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Preservação do património documental do Arquivo da UC:

Intervenção científico-tecnológica

Maria José Azevedo Santos * • António Manuel Rocha Gonsalves ** • Catarina Isabel Santos ***

O Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC) possui uma vasta colecção de pergaminhos, cerca de três milhares, dos séculos XII a XVIII, provenientes de diferentes colecções e de múltiplos centros de produção: chancelarias régias, pontifícias, eclesiásticas, monásticas e outras. Este núcleo valioso inclui perto de uma centena e meia de documentos com selos de chumbo pendentes, os quais necessitam de intervenção. Apesar do valor da preservação destes sinais de validação, existem poucos estudos, em Portugal e mesmo noutros países, sobre métodos a aplicar na sua estabilização. Deste modo, atendendo a esta carência, por proposta do AUC estabeleceu-se uma parceria com o Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), para definir um plano de intervenção. Surgiu, então, um projecto de restauro daquele acervo sigilográfico que, sob a chancela da Universidade, teve início em 2005. Actualmente este projecto é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, tendo sido classificado por um júri internacional de “Excelente”.
Os selos de chumbo em análise apresentam estados de conservação variados. No entanto, ao contrário do que numa observação ligeira se poderia pensar, o estado de preservação não está directamente relacionado nem com a idade do selo nem com a sua proveniência. Na verdade, seria de esperar que o “chumbo” (liga de chumbo) fosse relativamente reactivo, atendendo ao potencial electroquímico, mas verifica-se que a velocidade de corrosão é muito influenciada pelo meio ambiente. A resistência do metal é devida à natureza dos produtos formados à superfície, por interacção com o ambiente. Se a camada superficial é aderente, compacta e insolúvel, ela própria protege a superfície de ataque profundo. A própria estabilidade dos produtos de corrosão é um factor determinante. A corrosão local do chumbo é acelerada por valores elevados de humidade relativa e na presença de compostos orgânicos voláteis, tais como ácido acético e ácido fórmico.
Porém, as condições ambientais e a própria composição do metal nem sempre permitem a formação da camada protectora e o metal vai sendo progressivamente atacado de maneira não uniforme. Os sais de chumbo formados, devido ao ataque de ácidos orgânicos, são normalmente transformados em carbonato de chumbo, por interacção com o dióxido de carbono atmosférico. Neste caso acelera-se a corrosão do metal, num processo auto-catalítico, explicando-se o efeito catastrófico causado por pequenas quantidades de ácido no ambiente.
A intensidade do processo de degradação depende da pureza do metal, da natureza dos agentes de degradação e da duração da sua acção. O armazenamento dos documentos durante anos em armários de madeira e arquivos de papel não especial (não acid-free), aliado à dramática mudança climática verificada em Coimbra nos últimos anos, propiciou uma súbita corrosão dos selos. A alteração manifesta-se por mudança de côr da superfície de um cinzento metálico brilhante, inicialmente baço, para um cinza claro e finalmente esbranquiçado. À medida que a corrosão progride, há uma perda de coesão, ou seja, a superfície vai perdendo coerência transformando-se em pó que progride até à destruição total do selo. Pergaminhos muito importantes da História da Universidade, como o documento de venda do Paço Real da Alcáçova à Universidade por Filipe I, em 1597, possuem selos de chumbo que se encontram em avançado estado de perda de coesão e de ilegibilidade das legendas.
O nosso estudo dos selos de chumbo teve início com a análise não destrutiva de um número considerável de exemplares, representativo da colecção em termos de idade, grau de corrosão e origem (papal ou régia). Começou-se por um estudo de composição dos materiais recorrendo à espectrometria de fluorescência de raios X, uma técnica analítica não destrutiva muito utilizada no estudo de obras de arte. O recurso a esta técnica contou com a colaboração do Grupo de Instrumentação Atómica e Nuclear do Departamento de Física da FCTUC, e do seu coordenador, Joaquim Santos, e, numa fase posterior, com o Centro de Física Atómica da Universidade de Lisboa, com Maria Luísa Carvalho. As dimensões variadas dos pergaminhos e dos cordões de ligação documento-selo limitam as técnicas analíticas a utilizar, e a selecção dos equipamentos a que recorremos.
O conhecimento da composição elemental do metal do selo auxiliou a selecção de uma técnica electrolítica de restauro. O recurso a essa técnica é dificultado pelo facto de os selos de chumbo se encontrarem usualmente pendentes dos documentos que autenticam. Isso implicou a utilização de mecanismos de protecção fisico-químicos apropriados.
Uma vez que os armários de madeira, onde se encontra a colecção, não são estruturas bem ventiladas, geram-se microclimas com concentrações relativamente elevadas de compostos orgânicos voláteis no interior das gavetas. Assim, a monitorização fisico-química das condições ambientais da colecção faz parte do plano de intervenção estabelecido.

O pioneirismo do estudo, associado ao entusiasmo de todos os colaboradores do projecto tem correspondido à sua importância e relevo para a defesa da conservação de uma parte significativa da documentação que o AUC tem à sua guarda.

* Directora do Arquivo da Universidade de Coimbra
** Professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
*** Bolseira de Investigação do Projecto