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Geração Black Cube

António Barros

White Cube é o termo que designa a sala de exposição branca, neutra, que na arte moderna substitui as formas mais antigas de apresentação, como por exemplo pendurar os quadros muito perto uns dos outros sobre papel de parede colorido.
O White Cube propõe uma percepção concentrada e sem distração da obra de arte.
No Círculo de Artes Plásticas de Coimbra, CAPC, em 1972, os propósitos de inovação na mostra são os mesmos, mas aí, onde então a Academia ordena o luto, numa condição identitária a negro o sítio assume-se, e o White Cube logo dá lugar ao Black Cube.
Victor Stoichita assinalou, seguindo Lacan, que se o estado do espelho tem a ver com a identificação do eu, o estado da sombra refere-se à identificação do outro.
Assim o Black Cube, procurando um envolvente infinito, um espaço em negro pretensamente anulatório da sombra, resultará (até provocatoriamente), a ocultar a identificação do outro.
A operação artística Minha Coimbra Deles ..., CAPC, (1973), com o eu afasta o outro, mas é no propósito do eu colectivo que nasce a raíz da utopia, matiz de uma Geração Black Cube no CAPC, cujo legado à Cultura Plástica Portuguesa na década de 70 ganhou já singular reconhecimento.
É então esse um estar em que o objecto ganha uma outra força simbólica, e o alvo é a ardósia operativa – virtual mimesis de uma despida agonia do lugar em negro que resultou norteador das (r)evoluções do seu tempo, onde a operação artística A Floresta, (1973), no CAPC [depois na Alternativa Zero, GNAM, (1977), e.o.], chega como desígnio de uma arte do environment.
A Floresta surge da reiteração funcional do ambiente de acolhimento: O Labirinto, (1972), de Fernando Pinto Coelho, (FPC), que a partir do jogo visual e das superfícies compõe motivos determinados visando produzir novos efeitos ópticos a partir de uma Op Art (já transitória), apta a colher novos valores das galvânicas assemblages.
É a “negra escuridão da floresta” o lugar sintonizador das peças induzidas pelos, aí anónimos, autores mutualistas [CAPC: AA; AM; JC;TS]*, convocando estes, como denominador comum, recursos onde o conceito e a tradição do objecto surrealista ficam incorporados no registo dos artistas.
Na Arte do Objecto incluímos todas as obras de arte que integram objectos ou materiais pré-existentes, ou que são inteiramente compostas por eles – é aquela estratégia duchampiana dos ready-made onde encontramos a potente metamorfose do real. Aí podemos chamar com Barthes, a “força expansiva metonímica”, e é nessa pulsão metonímica e literalmente motiva-dora da instalação, que parte dos objectos se precipitam insistindo no acto interpretativo – como a Homenagem a Josefa de Óbidos,(1973), ou mesmo antes, os premonitórios “achados arqueológicos” que as visionárias instalações de João Dixo, (JD), de 1971, procuraram fazer afirmar.
É no aqui denominado Black Cube (a “sala em negro” do CAPC enunciada por Albuquerque Mendes, (AM), nos seus testemunhos, e onde começou por mostrar a sua promissora acção interventiva), que convulsivamente surgem os objectos comprometidos, como as denotativas Embalagens brancas numa embalagem negra,
(1972), de Armando Azevedo, (AA), seguido dos objectos todos a negro no Piquenique, (1973), e até os alimentos só em preto no Banquete, (1977), também de Túlia Saldanha, (TS) (1930-1988), onde a potência plástica das suas construções memento mori chega a tornar-se comovente. [Ver: AB, Um Voo em Círculo Antes da Morte, Rua Larga #10, Coimbra, UC-GCI, 2005].
Mas o lugar não se resigna. No mesmo cenário sem sombra, e depois de ter aplicado a letra P sobre o Ovo, Silvestre Pestana, regressado do exílio em Estocolmo – onde vem a desenvolver uma das partes mais exímias da sua fecunda carreira –, anuncia no Black Cube um “pOvo nOvo” e aí, a libertar o luto, (re)começa por denunciar as suas convulsivas “acções visualistas”: Poema/Ovo, (1977).
