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CEAACP

Centro de Estudos de Arqueologia, Artes e Ciências do Património

Avaliação das Unidades de I&D: CEAACP

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O Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património CEAACP acaba de ser excluída do sistema de investigação associada à FCT. A condenação, inicialmente proferida com a frase exemplar (e, quem sabe, se não é digna de entabular o edifício desta avaliação) "none of the individuals are known to me", é agora tornada definitiva com o argumento de sempre, de que escrevemos muito mas que o fazemos em português.

Escrevemos em português com o orgulho e a honra de quem tem uma língua rica de conteúdo e farta de gente que a usa para comunicar. Mas, também escrevemos e apresentamos a nossa investigação em outras línguas quando isso se torna necessário: e vezes sem conta escrevemos e falamos, em francês, italiano, espanhol, árabe: na língua que for mais adequada a quem lê, a quem ouve e a quem trabalho connosco.

Foi-nos dito que não sabem quem é esta gente; que desconhecem os investigadores desta Unidade de Investigação. Entre muitos outros, não conhecem Jorge Alarcão que é o mais internacional, reputado e citado arqueólogo português e, desconhecem, assim, Fouilles de Conimbriga e Les villae Romaines de S. Cucufate que estão entre as obras mais citadas no mundo da arqueologia romana do Ocidente; nunca ouviram falar de Cláudio Torres, Director do Campo Arqueológico de Mértola, prémio Pessoa e uma vida pública em torno do património e da arqueologia islâmica e que só quem anda muito longe das realidades do património desconhece o seu trabalho na bacia do mediterrâneo; nunca leram José d'Encarnação e, todavia, é um dos mais prestigiados epigrafias do mundo; V. Oliveira Jorge, que edita uma revista em inglês, e que, curiosamente não conta nesta avaliação, é um pré-historiador e teorizador que não necessita apresentação em parte alguma. Também não conhecem a investigação dos jovens do CEAACP em Kani Shaie, cujo projecto foi já  assinalado na Science (Kurdistan Offers an Open Window on The Ancient Fertile Crescent, 4 APRIL 2014 VOL 344 SCIENCE 18), na Current World Archaeology (Kurdistan: A new dawn breaks for Near eastern archaeology, https://www.academia.edu/8349349/Kurdistan_A_new_dawn_breaks_for_Near_eastern_archaeology), The Kani Shaie Archaeological Project: Investigating Early Bronze Age Kurdistan) e teve publicação na Biblical Archaeology Review (http://www.biblicalarchaeology.org/daily/ancient-cultures/ancient-near-eastern-world/kani-shaie-archaeological-project/), nem o trabalho destes para o dossier de candidatura a património da humanidade de Mbanza Kongo, a capital do reino do Congo. Afirmam, convictos, desconhecer a investigação em arqueologia, arte e património em Portugal e,  no entanto, aceitam avaliar. Ora, quando se aceita avaliar o que se desconhece  fica clara a legitimidade da avaliação e o destino da Unidade de Investigação avaliada.

Nesta altura pouco importam as razões que nos condenaram. São as razões que, obviamente, não são as razões da razão.

Importa, porém, deixar claro; sem o apoio da FCT os nossos projectos terão algumas dificuldades, mas nós recusamos morrer por condenação de quem não sabe quem somos e nem se interessou em vir conhecer-nos. Tivessem vindo e teriam visto a profundidade dos seu engano.

Registamos a nossa reacção com o belíssimo poema de uma brava mulher que orgulhosamente escreveu em português

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Com Fúria e Raiva

Com fúria e raiva acuso o demagogo

E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada

Que de longe muito longe um povo a trouxe

E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início

O homem soube de si pela palavra

E nomeou a pedra a flor a água

E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo

Que se promove à sombra da palavra

E da palavra faz poder e jogo

E transforma as palavras em moeda

Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"