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GC

Graça Capinha

Professora Associada do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas, Universidade de Coimbra

foram quarenta anos a ver apenas um ou dois dedos levantar-se quando perguntava às novas turmas do ano quem gostava de poesia. invariavelmente, estavam ali porque «já não havia lugar nas outras turmas» em que se ensinavam contos ou romances. e a minha tarefa, além da de ensinar o programa previsto, passava a ser conseguir chegar ao fim do ano ou do semestre com alguns outros dedos levantados. creio que venci algumas vezes a batalha e que consegui ensinar, a algumas das gerações que passaram pelas minhas aulas, que a poesia abre o espaço radicalmente livre para um livre pensamento. no recém-criado mestrado em escrita criativa, continuo, por isso, a insistir que, entre escrever bem e escrever mal, há que escolher escrever mal, no que serei absolutamente aristotélica. levar à expansão da consciência implica um trabalho sobre a consciência e, assim, há que ultrapassar o erro numa poética que só pode ser uma dramática. e uma política. pensando no sentido etimológico grego de poiein, fazer, não passamos de fazedores intransitivos neste, e com este, material, cozido nos fornos da história, a que chamamos linguagem. sempre num ritual de partilha, a poesia, esse fazer primeiro que resulta do nosso primeiro som, primeira extensão do corpo e primeira coisa forjada, não é mais do que uma partilha do processo de expansão maior em que nos integramos. é, como bem entendia John Milton, a primeira lei a que temos de obedecer:

a lei da desobediência