Episódio #61 com Célia Lavaredas
A empatia ao serviço dos cuidados saúde prestados à comunidade da Universidade de Coimbra
Quis um dia ser “doutora de crianças”, mas o percurso profissional levou-a a ser “doutora de jovens universitários”. Célia Lavaredas chegou à Universidade de Coimbra (UC) em 1990, para se licenciar em Medicina, curso que sempre quis seguir. E assim foi. Hoje, continua nesta casa, não como estudante, mas como profissional. É médica de Medicina Geral e Familiar dos Serviços de Saúde e de Gestão da Segurança no Trabalho dos Serviços de Ação Social Universidade de Coimbra desde 2004, e, todos os dias, veste a bata para escutar e acompanhar atentamente todos os membros da comunidade UC que passam pelo seu gabinete.
Entrei nesta casa pela primeira vez em 1990. Não sou de Coimbra, sou da Beira Interior e vim para a Universidade de Coimbra estudar, como acontece todos os anos com muitos alunos deslocados. Fiz aqui o meu percurso académico na licenciatura da Medicina, que terminei em 1996.
Em 1999/2000, fiz o 10.º curso de Medicina no Trabalho e em 2010 decidi fazer o mestrado em Nutrição Clínica. Numa perspetiva mais prática/clínica, acho que não cumpriu tanto as minhas expetativas, uma vez que o mestrado acaba por ser mais teórico e não era tão direcionado para a aptidão prática como gostaria. Mas quando me reformar ainda volto a fazer um curso de Nutrição.
Fui a típica criança que queria ser médica. Na escola primária já queria ser médica, mas com um pormenor: sabia que especialidade queria. A minha mãe conta que fiz uma composição e disse que queria ser pediatra. A professora achou que eu tinha ouvido aquela palavra, mas que não sabia o que é que significava e perguntou-me: “Célia, o que é ser pediatra?”. E eu respondo: “Então não sabe? É ser doutora das crianças!”. Era essa a minha vontade.
Durante o curso de Medicina, com a passagem pelo Hospital Pediátrico, esta certeza mudou, porque percebi que gostava muito de crianças, mas não tinha a capacidade de ver crianças gravemente doentes. Mas graças a Deus que há muita gente que tem esta capacidade. No entanto, mantive sempre o interesse pela parte clínica, em particular pelo contacto com as pessoas, e acabei por escolher a especialidade de Medicina Geral e Familiar.
Quis ficar em Coimbra a trabalhar e foi na cidade que fiz a especialidade em Medicina Geral e Familiar. Estava na situação a que se chamava de vaga carenciada, que era o prolongamento do vínculo durante algum tempo, quando soube que o colega que estava aqui no serviço a fazer consulta de clínica geral se tinha reformado. Decidi candidatar-me ao lugar, fiz uma entrevista com o Dr. Luzio Vaz, e, a 20 de novembro de 2004, comecei a trabalhar nos Serviços de Saúde da UC, quando ainda funcionavam no edifício situado perto das Escadas Monumentais.
É gratificante perceber que a disponibilidade para ouvir e falar com alguém pode resolver problemas que podem parecer quase insanáveis para as pessoas. A Clínica Geral permite-nos ter uma abordagem holística para perceber problemas que, muitas vezes, não são verbalizados. E, por isso, o contacto direto com as pessoas agrada-me muito. Modéstia à parte, acho que tenho alguma apetência para isso. Sinto-me gratificada quando as pessoas me dizem “já estou muito mais leve, ainda bem que falei consigo”.
E, claro, a parte clínica, do tratamento e da prevenção, também me traz uma grande satisfação. E sublinho o papel da prevenção, que é fundamental na saúde. Temos na UC projetos de prevenção que são muito importantes, nomeadamente o Rastreio Proteção +, no âmbito das Infeções Sexualmente Transmissíveis, uma área que, muitas vezes, as pessoas têm alguma relutância em procurar. Aqui na UC oferecemos o rastreio para toda a comunidade académica, e apostamos no seguimento e na resposta sempre que for identificada uma anomalia.
A empatia e a compreensão: conseguir perceber, ler nas entrelinhas e chegar à pessoa com a resposta que ela precisa. E também a parte científica, claro. Costumo dizer aos meus utentes que sou generalista, sei um bocadinho de tudo, não sei muito de nada. Felizmente, temos a hipótese de referenciação, tal como acontece no Serviço Nacional de Saúde. Sou sempre muito leal com os meus utentes: aquilo que acho que me transcende e que vai além da minha capacidade, seja humana, seja científica, é referenciado para quem de direito.
Por exemplo, aqui nos Serviços de Saúde e de Gestão da Segurança no Trabalho da Universidade de Coimbra temos uma equipa de saúde mental estruturada, trabalhamos em stepped care, ou seja, em degraus. Nem todos os utentes precisam do mesmo tipo de cuidados e, às vezes, uma consulta que foi marcada por um motivo em particular pode levar a outro. E é a possibilidade de trabalharmos em equipa também que facilita esta possibilidade de dar ao utente a resposta que ele precisa.