É também no vigor dos 70, no Círculo, pontuando a ocorrência das então denominadas assemblages, que surjo na procura de uma divinização da matéria iconicamente comprometida que, quando sacralizada, resulta emprestando ao sentido uma nova razão semântica [Mitologias Locais, SNBA, Lisboa, (1977)], enquanto que em Enfo(r)camento [Semana de Arte da(na) Rua, Coimbra, (1976)], impera o tempo de então reformular os objectos do social residual para a condição de trash, para um rebaixamento irónico das normas estéticas e qualitativas. Todo um repto a obrigar moldura para o animus kantiano gerado em Puras, Razões Impuras, [GNAM, Lisboa, 1977; Revista Colóquio Artes, FCG, Rui Mário Gonçalves]. Mas é na condição exploratória do enunciado como Visualismo Português dos anos 70-80 que as minhas propostas buscam uma prática híbrida, um simbolismo de densidade consequente, o que vem a acontecer com Escravos1 (1977), parte integrante de Gritos/gRitos [da Angústia e do Sarcasmo] e em TrAdição/Traição2, (1979), escrita da Poesia
Experimental Portuguesa aqui convocada, não apenas para uma súbtil economia retórica, mas uma arte de situação de dizer debordiano.
Em TrAdição/Traição, recorro à fotografia não apenas como reflexo do que aconteceu (memória portátil do efémero performativo), mas como consciência da desaparição. Freud definia a fotografia como captura da experiência fugitiva, o desejo de conservar algo para além do tempo, uma prática afim com a memória escrita: uma prótese com que suportar o inominável – a sua implacável chegada.
É nesta entropia que a fotografia comunga com a matéria land e a palavra – tudo num fluxo de convergência desmaterializadora da arte –, para alto fulgor do lugar criado em Algias, NostAlgias3 (1979), sempre na atmosfera de Black Cube, no CAPC.

[ J > J ]
É também nos anos 70 que a Minimal Art se galvaniza e prolifera. Corrente artística iniciada ainda na anterior década reduz as peças artísticas a formas claramente definidas, colocando-as numa relação concreta com o espaço e o espectador.
Cria-se assim uma relação osmótica e bivalente entre a obra artística e o acontecimento cénico, reflectindo a anulação de barreiras históricas que separam a arte da realidade.
Nesta contextualidade, Jerzi Grotowski reconduz o processo de representação a uma constelação de enunciados corporais extraídos da própria vida. É toda uma formulação de uma gestualidade capaz de envolver o espectador da forma mais directa, enquanto que o existir do texto é considerado como um obstáculo ao imediatismo e à autenticidade do espectáculo cuja finalidade última é confundir-se com a existência real.
Eleita a plasticidade, este tempo ordena que o texto se ausente, ou depure, surjindo reduzido aos seus elementos mínimos (tudo numa súbtil presença do Conceito na arte, como até à própria poesia Visual e Concrecta).
De um outro modo, em Julian Beck, no Living Theatre, a estrutura da narração é confiada a vozes exteriores à cena, e a improvisação, bem como a ideia do corpo do actor como fulcro da representação, são elementos
decisivos. Partindo destes desígnios, uma nova identidade para afirmar os anos 70 logo é ganha, ou seja: um vivenciar em que, no Teatro, é tempo de ser Actuante (Grotowski) e não Actor, e nas Plásticas, é tempo de ser Artor (Rauschenberg) e não Artista – tudo em vigor para uma nova atitude de conjugação da Arte-Vida com a Vida-Arte (Beuys/Vostell > Fluxus), princípios que passam a nutrir plurais segmentos do CAPC e CITAC.
