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A «questão poética» na era da inteligência natural

Temos agora novas e poderosas ferramentas, mas os problemas são antigos como a Humanidade.

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Delfim Leão

Vice-Reitor para a Cultura, Comunicação e Ciência Aberta, Universidade de Coimbra

Pese embora a ampla riqueza polissémica do conceito de Poesia, o termo possui, na sua origem, uma dimensão humilde, tendo sido cunhado do verbo que significa simplesmente «fazer», «construir» (poiein). Por esse motivo, a palavra poíesis designa, antes de mais, todo o tipo de «construção» ou «criação», ainda que se tenha vindo a especializar, já na Antiguidade e sobretudo desde Platão e Aristóteles, como forma de designar um produto intelectual elevado e definidor do caráter.

Num ano em que conflui a celebração de efemérides particularmente significativas para Portugal, para a Lusofonia e sobretudo para a Universidade de Coimbra (UC) — os 700 anos da morte do Rei D. Dinis, os 735 anos da fundação da primeira universidade portuguesa pelo mesmo soberano e ainda os 500 anos do nascimento de Luís de Camões —, a opção por eleger a Poesia como tema da XXVII Semana Cultural tornou-se, assim, quase um imperativo cultural e ético.

Antes de mais, por ser D. Dinis o Rei-Poeta, título que se justifica não apenas pelo contributo que deu à literatura, mas pela tenacidade criativa e construtora, que são afinal conceitos cobertos igualmente pelo termo poietes ou «poeta». Em seguida, porque desse impulso criador decorre a fundação da UC, também ela um ato poético em construção ininterrupta, no qual cada geração continua a inscrever renovados contributos à arte, à cultura e à ciência.

Finalmente, porque a celebração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, cujo arranque oficial ocorreu em Coimbra, no dia 10 de junho de 2024, continuará a ser evocada com iniciativas culturais e científicas, sublinhando o papel unificador que a língua de Camões assumiria nos territórios hoje pertencentes à comunidade lusófona, bem como o contributo fundamental da UC para a promoção e difusão da língua e cultura portuguesas.

Evocar a Poesia significa também, de forma direta ou indireta, convocar o primeiro monumentum literário por excelência da cultura ocidental: os Poemas Homéricos. Apesar da forma unânime como o génio do poeta arquetípico foi reconhecido ao longo dos tempos, é também certo que, já desde a Antiguidade clássica, vem sendo alimentada uma famosa «Questão Homérica», que continua a ser animada até aos nossos dias e a partir da qual uma torrente imensa de argumentos e de teorias continua a fluir.

Saber se o Homero histórico existiu de facto e, em caso afirmativo, quando e onde terá vivido; se foi um único compositor que criou a Ilíada e a Odisseia ou se, pelo contrário, estas obras são produto de vários poetas de diferentes períodos; se a criação destas epopeias assenta na técnica de composição oral ou se beneficia já da transição para a escrita; se estes poemas possuem uma unidade consistente ou se as incoerências, repetições e transições abruptas, que por vezes os marcam, sugerem uma compilação a partir de diferentes fontes; se o fundo histórico que retratam é coerente e fiável ou se resulta da aglutinação de referentes arqueológicos e linguísticos separados por séculos de distância.

A lista poderia continuar, mas, no fundo, as dúvidas podem resumir-se a uma grande questão de base: devem a Ilíada e a Odisseia ser vistas como obra de um só génio criativo ou como o culminar de uma longa tradição cultural? Por outras palavras, exprimem a inspiração excecional de um talento solitário ou resultam antes de uma criação coletiva e em contínua construção?

É este um longo e antigo debate, que avança já para o terceiro milénio, fruto de um tempo marcado pelas incertezas da «inteligência natural». Comparadas com a longue durée da homérica discussão, as dúvidas à volta do impacto da «inteligência artificial» acabam por ser uma juvenil pendência, que apenas agora ensaia os primeiros passos. Ainda assim, não deixa de ser impressionante a semelhança que apresenta com a discussão à volta do grande vate grego, dos seus olhos gastos e do semblante carregado por múltiplas indagações.

Boa parte das dúvidas atrás referidas perderiam a sua razão de ser, se «Homero» (chamemos-lhe assim) referisse — em algum momento da obra que lhe vem atribuída — o seu nome, a proveniência geográfica, a profissão, os mestres ou a escola que tivera. Mas não, ao autor da Ilíada apenas interessa empenhar-se na descrição dos efeitos nefastos da ira de Aquiles e, ao da Odisseia, em acompanhar os errores de Ulisses. Ou seja, Homero convive bem com o anonimato e não precisa de créditos de autor.

Por vezes, também «alucina» — como se agora avisa que faz o ChatGPT e outros modelos que imitam o processamento da linguagem natural —, descuidos esses que o poeta romano Horácio já sublinhava com fino humor, ao comentar que «de vez em quando, bom Homero passa pelas brasas» (Arte Poética, 359: quandoque bonus dormitat Homerus). E se é certo que tinha a preocupação de identificar as suas fontes privilegiadas de informação (a «deusa» e a «musa» referidas na abertura dos dois poemas), fá-lo com uma liberdade literária que deixa em aberto todo o tipo de interpretações.

No fundo, a grande «Questão Homérica» não se prende tanto com a resolução de um só mistério obscuro, mas antes com a compreensão da própria interação entre tradição, criatividade e transmissão cultural, e ainda com a forma como nos posicionamos perante elas.