Desde o tempo das receitas em papel e das credenciais verdes, os Serviços Médicos da Universidade de Coimbra têm um protocolo com a Administração Regional de Saúde – que agora é denominada Unidade Local de Saúde –, que nos permite fazer a prescrição de receituário e de exames complementares, através do Serviço Nacional de Saúde. E isto é fundamental para a nossa prática clínica diária na UC, porque se não fosse possível pedir, por exemplo, um exame comparticipado, iria limitar muito aquilo que pode ser desenvolvido em termos clínicos aqui.
Em termos de organização, nos centros de saúde além da consulta geral, há consultas para grupos vulneráveis. E na Universidade de Coimbra também fazemos acompanhamento de alguns desses grupos, nomeadamente na saúde da mulher (o chamado Planeamento Familiar), com a consulta geral a ser feita por mim e todo o acompanhamento e seguimento necessários a ser feito pela minha colega da ginecologia. Nesta área, temos também um protocolo que foi conseguido há relativamente pouco tempo no âmbito dos métodos contracetivos, porque não fazia sentido que tal não acontecesse atendendo à nossa população. E, por isso, cedemos métodos contracetivos gratuitos, da mesma forma que são cedidos nos centros de saúde.
Destacaria também o tipo de população universitária que tenho vindo a acompanhar ao longo dos anos. Há 20 anos, quando entrei nesta casa, a população era maioritariamente de 1.º ciclo – jovens, dos 18 aos 20 e tal anos, que vinham fazer a sua licenciatura na UC. Estudantes de mestrado e de doutoramento eram muito mais residuais neste serviço. Já hoje em dia, por vezes sou uma médica de família, porque acompanho a família toda, em particular de estudantes internacionais, que trazem a família para Coimbra e inscrevem todos os elementos do agregado nos nossos cuidados de saúde, porque todos têm direito a esses cuidados aqui na UC. Este acompanhamento familiar também pode ser muito importante. E, estando nesta casa há duas décadas, chego a acompanhar atualmente pessoas com vínculo laboral à UC que comecei a acompanhar quando eram “caloiros”.
Sim, e inclusivamente para trabalhadores que já estão aposentados, que continuam a ter direito aos nossos cuidados. Segundo o nosso regulamento, têm direito aos nossos serviços todas as pessoas que têm um vínculo à UC, atual ou passado. E também os companheiros dos membros da comunidade UC – marido/mulher, união de facto e filhos – podem usufruir destes cuidados. No caso dos filhos, este acesso decorre nos moldes da ADSE: até aos 18 anos de idade, e a partir dos 18 e até aos 24 ou 25 anos, desde que façam prova que são estudantes.
Destaco um intervalo temporal que culminou, em 2014 (salvo o erro), com a fusão dos Serviços de Saúde com os Serviços de Medicina no Trabalho da UC. Acho que a união entre estes dois grupos de saúde veio criar sinergias e permitir-nos uma reorganização dos serviços que era necessária.
Neste contexto, os serviços médicos tiveram uma evolução que considero natural em termos de organização para serem minimamente sustentáveis em termos económicos. E isso traduziu-se na redução das especialidades, que hoje referenciamos a nível hospitalar sempre que necessário, para estarmos focados em ser uma unidade de cuidados de saúde primários, à luz do funcionamento de um centro de saúde, focando também outras áreas, que são áreas de grande procura, nomeadamente a saúde mental. A evolução do serviço tem sido marcante para a minha prática clínica, em particular a troca de opiniões e a sinergia de recursos, que tem potencializado o conhecimento, o esforço e trabalho diário de toda a equipa.
Em primeiro lugar, aproveitem a Universidade de Coimbra e a cidade de Coimbra. Coimbra é uma cidade pequena, mas que nos oferece muita coisa, com qualidade de vida. E permite aos estudantes conviver, porque em universidades e cidades como Lisboa os estudantes podem conviver em determinados polos, mas não há, por exemplo, uma Praça da República para se encontrarem e socializarem.
Em segundo, aproveitem a vida universitária, mas com cuidado, sem extremos em aspeto algum. E sobre isto, há algo que costumo dizer, até mesmo às minhas filhas: divirtam-se em consciência e em segurança. Porque os consumos, determinados hábitos, levam seguramente a perda de segurança em determinadas situações, com consequências que não são as desejáveis.
Para finalizar, os Serviços de Saúde e de Gestão da Segurança no Trabalho da Universidade de Coimbra estão cá disponíveis para ouvir, para tentar resolver os problemas das pessoas, para tentar direcionar da melhor forma, porque é para isso que existimos como equipa.
Assista ao vídeo desta entrevista:
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