É a partir desta “contaminação”, que José Ernesto de Sousa segue a ousadia de Apollinaire: “J ai enfin le droit de saluer des êtres que je ne connais pas”, e depois de apertar a mão a Joseph Beuys em terras germânicas, não mais contrariou os impulsos oriundos da filosofia Fluxus.
Colhe ao Insulto ao Público de Peter Handke o formato, e, na Ogiva, em Óbidos, constrói o seu happening: Agressão com o Nome de Joseph Beuys, (1972).
Esta “encarnação” J > J [José > Joseph], mais pro-vocatória que profetizadora, encontrou contudo sinergia num irreverente segmento do público que não temeu reagir em manifesto. Eram do CAPC, e traziam ideias próprias.
Exemplo inexcedível da verdadeira erudição, Ernesto de Sousa faz gerar no CAPC as suas galvânicas acções, não só performativas, mas de verbo e imagem a que chamava de “conversas vadias”.
Nascida a profícua e mutualista “contaminação”, Ernesto não mais deixou de se orientar para Coimbra, CAPC, e as suas convulsivas e cúmplices operações não se fizeram esperar. Desses desafios podemos encontrar aqui na memória três dos muitos momentos:


1.º- Seguindo uma ideia inédita de Robert Filliou, artista francês do Fluxus, a 17 de Janeiro de há muitos anos surgiu (hipoteticamente), o nascimento da arte.
Ao CAPC coube, e em resposta a um desafio de JES, realizar a artística comemoração em Portugal do 1.000.011. Aniversário da Arte, (1974).
2.º- Às Sete Meditações... (The Living Theatre), peça executada no pátio da Universidade de Coimbra, (1977), seguiu-se no dia seguinte no CAPC, como nos enuncia JES: “... um dos actos sociais mais emocionantes em que me tem sido possível participar”. O CAPC nas suas instalações, recebera a celebração de um Jantar Ritual da Páscoa Judia, agora versão Living, e em que Julian Beck e Judite Malina conduziram em ousada ritualização os cânticos de Baez e a poesia de Ginsberg para uma solene comunhão performativa sem precedentes.
3.º- No Lavadero, uma antiga fábrica de lavagem de lãs nos Barruecos, em Malpartida (Cáceres), Wolf Vostell (para quem, em Fluxus, ser artista é ser um educador), começa por criar, homenageando Maciunas (na II SACOM, 1979), um original museu para a memória Fluxus: o Museu Vostell Malpartida (MVM), ao qual fez integrar uma representação portuguesa com forte sinal do CAPC [AB, AC, ÇP, TS]*.
Assim, com uma actividade multímoda, a comunidade artística do CAPC é, segundo enuncia ainda JES, a única nos anos 70, no país, que desenvolveu um espírito de “work-shop”, e é nele que surgem projectos como a Semana de Arte da (na) Rua, (1976).
Este lugar resultou incubador de diferentes actividades grupais sinergizadoras de um efeito frutuoso nas artes da década seguinte, onde Coimbra ganha a legenda de “Capital da Performance-Art em Portugal” (Fernando Calhau).
Performativo é o grupo Cores [Grupo de intervenção do CAPC: AA, AB, ÇP, TS e.o.]*, (1977-78), e surge consequente à intervenção: O Todo e a Parte, As partes e o Todo do CAPC no manifesto de JES Alternativa Zero (iniciativa que abre a afirmar, como diz Paul Ricoeur, que “a mais extrema abertura pertence à linguagem em festa”).
Cores, o grupo GICAPC, sucede também às operações grupais Maratona Cultural, (1975), e Ecologicamente, (1975), em Coimbra, desenvolvendo-se contemporaneamente ao Puzzle, (1976), grupo gerado a partir de quatro elementos oriundos do CAPC [AA, AM, FPC e JD]*.
Também na catarse do Círculo, e em expansão para norte, nasce para a área das artes videoperformativas o grupo VideOporto [do CAPC: AB, ÇP, RO, SP]*.
