Este site utiliza cookies para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização. Ao navegar aceita a política de cookies.
OK, ACEITO

Disseminação de ciência: entrevista com os autores de 'Folias mitocondriais'

Livro lançado pela IUC trata o tema da energia produzida pelas células de maneira acessível e contribui para a comunicação de ciência aberta
10 agosto
Parte da capa do livro 'Folias Mitocondriais - uma breve viagem sobre a energia da vida'
Parte da capa do livro 'Folias Mitocondriais - uma breve viagem sobre a energia da vida'

Lançado em julho em acesso aberto pela Imprensa da Universidade de Coimbra, o livro 'Folias mitocondriais: uma breve viagem sobre a energia da vida' apresenta, para diversos públicos, a explicação sobre como produzimos energia para viver. 

A obra foi escrita pelos investigadores Anabela Marisa Azul, João Ramalho-Santos e Paulo J. Oliveira, com ilustrações de Rui Tavares. Direcionado para comunicar ciência e promover a cultura científica de modo aberto e acessível, o livro poderá interessar a professores, estudantes de vários graus de ensino, pessoas com doenças metabólicas, bem como a leitores com interesse em conhecer mais sobre a produção de energia na célula, tema que atravessa a vida de todos nós. 

Confira a seguir entrevista com os autores abordando a produção do livro, a importância e os desafios da disseminação de ciência e outros detalhes sobre a obra, como por exemplo o processo de criação das suas ilustrações. 

UC Open Science: A obra 'Folias Mitocondriais - Uma breve viagem sobre a energia da vida' traz informações sobre biologia celular, saúde e ciência em banda desenhada, com uma linguagem acessível ao público mais amplo, apesar de tratar de um assunto específico e detalhado. Quais os maiores desafios em criar esse tipo de conteúdo? Podem falar um pouco sobre o processo de escrita e como é o exercício de 'popularizar' os termos científicos?

Anabela Marisa Azul: O exercício começou com a seleção de aspetos relevantes sobre a estrutura e função das mitocôndrias, alguns eventos que marcaram avanços no seu conhecimento, incluindo a evolução e, a partir dela, a evolução dos seres vivos multicelulares. Depois de selecionada a informação científica, a história foi, sem dúvida, um dos maiores desafios. Neste caso, a obra gira em torno dos atributos funcionais das mitocôndrias para converter os alimentos em energia, depois utilizada pelas células para realizarem todas as atividades do nosso corpo. A história a partir de uma situação concreta permitiu-nos explorar conteúdos científicos e introduzir elementos associados a rotinas diárias para abordar circunstâncias que influenciam o funcionamento das mitocôndrias e a sua relação com o estado de saúde. A personagem principal, a Lara, tem um problema metabólico e decide mudar hábitos para melhorar a sua condição de saúde; interessa-se por saber o que são mitocôndrias e metabolismo. A personagem secundária, o Jorge, não reconhece os temas de conversa da amiga, pouco se importa, mas algo o faz rever a sua opinião... O carácter dinâmico da personagem da Lara reflete-se em várias (novas) rotinas ao longo da história. O detalhe de incluir reações que ocorrem nas mitocôndrias e interior das células reforça a natureza complexa dos processos ao nível celular e sua interdependência para manter o equilíbrio do corpo; outros elementos da narrativa procuram criar empatia e aproximar o universo da vida celular às ações do quotidiano.

Anabela Marisa Azul

UC Open Science: De onde vem o gosto dos autores por comunicar ciência para o público mais amplo, tendo em vista a vossa experiência e a publicação anterior de diversas obras nesse sentido?.

João Ramalho-Santos: A missão de comunicar ciência aos mais variados tipos de públicos não tem apenas a ver com gosto. É uma obrigação que todos os cientistas devem assumir, sobretudo numa era de fluxo acelerado de informação e, consequentemente, de notícias falsas, muitas delas relacionadas com ciência.

O desafio é transformar conceitos complexos de modo simples, mas não simplista, de preferência em co-criação com o público, de modo a incorporar outras formas de ver o mundo, e entender o modo como a informação é transmitida. Mas não nos podemos ficar apenas pelos materiais produzidos, mas tentar entender o que as pessoas de facto apreendem, e procurar melhorar cada vez mais o que conseguimos comunicar.

João Ramalho-Santos

UC Open Science: No caso do livro Folias Mitocondriais, a história é contada a partir da experiência de uma personagem que sofre com uma síndrome metabólica e resolve estudar o tema. De que forma o público mais amplo - como potenciais pacientes - pode beneficiar deste livro? Quais os principais públicos-alvo pensados para esta banda desenhada?

Paulo J. Oliveira: A história desta banda desenhada é contada a partir da experiência de uma personagem que sofre com uma síndrome metabólica, resolvendo embarcar numa jornada pela energia das células para poder estudar e compreender o tema. Para um público que possa sofrer destas mesmas patologias, esta obra é importante porque não só relata de uma forma clara a origem do seu problema clínico, como alerta para uma necessidade de um conhecimento assertivo sobre a sua condição, tratamentos e estilos de vida adequados e ao mesmo tempo contribuir para desconstruir o que ocorre cada vez mais, que é uma desinformação científica.

Mas o público-alvo não se esgota aqui. A obra contém informação científica que pode ser de muito valor para professores e estudantes de vários graus de ensino e para meros curiosos que pretendam apenas saber mais deste maravilhoso mundo da mitocôndria e sobre a necessidade de estilos de vida saudáveis.

Paulo J. Oliveira


UC Open Science: De que forma o suporte imagético da banda desenhada facilita a interação e a proximidade com os leitores? Existe um processo diferenciado para a ilustração de conteúdos mais específicos, da Biologia, por exemplo, em relação às ilustrações voltadas para o meio exclusivamente científico?

Rui Tavares: A minha formação de base é a Ilustração e o Design de Comunicação. Daí, a estrutura e funcionamento da célula e seus organelos, como a mitocôndria, ou eventos que ocorrem nas mitocôndrias, como o ciclo de Krebs, não estavam presentes no meu dia-a-dia. Assim que comecei a trabalhar nesta banda desenhada, colaborando ativamente com os investigadores (autores), comecei a aprender mais sobre Biologia Celular. A pouco e pouco, algo que me era abstrato tornou-se em algo que eu esboçava diariamente no meu caderno e, eventualmente, se transformou em vinhetas de banda desenhada. Sendo alguém que estava a aprender sobre estes conceitos, se eu os desenhasse de uma maneira que eu próprio entendesse facilmente, talvez muitas outras pessoas conseguissem entendê-los da mesma maneira.

Durante o processo desta banda desenhada houve, principalmente, uma “negociação” entre a mensagem científica (texto e imagem), e o meu estilo gráfico. Mais concretamente, no processo de desenho, procurei adaptar o meu estilo gráfico aos conceitos científicos, de maneira a simplificá-los ou dar-lhes expressão, sem que perdessem o rigor científico. Desta forma, a mensagem científica não seria comprometida. 

Rui Tavares

Processo de criação das imagens da obra, por Rui Tavares


Processo de criação das imagens da obra, por Rui Tavares



| Conheça |

O livro 'Folias mitocondriais: uma breve viagem sobre a energia da vida' está disponível na plataforma UC Monographs, na Amazon e no Google Play. Aceda à obra: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2004-6. Na plataforma, confira também mais informações sobre os autores. 



Lorena Caliman