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João Lopes, 35 anos de crítica cinematográfica

Infelizmente, hoje, muita gente vai ao cinema como se estivesse na sala de estar de sua casa” 

João Mesquita

“Isto é uma perda enorme”, diz com frequência, referindo-se ao que entende ser a “desvalorização do cinema como arte específica”, a “contaminação da imprensa pelos valores tablóides”, ou o desaparecimento de publicações cinéfilas. João Lopes, 54 anos, natural de Caldas da Rainha, não tem problemas em assumir-se como “um céptico”. Mas, ele que é um dos mais antigos críticos cinematográficos em funções em Portugal, continua a falar da arte com uma paixão que parece inesgotável. Duas horas e tal de conversa com a Rua Larga provaram-no, mais uma vez. Duas horas e tal em que o jornalista, iniciado no velho “República” em 1973, coloca Seixas Santos, Fernando Lopes e Manuel de Oliveira entre os realizadores portugueses preferidos (do estrangeiro, fala em Godard e em Bergman), assegura não ter críticos de referência, confessa que vê uma média de 20 filmes por mês (só em sala escura) e confessa gostar de música e de futebol.


Foi um dos participantes nos Colóquios de Outono da Universidade de Coimbra. Que balanço faz da iniciativa?
Já não é a primeira vez que participo numa iniciativa da Universidade de Coimbra. Esta última, permitiu-me confirmar uma impressão de agradável disponibilidade para reflectir sobre a vida artística contemporânea e, designadamente, sobre o mundo da imagem e do cinema.

O que foi mais importante, para si?
Acima de tudo, a criação de um espaço onde foi possível discutir, independentemente de eventuais barreiras professores - alunos.

Tem outras experiências de colaboração com a Universidade de Coimbra?
Há uns cinco anos, participei nuns colóquios promovidos pela cadeira de cinema. Também foi muito interessante.

É um dos mais antigos críticos de cinema em funções. Que ideia tem da critica cinematográfica, hoje, em Portugal?
(Risos). Tenho uma ideia muito céptica...Talvez seja importante começar por perceber as enormes alterações produzidas no consumo de cinema. A generalização de formas como o vídeo e o DVD provocou uma certa banalização. Na minha geração, a relação com o cinema fazia-se, sobretudo, através da sala — uma experiência única, que seria importante não perder em termos culturais. A evolução que se verificou foi paralela a uma involução na crítica. Desde logo, devido à diminuição do espaço que lhe é dedicado. Na presente conjuntura, acabou por aparecer um tipo de texto que, na melhor das hipóteses, é uma informação. Ocorreu uma desvalorização do trabalho crítico. Um segundo aspecto tem a ver com a internet: um caldeirão onde cabe tudo, com predominância dos discursos impressionistas, sem memória histórica.

Essa involução, como lhe chama, era inevitável?
Não. Isto depende sempre das opções que se fazem. Hoje, a raiz das opções está na televisão e não no cinema. Repare que este foi excluído dos horários nobres televisivos. Foi substituído pela telenovela e pela sua linguagem moralista, em muitos aspectos.

Ainda não respondeu ao cerne da pergunta: como avalia a crítica cinematográfica em Portugal?
Resisto à ideia de que exista uma crítica, enquanto identidade. O que existe são críticos. Não consigo dizer se a crítica é boa ou má. Apesar de tudo, continuamos a ter um leque de discursos críticos relativamente variados. O tipo de discurso, atento à especificidade do cinema, é que diminuiu.

O problema não se põe da mesma maneira no estrangeiro?
Reflecte-se mais cá. A nossa imprensa, por exemplo, está mais contaminada pelos valores tablóides.

Mais do que a inglesa?
Sim, sim. Mesmo em Inglaterra, há o “Times”, o “Guardian”... E então, pensando na imprensa francesa ou espanhola, ela não é nada assim. Outro índice é o desaparecimento de publicações especializadas em cinema.

E de cinema português, como vamos?
Mais uma vez é preciso não reduzirmos a questão à existência de filmes bons ou maus. O mais importante é que continua a não haver uma base estável de produção. Claro está que a situação de hoje é melhor do que há dez anos. Mas os profissionais continuam a queixar-se de que é sempre preciso começar do zero. Além disso, o mercado cresceu à custa da concentração de salas nos grandes centros urbanos e nos multiplays, em detrimento dos pequenos centros, onde as salas quase desapareceram, como desapareceram, nos grandes centros, as salas especificamente vocacionadas para a exibição de cinema. Isto é uma perda enorme.

Que consequências tem essa circunstância de hoje se ver cinema, principalmente, na televisão, ou em centros comerciais, a comer pipocas e a beber coca-cola?
Podem resumir-se no desaparecimento de um certo modelo de espectador: o espectador que tem uma relação regular e informada com o cinema. Foi substituído por um outro, que eu chamaria de acidental. A sua ida ao cinema depende muito das promoções, das campanhas publicitárias, e de coisas do género, que fazem com que a escolha dos filmes seja, também ela, acidental.

A minha pergunta era, precisamente: e que consequências é que isso acarreta?
Representa uma enorme perda cultural, que se traduz na desvalorização do cinema como arte específica, essencialmente devido à ligeireza na forma de o encarar. Infelizmente, hoje, muita gente vai ao cinema como se estivesse, simplesmente, a prolongar o seu espaço na sala de estar de casa. Muitos espectadores ignoram, verdadeiramente, o prazer de ver cinema.