Neste âmbito, e com uma obra interpretativa de um transfer do autor para “Vénus”, Ção Pestana vê o seu trabalho Alter-Ânsias reconhecido com o prémio vídeo-arte na III Exposição de Artes Plásticas, Fundação Calouste Gulbenkian, (1986) [O CAPC esteve representado na exposição com: AB, ÇP, RO]*.
Mas os anos 70 foram sempre um tempo de desafio e procura para as artes-de-acção (performing arts), e para isso, a Oficina de Interacção Criativa, (OIC) (1979), vocacionada para o estudo no domínio exploratório, surge a trabalhar inovadoras interacções dinâmicas.
Insigne escultor e pedagogo, com uma vasta e continuada actividade no CAPC, Alberto Carneiro vem a dirigir a OIC a partir de uma proposta envolvente das unidades CAPC e CITAC.
Paralelamente, e na Galeria CAPC, Dois Ciclos de Exposições: Novas Tendências na Arte Portuguesa e Poe-sia Visual Portuguesa [comissários: AB,AC]*, habitam o Black Cube, fazendo centrar em Coimbra a melhor arte lusa então produzida. Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Helena Almeida, Julião Sarmento, Palolo, Ana Hatherly e António Aragão são alguns dos muitos artistas a partilhar aí as suas obras.
Artoral foi fundamentalmente o Artitude.01, em 1979, e formulei-o para resultar num projecto de objecto-revista de consequência performativa.
Nos seus 6 números editados, começa a publicação por ser um objecto mais que objecto: o sapato como capa de revista cujas páginas são as próprias palmilhas.
Os princípios enunciadores da Universidade Livre Internacional (ULI) de Beuys abriram o número. Uma análise sobre o lugar, foi o terceiro número da revista abordando o tema Black = Black – Imagens e Sensações da Personalidade Coimbra.
O corpo da revista, o grupo Artitude.01 [AB, IC, IP, JL, JT, RO]*, é quem então vem a sinergizar o simposium Projectos & Projectos, Novas Tendências nas Linguagens Artísticas Contemporâneas, iniciativa desenvolvida para o programa Teatro Estúdio do CITAC – um espaço igualmente em negro na mesma identidade Black Cube [comissários AB, RO]*.
A iniciativa dinamizada num espírito artist-run spaces a partir do evento Multi/Ecos, (1978), vem a desenvolver-se nos anos seguintes fazendo inscrever as múltiplas disciplinas das artes performativas.
Aí se afirmaram as obras dos artistas nacionais e internacionais mais relevantes na época. De James Coleman ao Stathion House Opera, Nigel Rolfe, Sztabinski, Peter Trachsel e The Basement Group, entre tantos outros, dialogaram com as experiências portuguesas: de E. M. de Melo e Castro a Ernesto de Sousa, de Jorge Lima Barreto a Rui Orfão (nome maior da performance-art em Portugal) e a Fila K, ou mesmo de Ricardo Pais a Alberto Pimenta, em Conductus, com Isabel Carlos, J. A. Bandeirinha e Jorge Vasques. Ver: CITAC Esta Danada Caixa Preta só a Murro é que Funciona, “Olhares”, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2007, [ISBN:972-87-04-97-6].

Referir os anos 70, é enunciar apenas uma quinta fracção da história do CAPC, que com 50 anos em 2008, viu-os sinalizados com Recordações Imaginárias – em sala e em livro –, uma revisitação da obra singular de Armando Azevedo comissariada por António Olaio. Ver: Armando Azevedo, Recordações Imaginárias, Coimbra, CAPC, 2008, [ISBN: 978-972-8679-23-1]

Referir os anos 70 nas artes plásticas e performativas na Universidade de Coimbra, é convidar a um olhar atento sobre a sua Academia contemplada com o vigor das ideias, e um querer “para além da utopia”, mormente do CAPC [Círculo de Artes Plásticas da Academia de Coimbra], e do CITAC [Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra].
Sempre da Academia de Coimbra.