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A Voz Trágica de Carlos Paredes na Evocação do seu Centenário: Poíesis e Significado

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JM

José Oliveira Martins

Coordenador Científico do Centro de Estudos Interdisciplinares, Universidade de Coimbra (CEIS20) e Presidente da Direção da Sociedade Portuguesa de Investigação em Música

Escrever sobre a temática da Semana Cultural e da revista Rua Larga de 2025 dedicada à Poesia a propósito do centenário do nascimento de Carlos Paredes (1925-2004) é uma oportunidade para pensar (e evocar) o sentido e significado do legado musical do guitarrista-compositor e entrever a sua continuada pertinência como referência cultural para os anos vindouros. Através do som da sua guitarra, Carlos Paredes deixou-nos, como poucos, uma voz poética capaz de tocar o íntimo dos sentidos e, ao mesmo tempo, convocar uma dimensão colectiva, de pertença e direccionada ao mundo. Por isso, compreender a voz de Carlos Paredes requer pensar a sua música como entidade híbrida, resultante do encontro de intenções entre a poíesis do objecto sonoro e vibrante e o sujeito ouvinte que lhe dê sentido e participe na tessitura do seu significado (individual e colectivo).

Paredes intuiu que a dimensão primordial da poíesis de onde se enunciava a sua voz artística provinha do encontro entre som e verbo. Mas este encontro não se manifesta somente na combinação entre música e palavra poética, como a exerceu ao longo da sua carreira no acompanhamento de voz cantada ou recitada a figuras como Augusto Camacho, Luiz Goes, Ary dos Santos, Cecília de Melo, Manuel Alegre ou Correia de Oliveira. Este encontro acontece num plano anterior e mais profundo de intencionalidade expressiva. Nas suas palavras: «A música e a poesia estão ligadas uma à outra, desde a origem. Ambas começaram com as primeiras pedras da linguagem, irmãs gémeas geradas no ventre da mesma mãe, a voz humana. Não a voz física, que viaja com o vento e nos faz vibrar os tímpanos, mas o que dela se reflecte dentro de nós, no pensamento, nas emoções, nos sentimentos. Tudo quanto, do íntimo, a voz comovida traz cá para fora, leva sempre consigo um tanto de música e um tanto de poesia. (...) Para o exterior, só para o exterior, a voz desdobra-se em poesia e música. Por isso, não podem desligar-se dela todos os instrumentos» (1981).

E que tipo de voz poética soa na guitarra de Carlos Paredes? Em registo de entrevista, e perante a sugestão de que a sua música convoca uma «ressonância trágica», Carlos Paredes concorda, e aponta para uma intencionalidade transformadora da sua música: «Compreendo que encontre na minha maneira de tocar um tom trágico, mais violento do que sentimental. Talvez porque debaixo da aparente estagnação em que vivemos, sofremos profundamente… O português vive sob uma carga de improgresso (sic)… Mas se a pessoa sabe que a situação se pode modificar, então é natural que se exprima com uma certa violência» (1983).

A voz trágica «mais violenta do que sentimental» que podemos associar ao legado de Paredes foi também construída pelo gesto e intencionalidade do corpo performativo do músico na sua relação com a guitarra, participando pleno de intensidade como parte integrante da sua própria música (e que contrasta com os acompanhamentos sabiamente sóbrios de Fernando Alvim e, mais tarde, de Luísa Amaro). Carlos Paredes atribui a seu pai, Artur Paredes, a aprendizagem desta relação tripartida e artisticamente profícua envolvendo intencionalidade sonora, corporal e instrumento vibrante: «O guitarrista tem de integrar a guitarra em si mesmo, tornando-a a sua voz… Foi com o meu pai que aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada». E ainda: «Todo o executante luta com o instrumento que toca, desde que queira pôr cá fora toda a sua personalidade (sua, do instrumento). É absolutamente necessário viver a personalidade do instrumento para executar com algum interesse. Também foi uma coisa que o meu pai me ensinou, que a guitarra tem a sua própria personalidade e que, dentro dela, é um instrumento vibrátil… Faço música instrumental, porque a minha música não pode ser entendida fora da guitarra. Faz parte integrante do instrumento em que é tocada e da pessoa que a toca» (1983).

Esta noção de música de Paredes como luta tripartida (entre som, corpo e instrumento) é poeticamente pensada por Eduardo Lourenço: «Quem ouviu alguma vez tocar Carlos Paredes, quem assistiu ao espectáculo, ao recital em forma de luta e pose entre a sua arte e o instrumento que entre os seus dedos adquire uma vida mágica, não esquece também a espécie de fusão, de confusão íntima entre o artista e a sua guitarra como se ele emanasse dela ou ela, sobrenaturalmente, se transformasse nele» (2003). Acrescenta ainda que a arte de Paredes é uma espécie de imersão de um corpo vivo a um labirinto, que arranca as figuras mais imprevistas e onde as notas musicais falam de nada que possa ser dito, expressando uma inefável alma portuguesa.

Construída essencialmente ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, esta voz trágica e em luta, este labirinto sonoro, afectivo e identitário capaz de, ao mesmo tempo, exprimir beleza, robustez e despojamento, foi sendo progressivamente apropriada em representações de um imaginário português, cruzando, combinando e fundindo tanto de erudito como de popular, de voz Coimbrã, portuguesa e universal, de individual e colectivo. Atentemos, por exemplo, às palavras de José Saramago como ideário de um povo: «Não o pensava antes, quando escutava a guitarra de Carlos Paredes, mas hoje, recordando-a, compreendo que aquela música era feita de alvoradas, canto de pássaros anunciando o sol. Ainda tivemos de esperar uma década antes que outra madrugada viesse abrir-se para a liberdade, mas o inesquecível tema de Verdes Anos, esse cantar de extática alegria que ao mesmo tempo se entretece em harpejos de uma surda e irreprimível melancolia, tornou-se para nós numa espécie de oração laica, um toque a reunir de esperanças e vontades» (2003).

Evocar Carlos Paredes no seu centenário é também perpectivar o futuro do seu legado. As últimas décadas assistiram já à consagração progressiva da figura maior de Carlos Paredes na cultura portuguesa, com impacto tanto em iniciativas institucionais (publicações celebratórias, compilação integral da sua obra, exposições, nomes de ruas e auditórios, prémios municipais), como artísticas (representações plásticas em murais públicos, arranjos musicais, adaptações a outros instrumentos e produções artísticas). A comemoração do seu centenário em 2025 está a ser palco de uma agenda intensa de espectáculos, exposições e debates a que a Universidade de Coimbra (UC) também se associa e participa. À entrada do seu segundo centenário, a voz de Carlos Paredes constitui-se como uma das obras poéticas da segunda metade do século XX mais originais e transformadoras do sentir e ser português. Para futuras gerações, a vida e pertinência cultural desta obra irá sendo aprofundada enquanto quisermos ou soubermos ouvir as tensões ou paradoxos a que a sua música nos convoca: no âmbito temporal, pela capacidade de invocar o legado da música popular e abrir-se a novas possibilidades imaginadas; no âmbito dos lugares, na capacidade de representar um legado local num registo discursivo alargado (global); e no âmbito existencial, na capacidade de acolher o sentir individual e projectar uma vibração colectiva.

Este texto foi escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico, por vontade do autor.