Ciência Aberta

Comissão Europeia publica recomendações para a avaliação da investigação

Relatórios propõem reformas na avaliação, para incluir critérios que levem em consideração paradigmas da Ciência Aberta

02 dezembro, 2021≈ 8 mins de leitura

Dois relatórios recém publicados pela Comissão Europeia discutem a importância de rever os modelos de avaliação da investigação atualmente vigentes, ampliando o foco qualitativo e levando em consideração o novo paradigma da Ciência Aberta. O primeiro deles, publicado no dia 26 de novembro, é um documento de escopo que resume os resultados de consultas extensivas com parceiros europeus e internacionais, ocorridas de março a novembro deste ano. O segundo relatório, publicado nesta segunda-feira, 29, apresenta recomendações advindas de um workshop com beneficiários da carteira de projetos do Science with and for Society (SwafS) na área de Investigação e Inovação Responsável.

Para uma reforma no sistema de avaliação da investigação

O relatório de escopo "Towards a reform of the research assessment system" englobou uma consulta que identificou objetivos e linhas para uma reforma no sistema de avaliação da investigação na Área Europeia de Investigação e também no âmbito global. A ideia da proposta é discutir como facilitar e acelerar esta reforma de forma que a qualidade, a performance e o impacto da investigação e dos investigadores sejam avaliados com base em processos e critérios mais apropriados.

Propõe-se que a reforma siga princípios e ações a serem acordados entre as organizações que possuem a responsabilidade de definir critérios e processos de avaliação de projetos, investigadores, unidades e instituições de investigação. A implementação desses princípios consistiria na assinatura de um acordo europeu por parte das organizações financiadoras da investigação, das organizações de investigação, das autoridades e agências nacionais e regionais, bem como suas associações.

O ponto de partida para o relatório foi a recomendação da Comissão Europeia aos Estados Membros de 2018 para a definição e implementação de políticas claras para premiar uma cultura de colaboração e partilha de conhecimentos e dados. O atual sistema de avaliação é considerado limitado, por utilizar métodos inadequados e demasiadamente estreitos para avaliar a qualidade, o desempenho e o impacto da investigação e dos investigadores. O objetivo é que a investigação e os investigadores sejam avaliados com base nos seus méritos e desempenho intrínsecos e não somente no número de publicações e onde elas são publicadas, promovendo um julgamento mais qualitativo com revisão pelos pares, apoiado por uma utilização mais responsável dos indicadores quantitativos.

O texto destaca, entre outros pontos, que “a corrida às publicações - a chamada cultura 'publicar ou perecer' vem à custa da qualidade, integridade, e confiança na investigação. Além disso, a utilização dos Fatores de impacto como um indicador de qualidade da investigação revela-se inadequada”. Por isso, o relatório defende que um sistema reformado de avaliação deve basear-se no julgamento qualitativo e que ela "deve reconhecer toda a gama de resultados e processos de investigação, tais como mentoria, funções de liderança ou de divulgação e interação com a sociedade, e deve ter em conta a diversidade dos percursos de carreira individuais”.

Também as unidades de investigação devem, de acordo com a publicação da Comissão Europeia, ser avaliadas “não só com base nos seus resultados de investigação mas também na sua relativa contribuição para missões de investigação, enquanto a avaliação da investigação pelos financiadores deve reconhecer a investigação multi, inter e transdisciplinar, além da investigação que contribui para a inovação e o impacto social”.

A proposta da Comissão Europeia também prevê que o acordo seja acompanhado por medidas de apoio, como apoio financeiro por parte de governos e instituições financiadoras a nível europeu e nacional, campanhas de conscientização para investigadores, a constituição de alianças de universidades europeias, a atualização da carta europeia de investigadores e código de conduta para o recrutamento de investigadores, e uma aproximação do diálogo com autoridades nacionais e regionais com a intenção de reduzir obstáculos e barreiras legais para as mudanças. Por fim, a Comissão ainda recomenda diálogos internacionais para avançar o alinhamento a nível global.

Considerando os diferentes perfis, o relatório destaca ainda que as reformas no sistema devem ser apropriadas para cada tipo de avaliação - projetos de investigação, investigadores, unidades de investigação, e instituições de investigação. Um plano de implementação deve ser estabelecido pelos assinantes do acordo proposto, incluindo resultados, marcos e prazos, de maneira a traduzir os compromissos em mudanças efetivas.

Lógicas institucionais e a Ciência Aberta nas universidades

O segundo relatório da Comissão Europeia, "Enabling open science and societal engagement in research", publicado nesta segunda-feira, 29, reflete os resultados da discussão num workshop realizado em julho. Os participantes, ligados ao programa "Science with and for Society", discutiram como a ciência aberta e o envolvimento da sociedade poderiam tornar-se a norma das organizações de investigação em todo o espaço europeu de investigação, com particular enfoque nas universidades. O documento mostra a avaliação sobre o alinhamento dos princípios da Ciência Aberta com três lógicas institucionais que configuram práticas nas universidades europeias: a lógica da “torre de marfim”, a lógica da universidade utilitarista, e a lógica da gestão da burocracia.

A partir dessas avaliações, os participantes traçaram recomendações de reformas a serem feitas nas universidades europeias, dentre as quais se destaca em primeiro lugar a necessidade de que as universidades e outras organizações de investigação devem reformar os critérios, as métricas e os processos que dão apoio ao recrutamento e à progressão de carreira para que seja possível recompensar as práticas de Ciência Aberta.

Entre as recomendações ainda estão incluídas: a institucionalização da Ciência Aberta nas universidades e organizações como projeto de longo prazo; a continuidade das reformas em indicadores, medidas e processos utilizados nas avaliações dos programas, dos investigadores e das unidades de investigação, com o intuito de incluir a avaliação de práticas de ciência aberta; a avaliação sobre o envolvimento de organizações da sociedade civil e dos cidadãos nos projetos e programas de investigação aplicada e inovação, entre outros.

Como destacado nos documentos, uma iniciativa europeia dedicada a melhorar a avaliação da investigação pode ser vista como uma oportunidade para as universidades considerarem a melhor forma de equilibrar as várias atividades dos académicos na sua avaliação. Os relatórios afirmam a necessidade de recompensar as práticas científicas abertas em termos de colaboração aberta e da partilha precoce de conhecimentos e de dados que possam conduzir a uma maior qualidade, eficiência, impacto e confiança na investigação.


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Leia:

Towards a reform of the research assessment system

Enabling open science and societal engagement in research

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