Faliu, de todo o modo, a ideia de que o vídeo e o DVD vinham dar cabo do cinema.
Olhe que essa não é uma questão resolvida. É uma hipótese radical que continua no horizonte. Antes de mais, por razões económicas. Hoje, a maioria dos filmes têm a sua grande receita depois da exibição nas salas, através do vídeo, do DVD, da televisão... Há quem acredite numa reabilitação das salas. Mas estas sofreriam uma espécie de globalização, funcionando basicamente como enormes receptoras, à semelhança do que se passa com as grandes salas de televisão. Isto será outra coisa que não o cinema, tal como o conhecemos. Não sei bem o quê, mas provavelmente vamos ter que usar outro nome.

O João tem o que se chama o filme da sua vida?
Já uma vez me perguntaram isso. Respondi: “Lilith”, um melodrama de 1964, do norte-americano Robert Rossen. Marcou-me muito, talvez porque o vi quando vim viver para Lisboa, no princípio dos anos de 1970.

O que é que o entusiasmou assim tanto?
Provavelmente, o facto de nunca ter visto ninguém filmar o “amor louco” daquela maneira. Estas apreciações são sempre um bocado irracionais. Agora, a cinefilia corresponde, precisamente, a essa disponibilidade — que a maioria dos espectadores, hoje, não têm — para continuar a descobrir.

O João Lopes também é jornalista e professor. Como vê o chamado “jornalismo cultural” em Portugal?
Vejo-o numa perspectiva ampliada, relativamente ao que disse sobre o cinema. O espaço para a abordagem da vida cultural diminuiu drasticamente na comunicação social portuguesa.Também aqui sou muito céptico. Os maiores interesses económicos não estão interessados numa aposta dessas. E depois, quer queiramos quer não, o mercado é pequeno. Embora o jornalismo que se faz atenda muito pouco a certos nichos.

O que pode tornar a opção dominante bastante discutível...
Sim, sim, muito discutível, até, do ponto de vista comercial. Mas sabe como é, privilegia-se o que funciona no imediato, o instantâneo, esquecendo-se que não existe um público, mas públicos. É preciso não olhar para esses públicos como se fossem rebanhos. Dou muitas vezes o exemplo de Espanha, onde já se chegaram a produzir cerca de 100 filmes por ano. Com o apoio da televisão, tal como em França. Isto mostra que é possível crescer, conquistando espectadores.

E o ensino artístico, como vai?
Já dou aulas há uns anos e tenho observado alguma evolução. Os alunos, hoje em dia, têm muito mais informação e acesso a mais material. Apesar de se notar, por vezes, uma relação meramente acidental com o mundo dos livros. Agora, não há uma relação estável, institucional, entre a escola e o mercado de trabalho. Este problema continua por resolver. São precisos programas neste domínio.

Qual é o seu realizador português preferido?
Não consigo dar um nome. Dou três, que são referências muto marcantes: Alberto Seixas Santos, Fernando Lopes e Manuel de Oliveira. No primeiro, impressiona-me a capacidade de filmar certas transformações subtis na sociedade portuguesa; o Fernando é alguém extremamente sensível à complexidade das relações humanas; o Manuel de Oliveira é uma pessoas através da qual podemos entender a própria história do cinema. Cem anos de vida, 77 a filmar, impõem respeito!

E realizador estrangeiro?
Fundamental: Jean Luc Godard. Nos seus filmes, aprende-se sobre a vida, sobre o cinema... Cada obra pode ser uma reinvenção fulgurante. Além disso, é alguém que tem sabido integrar as novas tecnologias, sem perder a identidade. Se quiser outro, talvez Ingmar Bergman. É a prova de que o cinema pode ser um grande instrumento de compreensão da complexidade dos seres humanos. Há uma grande carnalidade na forma como filma. Sentimo-nos muito próximos daquilo tudo...

Em Portugal já houve publicações cinematográficas importantes.
Estou a lembrar-me, por exemplo, do “Cinéfilo”...
Por acaso, recentemente foi relançada a “Première”... Mas não é fácil rentabilizar estas
publicações em termos económicos. O peso das revistas cor-de-rosa é assustador! Isso afecta as condições de funcionamento de todo o mercado da comunicação social.

Quantos filmes vê em média, por mês?
(Pausa). Talvez uns 20... Talvez mais... Não, 20 é uma média razoável. Em sala escura, claro.

Pode dizer-se que tem o “vício” do cinema?
O que é um vício? É uma coisa condenável, do ponto de vista moral?

É uma coisa sem a qual não se pode passar — sem qualquer julgamento moral.
Para mim, é um trabalho que faço com gosto. Não é um vício. Não substituo a vida vivida fora das salas pela vida vivida nas salas.

O que é que o “empurrou” para o cinema?
Há sempre uma dimensão de fascínio, que não se explica muito por factores racionais.
Em criança, era o puro deslumbramento. Daí, também, o valorizar tanto a sala escura. Depois, na adolescência, começa a perceber-se que as imagens se relacionam umas com as outras, gerando um acontecimento. Isso é absolutamente fascinante. Tanto mais que não há alternativa. Um ensaio sobre um filme nunca pode substituir o próprio filme.

Quais são os seus críticos cinematográficos de referência?
Não tenho.

Quando não está a ver cinema, ou a escrever sobre cinema, está fazer o quê?
Com o passar dos anos, dou cada vez mais importância à relação com a música. Não tenho nenhuma formação, o que me permite uma grande abertura a diferentes géneros. A música permite-nos sentir o que já não é possível dizer por palavras. Se calhar, permite-nos perceber a musicalidade dos filmes... Além disso, sou um espectador regular e fascinado de futebol na televisão.

Não vai aos estádios?
Não. Fazem-me muita confusão algumas manifestações de “clubite”. O futebol é uma coisa demasiado interessante para se estragar com esse tipo de atitudes primárias.

Já agora, tem clube?
Simpatizo com a Académica.