra Labirinto da Saudade, que fechou o ciclo “Patrimónios de Influência Portuguesa”, o filósofo Eduardo Lourenço metaforizou a época das Descobertas que marcaria o país para sempre: “Portugal é essa barca, que se deslocou para outro sítio e que só regressará sem jamais regressar verdadeiramente no nosso tempo.” Tal viagem começou com a sedução pelo Atlântico, em que, “passado esse grande momento da história”, em que “Portugal está no Oriente e o Oriente é o nosso centro, já estamos no futuro, no futuro de nós mesmos, no futuro da própria Europa.” Portugal é hoje essa barca figurada, que procura as soluções para o seu presente e o seu rumo numa aglomeração política de nações europeias.

“E essa foi a grande visão d’ Os Lusíadas”, a epopeia enaltecedora da acção embrionária do sentimento do global, que fez do século XVIII português “o grande século das construções”, um momento “de esplendor histórico e cultural”, do qual a Biblioteca Joanina é exemplo. Tal passado foi revisitado pela Geração de 70 como “não muito positivo”, um período “sacristio, fechado sobre si mesmo.” Uma imagem que Eduardo Lourenço considera permanecer no imaginário português, “basta ler o Memorial do Convento.”

Tais revisitações são a evidência de que a pátria, além de uma “casa” e um “terreno”, construído ao longo dos séculos pela “sucessão de homens e mulheres”, é também “uma espécie de transcendência”, em que “o discurso sobre o nosso próprio país é o discurso sobre nós mesmos, não só como indivíduos, mas também como colectividade.” É nesse sentido que Eduardo Lourenço refere que “não há história verdadeiramente feita do passado para o presente. Há o que parece óbvio. Estamos sempre no presente e é nele que vemos, reinventamos, criamos e recriamos o passado e a história dos diversos ‘portugais’ que se sucederam ao longo do tempo.”

Ora, a esse período, reprovado pela Geração de 70, sucede-se aquele de que ela própria é reflexo. Eis que a ascensão da burguesia ocidental faz Portugal integrar-se “numa nova ordem das coisas”, no caminho para a Idade Contemporânea, impulsionado pelos ideais da Revolução Francesa, importando-se “a ideia de algum dia, este quadrado do Ocidente podia ser uma República.” Esse foi também o início de um período de extravasamento, com a vitória sobre as invasões francesas. Isto aconteceu porque “Portugal não estava sozinho neste mundo. Portugal nunca está sozinho” Foi ajudado pelos ingleses, que já o haviam acudido, com os franceses, na Guerra da Restauração. É um país caracterizado pela permanência de “um destino em suspenso.”

Afinal, colmata o filósofo, “o milagre da história portuguesa é a sua própria existência.”
Hoje, Portugal está com a Europa, conjuntamente com as nações com as quais já pelejou. E está numa Europa que, pela primeira vez, “não é o centro do mundo. É um espaço dentro de outros espaços. É confrontada com outras ameaças, outras possibilidades e identidades, convidada a responder aos novos desafios que representam as grandes nações emergentes.” Ora, é aí, concebe o filósofo, “que o nosso futuro tem de ser imaginado.” E afinal, esta busca pelo vindouro, inserido num destino colectivo de nações, que é a União Europeia, regressa a uma percepção original da condição lusa, a de que não estamos sozinhos. “Fomos os primeiros a iniciar a ideia de que nesse mundo, outro podia existir.” É essa noção que, agora, norteia a ponderação sobre o nosso futuro e o da própria Europa. “Para nós a história é o máximo de ficção”, colmata Eduardo Lourenço.

Por Dina Sebastião




Veja outra perspectiva


Eduardo Lourenço doa biblioteca pessoal à FLUC
O filósofo decidiu doar o seu espólio bibliográfico, relacionado com Filosofia e História das Ideias e da Cultura à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (FLUC). Nas próximas semanas, a biblioteca será trazida para Coimbra, num evento que se associará às comemorações do centenário da FLUC. Eduardo Lourenço já tinha oferecido uma parte dos seus livros à cidade da Guarda, ao Centro de Estudos Ibéricos. 

Pensamentos deixados na Joanina
“O século XVIII português foi o século das grandes construções. Uma celebração contínua de Portugal num certo mosteiro de si mesmo.”

“Para nós, a história é o máximo de ficção.”

“Não há história verdadeiramente feita do passado para o presente. Há o que parece óbvio. Estamos sempre no presente. E é nele que vemos, reinventamos, criamos e recriamos o passado, o que foi Portugal. É a história dos diversos ‘portugais’.”

“A nossa história é sempre uma fuga extraordinária para diante. (…) A fuga é uma marca, um sinal distintivo de aventura do pequeno Portugal no concerto das nações do Ocidente.”

“O milagre da história portuguesa é a sua própria existência.”

O filósofo
Ensaísta e filósofo português, Eduardo Lourenço nasceu em 1923, em Almeida, no distrito da Guarda.
É formado em Ciências Histórico-filosóficas, pela FLUC (onde foi professor entre 1947 e 1953), que lhe conferiu o grau de Doutor Honoris Causa.
É jubilado pela Universidade de Nice, tendo leccionado noutras universidades, como a da Baía, de Heidelberg, Montpellier e Grenoble.
A sua voz tem-se destacado pela abrangência, originalidade e racionalidade com que tem pensado Portugal e os portugueses.

Bibliografia